Chile
Antofagasta, no Chile. (Créditos fotográficos: Trevor McKinnon – Unsplash)
“Chile” (do Mapuche: “onde a terra acaba, os confins da terra”)



Eu devia a mim uma revisitação, um retorno a Santiago do Chile. Conheci a cidade em 1987. E aquela era uma época sombria, um tempo em que vigorava uma perseguição aos dissidentes do regime, sem precedentes. Nas ruas lá estavam eles a postos, em cada esquina onipresentes, os “carabineiros”, não sei se sisudos pelo gosto do experimento do poder expresso em repressão ou se indolentes por estarem designados a vigiarem, a conterem o povo. Afinal, eles eram povo.
Ainda assim, o santiaguense ao ter a sua liberdade vigiada, agia na surdina. Por isso, a cidade amanhecia a ter murais que reivindicavam cidadania, muitos cartazes eram pregados nos postes com um “NO”, um grande não a ser preenchido por quem por ali passasse e quisesse expressar sua indignação. No mais, parecia-me ser uma cidade muda. Falar era, por demais, perigoso.

No meu passeio quis ver a cidade a partir do topo do Cerro Santa Lucía, onde Santiago fora fundada. Na subida, encontrei três estudantes universitários de língua portuguesa, queriam estar a praticar o idioma. A tarde prometia ser lusófona, todavia nunca se dispunham a opinar sobre política. Queriam, sim, falar do Brasil. Segundo eles, “um gigante”, ainda que a não fazer fronteira com o Chile. Uma espécie de maravilha imensa, tão distante! Terra sem fins, um mundo outro.

À noite, levaram-me a um restaurante onde se podia comer fantasiado (era só pegar uma fantasia e usá-la), escrever num quadro negro com um giz, tomar um Pisco Sour ou eleger o drink caribenho que dava nome ao estabelecimento: Coco Loco. Um lugar libertador, descompressor. Contudo, controlado, dado o preço no menu evidenciar que aquele lugar existe tão-somente para o alcance das elites financeiras, dos comerciantes e dos governantes. Em todo caso, vi por lá risos, enquanto nas ruas não.


arranha-céus com 300 metros de altura. É considerado o edifício mais alto
da América do Sul. (pt.wikipedia.org)
Era uma cidade triste. Tinha eu, portanto, uma recordação pouco serena quanto a Santiago. Havia que voltar. Assim fiz décadas depois. Ciente de que a cidade tinha um mirante no topo da Gran Torre e de que o céu se encontrava azul depois de um dia chuvoso, a condição ideal para estar a ver a cidade sem bruma nem poluição, joguei-me lá para estar a contemplar a belíssima paisagem.
A cidade é toda cercada pelo paredão dos Andes, tudo que há num antes deles é Santiago, o restante não. Quando se está em Santiago, somos Santiago. É impossível não experimentar este pertencimento ao contemplarmos a cidade.
Em seguida, desci. Uma vez lá em baixo, dirigi-me ao centro comercial que por ali se encontra. Na entrada, alguém supõe estar a me reencontrar. O gajo está perplexo por me ver. Toca-me o ombro. Dada a minha indiferença, contém-se. Ainda assim arguiu-me: “Manoel Suarez?” Ou seria Manuel Soares? Disse-o absolutamente absorto de lembranças. Num aceno facial, respondi-lhe que eu não seria aquele não. Parecia que eu o deixara apalermado e contrariado. Teria ele encontrado em mim um sósia de alguém? É muito provável. E que “recuerdos” eu estava a promover-lhe? Que laços interpessoais teriam existido entre ele e o recordado?



O escritor Ariel Dorfman – que nasceu na Argentina, em 1942, e se naturalizou chileno – conta num livro um encontro tenso entre uma ex-presidiária política e um médico, com ela a supor ter sido ele o seu algoz. Antónia Garcia Castro explora, em “A Morte Lenta dos Desaparecidos”, o impacto forjado na sociedade chilena por gerações em razão dos desaparecimentos ocorridos.
Roberto Bolaño lacrou, no seu livro “Nocturno de Chile”, a importância da memória como testemunho. Nona Fernandez, em “A Quinta Dimensão”, apresenta um ex-agente de segurança que procura uma revista para contar os seus excessos e crimes, lista torturas e nomes.

Todavia, apesar de o Chile dispor de um universo fantástico de literatura quanto à sua identidade e memória, eu queria conhecer as casas de Pablo Neruda, de que vos irei contar no próximo artigo. No evento daquele “desencontro”, intuí apenas uma assertiva: em nenhum lugar do Mundo passará despercebida a minha origem lusitana. Trago no rosto e na carcaça um Manuel Soares. Ou seja, levo-me português no Mundo. Se se tratasse de um Manuel Soares, o indivíduo que aquele transeunte teria conhecido, é natural que o meu biotipo e estilo tenham acentuado a sua memória. A não ser isto, não encontro outra explicação para aquela abordagem por força de uma verossimilhança.

Só o Chile pode explicar os avanços e os recuos da sua contradança colectiva, as (re)visões individuais da sua gente. Encontrar traumas, resgates, cumplicidades, saudades, através das ausências presentes. Cada gente sabe da sua gente.
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25/05/2026