Odisseias…
Christopher Nolan adaptou “A Odisseia” de Homero. (expresso.pt/cultura/cartaz_cinema)
Não sei se foi coincidência, mas pouco antes do final da Copa do Mundo de 2026 (em 19 de Julho), foi a estreia do filme “The Odyssey” (“A Odisseia”), do oscarizado Christopher Nolan (a 16 ou a 17 de Julho, dependendo do país), e assim passámos da audiência planetária do futebol para a audiência planetária do épico de Homero.


Filme que se destaca pelo êxito de bilheteira – no início de Agosto já tinha ultrapassado os mil milhões de USD (dólares dos Estados Unidos da América) – e por ser uma das mais caras produções da História do Cinema, com um orçamento de cerca de 250 milhões de dólares. Eu pensava que era a “Cleópatra”, da Liz Taylor!
Mas não importa, são pequenos pormenores. A versão cinematográfica (que, confesso, ainda não vi) actualiza uma das mais importantes – senão a mais importante – obras da literatura universal, juntamente com “A Ilíada”, ambas atribuídas ao poeta/aedo/cego Homero. E escrevemos “atribuídas”, pois há uma longa discussão sobre a autoria das duas obras e sobre a verdadeira existência de Homero.
.A “Odisseia”: a viagem atribulada do protagonista durante dez anos, depois da guerra, do cerco, da destruição e da queda da cidade de Tróia. Julgo que todos saberão alguma coisa, mesmo que pequena, sobre esta guerra; o rapto de Helena, a frota de naus para a recuperar, o assédio e cerco à cidade durante dez anos, o episódio do Cavalo de Tróia e, finalmente, a queda e destruição da cidade.

escultórico representando Odisseu cegando
Polifemo . Mármore, grego, provavelmente
do século I d.C. Proveniente da vila de
Tibério em Sperlonga. Museu Arqueológico
Nacional de Sperlonga. (pt.wikipedia.org)
Acabada a guerra, Ulisses/Odisseu deve retornar para a sua ilha de Ítaca, onde o espera a sua amada esposa Penélope e o seu filho Telémaco. O tear de Penélope é um ardil, de tecer e desmanchar, para adiar a escolha de um novo marido entre os pretendentes, eventual sucessor de Ulisses. O filho Telémaco enfrenta os pretendentes à mão de sua mãe e à casa real de Ítaca!
Após muitas aventuras e peripécias – a palavra, esta última, é grega e é utilizada na linguagem da tragédia – Ulisses regressa a Ítaca, na figura de um mendigo, e é rapidamente reconhecido pelo seu cão, Argos, pouco antes de este morrer. (Imaginemos um cão a viver vinte anos!) Mitologicamente, tudo é possível… Ulisses conseguirá novamente o trono e recuperará a sua amada Penélope, depois de um feroz e sangrento combate.

Estão nesta obra todos os ingredientes para um excelente guião/script cinematográfico e assim foi, e será, com certeza, em novas e futuras adaptações.
Lembro a minha primeira versão de Ulisses, protagonizada pelo actor Kirk Douglas e acompanhada por duas belas actrizes, quiçá as mais belas do cinema italiano da época, Silvana Mangano e Rossana Podestà.
O filme é italiano, de 1954, realizado por Mario Camerini, com a participação, não creditada, de Mario Bava. O argumento, baseado no poema épico “Odisseia”, de Homero, contou com vários autores, entre eles Ben Hecht e Irwin Shaw.
A célebre cena da caverna de Polifemo, uma das minhas preferidas, nesta fita, teve uma importante participação de Mario Bava (especialista em filmes de terror e do fantástico), que não foi creditado como realizador.

A sequência está tão bem realizada que pode ser vista como um filme autónomo do original.
Os temas mitológicos foram muito tratados no cinema: além de Ulisses, o tema de Jasão e também, menos, o tema de Eneias, personagem protagonista do poema épico de Virgílio, “A Eneida”.
Sobre a personagem de Jasão, um filme de 1963, “Jasão e os Argonautas”, com produção britânica-estadunidense e realizado por Don Chaffey, com argumento de Beverley Cross, baseado livremente no poema épico grego do século III a.C., “As Argonáuticas”, de Apolónio de Rodes.
A realização contou com uma excelente e imaginativa colaboração de Ray Harryhausen para as cenas de animação, realizadas no sistema de “stop motion”.

De facto, quando falo deste filme, as primeiras imagens que me vêm à memória são as cenas de luta entre os argonautas e um exército de esqueletos vivos!
Não haveria espaço neste artigo para falar das muitas influências da figura de Ulisses na cultura universal. Lembrar apenas algumas: a bela ópera de Monteverdi, “Il ritorno d’Ulisse in pátria”, de Claudio Monteverdi, executada pela primeira vez em Veneza, em 1640.
E, na literatura portuguesa, o poema “Ulisses”, na obra “Mensagem”, de Fernando Pessoa, cujo título “remete-nos para a origem de Portugal como devendo-se a Ulisses, navegador errante, que depois da guerra de Tróia, teria aportado em Lisboa, fundando a cidade de Olissipo, futura Lisboa”.

de James Joyce. (Direitos reservados)
Longe do mito grego de Medeia, a esposa de Jasão, de Eurípides, o dramaturgo português António José da Silva, o Judeu, criou a sua versão, subvertendo-o.
Considerando o texto de apresentação do livro da EDUFU (Editora da Universidade Federal de Uberlândia), “Os Encantos de Medeia” é uma opereta cómica, analisada no livro de Kênia Maria de Almeida Pereira, responsável pelas notas que acompanham a edição. Segundo a investigadora, António José da Silva foi um dos poucos dramaturgos do Mundo a apresentar uma Medeia lúdica e cómica, em plena era de caça às bruxas.
Também James Joyce escolheu para o título da sua obra mais importante o nome de “Ulisses”. O seu “herói, Leopold Bloom”, é, na visão de Joyce, um Ulisses moderno ou um qualquer: fraco e forte, cauteloso e precipitado, herói e covarde, englobando os múltiplos aspectos de cada ser humano e de toda a Humanidade1.
Nota:
1 – Citado na Wikipédia: Modern Prose, Stories, Essays and Sketches, edição organizada, com introdução e notas, por Michael Thorpe. Oxford University Press, 1968, p. 108–109. SBN 19-416706-2.
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27/08/2026