O Estado Novo de Salazar na memória de quem o viveu
António de Oliveira Salazar e o Estado Novo. (cfaecentro-oeste.pt)
Só os portugueses e as portuguesas com mais ou menos 15 anos no dia 25 de Abril de 1974, hoje a rondarem os 65, podem ter memória crítica de algumas particularidades dos últimos estertores do Estado Novo, que viram cair. Rapazes e raparigas com menos idade, ou seja, as crianças desse tempo, talvez se lembrem de um pormenor ou outro. Só a chamada terceira idade viveu ou sofreu um regime que nos privou de todas as formas de liberdade, torturou muitos de nós, durante quase meio século. Só os mais velhos, com 70, 80 ou mais anos – como é o meu caso, que, no 25 de Abril, somava 43 anos de vida, quase tantos quantos os da ditadura –, viveram e conheceram, em pormenor, a censura e a repressão. Só a “peste grisalha” – na deselegante expressão do deputado Carlos Peixoto, do Partido Social Democrata –, à qual o Estado garantiu uma pensão, mas arrumou na prateleira dos esquecidos (leia-se “reformados ou pensionistas”), conheceu toda essa indignidade, esse sufoco.

Assim sendo, torna-se evidente que a grande maioria dos nossos adultos no activo pouco ou nada sabe de um regime que nos privou de todas as formas de liberdade, torturou muitos de nós, durante quase meio século e que caiu de podre no dia em que os cravos floresceram nas espingardas dos soldados.
É evidente que há excepções. Basta pensar no grande número de livros, dissertações, escritos diversos e outros trabalhos da autoria de historiadores e de outros estudiosos. Também é evidente que o número destes portugueses representa “uma gota de água” num universo de milhões ao qual a escola do pós-25 de Abril deu diplomas, mas não deu cultura.

Nos anos de 1930 e de 1940, os das duas primeiras décadas de consolidação do Estado Novo, Portugal viveu em situação de ditadura, distinguindo apoiantes do novo regime e oposicionistas, de entre os quais se evidenciaram, por serem publicamente conhecidos, os que “se metiam na política”, localmente referidos como sendo “os do reviralho”. Eram os da chamada oposição democrática, consentida por Oliveira Salazar, com destaque para os do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Criado em 1945, o MUD foi extinto três anos depois, em virtude do grande apoio popular que registou, agrupando muitos opositores até então isolados, entre os quais muitos intelectuais e profissionais liberais.
Outros opositores, que quase ninguém conhecia, militando na clandestinidade pelo Partido Comunista Português, eram activamente perseguidos, primeiro pela PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), entre 1933 e 1945, e, posteriormente, pela sua substituta PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). A estes opositores, os “pides” deitavam-lhes a mão, levavam-nos para Lisboa, onde os interrogavam, brutalizavam, guardando-os depois, pelo tempo que entendessem, e, em alguns casos, assassinando-os. Para os localizarem e denunciarem havia os informadores, também referidos por “bufos”, uns conhecidos outros não, pelo que se dizia que as mesas dos cafés, os bancos do jardim, as paredes de todo o lado e até as pedras da calçada tinham olhos e ouvidos.


Novo”. (clourdes.pt)
Para além das restrições à liberdade e da censura, fez-se sentir, também aqui, o Decreto-lei n.º 27.003, de 14 de Setembro de 1936, que determinava, no seu 1.º artigo: “Para a admissão a concurso, nomeação efectiva ou interina, assalariamento, recondução, promoção ou acesso, comissão de serviço, concessão de diuturnidades e transferência voluntária, em relação aos lugares do Estado e serviços autónomos, bem como dos corpos e corporações administrativos, é exigido o seguinte documento com assinatura reconhecida: ‘Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as idéas subversivas.’ [sic]” E, mais adiante (no Artigo 4.º): “Os directores e chefes dos serviços serão demitidos, reformados ou aposentados sempre que algum dos respectivos funcionários ou empregados professe doutrinas subversivas, e se verifique que não usaram da sua autoridade ou não informaram superiormente.”

Embora, na letra da Constituição de 1933, figurasse o princípio da igualdade entre cidadãos perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona de casa e, em quase tudo, submissa ao marido. A lei portuguesa de então designava o marido como chefe de família, sendo reservado à mulher o governo da casa, o que se traduzia pela imposição dos trabalhos domésticos como obrigação, não tendo os mesmos direitos na educação dos filhos. De facto, a mulher não tinha direito de voto, não podia ascender a determinadas chefias nem exercer cargos na magistratura, na diplomacia e na política.
Sendo casadas, as mulheres perdiam o direito de intervir nas suas propriedades, não podiam viajar para fora do país sem autorização dos maridos e não podiam trabalhar sem autorização destes. O marido podia dirigir-se ao empregador e declarar não autorizar a mulher a trabalhar, o que implicava o seu imediato despedimento.

Em muitos hospitais, as enfermeiras podiam ser impedidas de casar. Se casassem, podiam ser obrigadas a abandonar a profissão. As professoras tinham de pedir autorização para casar, o que só era permitido se o noivo satisfizesse determinadas condições, sendo essa autorização publicada e em Diário da República1. O divórcio era proibido, devido ao acordo estabelecido com a Concordata de 1940, numa submissão do Estado à Igreja Católica. Assim, todas as crianças nascidas de uma nova relação, posterior casamento, eram consideradas ilegítimas, não podendo ter o nome do pai, ou seja, o do companheiro.
Na orientação ideológica antiliberal e de cariz católica do ditador, a existência da mulher confundia-se com a da família, estando-lhe reservado o espaço doméstico. A Obra das Mães pela Educação Nacional, organização feminina do Estado Novo criada em 1936, tinha por objetivo “estimular a acção educativa da família e assegurar a cooperação entre esta e a escola nos termos da Constituição” de 1933.

Nascida em 1912, como suplemento feminino do jornal O Século, a revista semanal Mulher – Modas & Bordados, dirigida, nos primeiros tempos, a uma pretensa elite feminina, fornecia-lhe conselhos nos domínios da moda, da culinária, das boas maneiras e da beleza. Mostrou, porém, alguma preocupação de valorização da mulher, testemunhada pela publicação regular de sonetos da grande poetisa alentejana Florbela Espanca (1894-1930), uma das primeiras mulheres a frequentar o Liceu Masculino André de Gouveia, onde permaneceu até 1912. Foi, porém, com Maria Lamas (1893-1983), opositora ao regime e feminista, na direcção desta revista, que a luta contra a secundarização da mulher se fez sentir, não só em Évora, onde tinha ligações familiares, como no país.

Depois de duas décadas de confronto com o liberalismo e o republicanismo, a chamada “pax salazarista” proporcionou à Igreja (grandemente afectada durante a Primeira República) um terreno propício à sua reimplantação e reestruturação interna. Nestes propósitos, assumiu papel fundamental o então patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), dirigindo a Igreja Católica Portuguesa durante o Estado Novo. Elevado ao cardinalato em 1929, pelo Papa Pio XI, foi amigo íntimo e companheiro de Salazar (militante católico nos tempos da Primeira República), no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra.

Com a subida de António de Oliveira Salazar ao poder, o cardeal Cerejeira pôde garantir à Igreja, protecção, respeito e liberdade de acção. Estava na sua mente recuperar e salvaguardar os privilégios do catolicismo, como Igreja do Estado, afastados pela Primeira República, tendo tido papel fundamental na assinatura da Concordata com a Santa Sé, em 1940, na criação da Acção Católica Portuguesa, visando a “recristianização” da sociedade, na obrigatoriedade do ensino religioso, na abertura de novos seminários e casas religiosas, bem como no desenvolvimento da imprensa católica.
Em 1936, com Carneiro Pacheco no Ministério da Educação Nacional (anteriormente, chamava-se da Instrução Pública), reforçara-se o papel da escola no controlo ideológico e na orientação política dos alunos, na prevalência do livro único, no culto das virtudes nacionalistas e no elogio da vida modesta e rural. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro.

Nestes anos, o ensino obrigatório ainda terminava com o exame da 3.ª classe (3.º ano, como agora se diz), certificado pelo diploma do “Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima vigorou até 1956. A partir de então, a escolaridade aumentou para quatro anos, apenas para os rapazes. Só quatro anos depois, esta obrigatoriedade foi decretada para as raparigas.
Na Escola Primária, a pedagogia estava na ponta da régua, versão escolar da tradicional palmatória ou “menina de cinco olhos”. Com algumas professoras, as reguadas estalavam nas mãos das crianças “por dá cá aquela palha”, quer por motivos de disciplina, quer por erros nos ditados, nas contas e em quaisquer outras matérias.

À margem da Escola Primária, havia as chamadas “Escolas Incompletas”, criadas em 1930, mais tarde designadas “postos escolares”, com o propósito de combater o analfabetismo no seio de populações sem escola nem condições mínimas de fixar professores. Aqui, o ensino era ministrado por “regentes escolares”. Na imensa maioria, as mulheres ganhavam metade do ordenado de um professor, bastava que possuíssem a quarta classe, que demonstrassem ter bom comportamento moral e adesão ao regime e que fossem, de preferência, oriundas dos próprios locais.
A análise histórica da documentação permite verificar que, nesses anos, os professores, diplomados pelas Escolas Normais, foram sendo substituídos pelos regentes escolares, em especial nas aldeias e na periferia das cidades. A escolaridade obrigatória, como se disse, baixara para a 3.ª classe e as crianças estavam preparadas para trabalhar e ouvir o sermão do senhor padre aos domingos.

Salazar procurou promover uma sociedade ruralista, dando relevo à família patriarcal e católica. No discurso de Salazar, proferido em 12 de Maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, em Lisboa, Salazar disse: “Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia: ‘Gostava que os pequenos soubessem ler para os tirar da enxada’. E eu gostaria bem mais que eles dissessem: ‘Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da enxada.’”
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Nota da Redacção:
1 – Segundo o Polígrafo (jornal português de fact-checking): “Em causa está o Decreto-Lei n.º 27.279 de 24 de Novembro de 1936, mais especificamente o Artigo 9.º, em que se estabelece que ‘o casamento das professoras não poderá realizar-se sem autorização do ministro da Educação Nacional’.”
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08/12/2025