O ruído de um golo anulado

 O ruído de um golo anulado

(slbenfica.pt)

Nem o mais ferrenho dos benfiquistas se vai lembrar de 28 de dezembro de 2025, dia de jogo da Liga Portuguesa, contra o Sporting de Braga, e noite de polémica devido a um golo anulado aos 75 minutos que teria dado a vitória aos encarnados. O jogo acabou empatado a 2-2, mas o interessante foi a repercussão e o alvoroço em torno desse simples momento. Entre reações a quente, tweets fugazes de “notáveis” e a interminável sequência de comentadores em todos os canais desportivos e de notícias, foi muita tinta, muita saliva, muito espaço em servidores para encher chouriços. Hoje, tudo é digno de comentário, haja ou não conteúdo.

(youtube.com/@VSPORTSPORTUGAL)

Este problema lembra-me a canção “Pós Moderno”, dos GNR: “[…]” Ah! Os pós-modernos agarram na angústia / E fazem dela uma outra indústria / Com (com-com-com-com) os pós-modernos nunca ganhamos / Mas também nada investimos […]” Talvez os pós-modernos tenham vencido, não nas universidades, mas nos estúdios de televisão e na cultura do imediato. O Pós-Modernismo vive de autorreferencialidade: não se trata de viver uma obra ou um acontecimento, mas, sim, de analisar os mecanismos à volta do que acontece. É um metacomentário que se foca na forma como se contam as coisas, não na história em si.

(colunastortas.com.br)

O que tem isto a ver com um golo do Benfica? Pouco com o golo em si, mas muito com o que acontece depois nas redes sociais e nas televisões. Isto porque a narrativa depressa passa da ação em si – a decisão do árbitro – para análises alheias ao jogo: desde influências externas até às contratações na pré-época. E, depois, comentam-se comentários: alguém que estica duas frases críticas do presidente do clube numa semana de análise. O futebol é um bom exemplo, mas esta é a realidade que nos trouxeram os canais noticiosos de 24 horas e as redes sociais. O barulho criado à volta de qualquer coisa alimenta-se a si mesmo. E a substância perde-se.

A canção “Pós-Modernos” dos GNR está incluída no
álbum “Psicopátria”, editado em Setembro de 1986.
(retropolitano.substack.com)

Os GNR cantam: “Com […] os pós-modernos nunca ganhamos / Mas também nada investimos […]” Por estar tão focado na forma e no comentário, o pós-modernismo vive quase como parasita. Sem algo novo, a análise não pode existir e, embora se finja criar valor ao analisar a análise, tarde ou cedo, o conteúdo evapora. Nada investimos, nada ganhamos. Contudo, acho que sim, algo investimos – e perdemos: tempo e emoção. Sentimos o que pensamos, mesmo que não exista. É a raiva que se sente ao ler ataques contra o nosso clube, o stress a vibrar no estômago ao observar uma injustiça virtual. Mas quanta da realidade se perde enquanto dedicamos tempo ao metacomentário?

Quando investimos atenção no virtual, podemos estar a perder coisas mais importantes no meio do ruído. Nem tudo deve ser análise, nem tudo ação. Num dia somos o treinador a contratar jogadores para colmatar falhas no plantel; no outro, agimos por instinto e marcamos o golo. E que, nesta vez, não seja anulado.

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02/03/2026

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Marco Dias Roque

Jornalista convertido em “product manager”. Formado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, com uma passagem fugaz pelo jornalismo, seguida de uma experiência no mundo dos videojogos, acabou por aterrar no mundo da gestão de risco e “compliance”, onde gere produtos que ajudam a prevenir a lavagem de dinheiro e a evasão de sanções. Atualmente, vive em Londres, depois de passar por Madrid e Barcelona. Escreve sobre tudo o que passe pela cabeça de um emigrante, com um gosto especial pela política e as observações do dia a dia.

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