Os lobos espalham o terror

 Os lobos espalham o terror

(elmostrador.cl)

Crónica satírico‑literária com Camilo ao fundo e Guerra Junqueiro no centro

Li Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro em contexto escolar. Li e gostei, mas tantas décadas depois a memória seleciona o que mais impressionou, que foi o alarme sobre um lobo que iria atacar a aldeia. Um pastor gritava “Lobo! Lobo” tantas vezes que, quando o lobo apareceu mesmo, ninguém acreditou. Esta história, com pormenores de memória recuperados pelo Copilot da Microsoft, pode sintetizar-se em breves palavras: o excesso de alarme anula a credibilidade do mensageiro. Onde é que eu já vi isto?

Representação de Camilo Castelo Branco.
facebook.com/camilocastelobranco – página oficial da Casa-
Museu Camilo Castelo Branco e do Centro de Estudos
Camilianos)

Hoje, temos notícias de lobos que atacam rebanhos, matando mais animais do que aqueles que conseguem comer. A sua presença nos arredores das aldeias ainda intimida as populações.

Nas grandes cidades, os lobos são de outra raça. Usam fato completo e gravata, não comem ovelhas vivas, mas gritam histórias rocambolescas, geralmente inventadas, com os ingredientes necessários para pôr o povo em sobressalto, lançando rumores falsos que assustam os mais corajosos. Provocam o medo como força de revolta e contestação até que a verdade denuncie a falta de vergonha que usa todos os meios para ganhar palco e aparecer nas notícias diárias dos órgãos de publicidade e de informações inquinadas e duvidosas.

(instagram.com/diariodominho)

Os lobos urbanos inventam cada dia novas formas de enganar o povo; sobretudo, os ingénuos que não distinguem a verdade da mentira, que se deixam seduzir pelo “teatro de rua” gritado a altos berros. Os lobos entram nos gabinetes dos governantes e escondem maços de notas em envelopes mal escondidos, roubam computadores com matérias sigilosas, transportam carros cheios de notas que não cabem nas vias digitais de transferência. Matéria melindrosa só acessível aos lobos que reivindicam segredos de Estado que o povo não deve conhecer, sob pena de ser engolido como as ovelhas que se ajoelham diante dos lobos verdadeiros.

Nas cidades, os lobos usam camisa branca e gravata, entram nas instalações da Assembleia da República (AR) e provocam o caos total, despejam prateleiras para o chão e anunciam o roubo de documentos “preciosos” que esconderam previamente. Enfim, fazem uma montagem tão verdadeira que até parece falsa, ou o contrário, depende do lado para o qual estás virado.

(marxismocritico.com)

O lobo moderno é, obviamente, um animal, mas um animal político que descobriu a fórmula mágica da atenção pública: um susto por dia, para manter o povo em forma. É um lobo versátil, multifunções, adaptável às necessidades mediáticas. Quando devassou as instalações da AR, espalhou papéis pelo chão, abriu gavetas, revirou pastas, escondeu documentos importantes, deixou pistas, sombras, suspeitas, impressões digitais e, se for preciso, até pegadas de neve em pleno mês de agosto. Um lobo muito ativo, sempre pronto para a fotografia.

O povo, habituado, já reage com a serenidade de quem conhece o guião: “Ah, o lobo outra vez!”  E o lobo político, percebendo que o susto já não assusta, aumenta a dose. Agora, o lobo não só entrou, como entrou com intenção. Não só espalhou papéis, como escolheu os mais confidenciais. Não só desapareceu com documentos, como desapareceu com os documentos certos, aqueles que, por coincidência, confirmam a narrativa do próprio lobo. É um lobo com sentido de oportunidade, quase um gestor de crises, embora seja ele próprio quem as fabrica.

Lobo europeu. (pt.wikipedia.org)

Guerra Junqueiro sorriria. Camilo aplaudiria. E a aldeia, que agora se chama “opinião pública”, viveria o mesmo destino dos compêndios escolares: o povo deixa de acreditar.

Recorda-nos a Wikipédia que a figura do lobo aparece de
forma recorrente na obra de Guerra Junqueiro – ora como
elemento da Natureza selvagem e rústica de Trás-os-
Montes, ora como símbolo metafórico da crueldade social,
da fome, da hipocrisia ou do instinto primário.
(pt.wikipedia.org)

O alarme diário transforma-se em ruído. O ruído transforma-se em hábito. E o hábito transforma-se em indiferença. Até ao dia em que o lobo aparece mesmo e já ninguém acredita.

O lobo político não lê Junqueiro. É um lobo que não caça, mas que se alimenta da atenção que provoca. Um lobo que não ameaça, mas que precisa que o povo se sinta ameaçado. Um lobo que não morde, mas que ladra alto; e ladra todos os dias, para que ninguém se esqueça de que ele existe.

Porém, há um detalhe que Guerra Junqueiro ensinou às crianças e que os adultos parecem ter esquecido: quem espalha o terror todos os dias acaba por não ser levado a sério no dia em que o terror é verdadeiro.

E esse é o maior perigo que o lobo político cria, não para os outros, mas para si próprio. Porque, no fim, o povo aprende. E quando aprende, deixa de temer o lobo, que deixa de ser protagonista; logo, deixa de ser político. Para ele, isso é pior do que qualquer ameaça.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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12/10/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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