Papel da energia nuclear na transição energética

 Papel da energia nuclear na transição energética

(industriaeambiente.pt)

A recente escalada de eventos meteorológicos extremos tem tornado cada vez mais evidente a dura realidade de que as alterações climáticas, finalmente, nos bateram à porta. E, em Portugal e no Mundo, não se limitaram a bater: entraram pela casa dentro e saíram com um “au revoir”. Enquanto uns, por interesse ou por despeito, se dedicam ao negacionismo, essa arte de tapar o Sol com a peneira, outros encaram os factos com consternação, mas também de cabeça fria.

Leibstadt, na Suíça. (Créditos fotográficos: Daniele La Rosa Messina –
Unsplash)

Dessa reflexão surge a conclusão lógica de que é preciso agir, agora e em grande escala, para reduzir as emissões de gases de efeito de estuda. Ora, como as sociedades não mudam de um dia para o outro, as mudanças terão necessariamente de ser graduais. Mas têm de acontecer, caso contrário, será a própria Natureza que nos imporá mudanças bruscas e inesperadas.

A grande maioria das emissões de gases de estufa vêm da energia (75%), usada principalmente na indústria, nos edifícios e nos transportes. Atualmente, a única alternativa que se vislumbra para a transição energética é a eletrificação desses três setores e a produção de eletricidade limpa. A eletrificação é a parte fácil. A descarbonização da eletricidade é que é difícil.

Efeito estufa é um processo natural que ocorre quando certos gases presentes na atmosfera, como o dióxido de carbono (CO₂), o metano (CH₄) e o vapor d’água (H₂O), retêm parte da radiação solar refletida pela superfície terrestre. (portaldaindustria.com.br)

As energias renováveis são a forma mais barata de obter eletricidade sem emissões, mas têm o problema da intermitência. Como as redes elétricas nacionais funcionam através do equilíbrio entre a oferta e procura, as flutuações de produção de renováveis têm de ser cobertas pela potência de base que as centrais térmicas convencionais fornecem. A alternativa seria guardar o excesso de produção das renováveis, em alturas de abundância, para o usar quando há défice.

Todavia, guardar eletricidade é extremamente difícil. As opções são o armazenamento em baterias, que não tem a escala necessária para um país; a transformação em hidrogénio, muito dispendiosa e pouco eficiente; e a bombagem para albufeiras, que requer recursos hídricos abundantes e está sujeita aos extremos climáticos. Além disso, o armazenamento teria de ter dimensão suficiente para, pelo menos, alguns dias, o que torna o problema ainda mais complexo. É, pois, inevitável que a segurança energética de um país passe sempre pela manutenção de alguma potência de base.

As energias renováveis são todas as energias que provêm de recursos naturais. O sol, o vento, a chuva, as marés (ondas), a biomassa e o calor são exemplos. (portal-energia.com)

Presentemente, essa potência de base é fornecida, na quase totalidade, por centrais fósseis, por centrais nucleares e por hidroelétricas, sendo que este último é, como foi referido, limitado. Assim, para se conseguir descarbonizar a eletricidade, mantendo a estabilidade necessária na rede elétrica, haverá que recorrer à energia nuclear, cujas emissões se limitam à fase de construção e de desmantelamento.

A energia nuclear debate-se ainda com trauma da destruição de Hiroshima e de Nagasaki, um pesadelo em parte reavivado pelos acidentes de Chernobyl e de Fukushima. No entanto, essa imagem de uma energia perigosa e insegura não alinha com os factos no terreno: a energia nuclear tem, na verdade, uma taxa de mortalidade por energia produzida extremamente reduzida, ao nível das energias solar e eólica1, bem abaixo da epidemia de doenças respiratórias causadas pelas centrais fósseis. Além disso, as últimas décadas têm visto melhorias muito significativas das condições de segurança dos reatores, sendo hoje pouco plausível que aconteçam acidentes de grande impacto.

Central Nuclear de Fukushima I é uma central nuclear localizada na cidade de Okuma, no distrito de Futaba, no Japão. (pt.wikipedia.org)

As vantagens da energia nuclear não se esgotam nas emissões nulas. Há também o facto de poderem operar praticamente todo o tempo, parando apenas para reabastecimento a cada um a dois anos. Para comparação, centrais fósseis chegam a estar paradas metade do tempo para manutenção e abastecimento.

Quanto a desvantagens, há primeiramente as dificuldades políticas na sua aceitação. Contudo, a principal desvantagem será, talvez, a apetência das centrais nucleares como alvo, em caso de conflito militar. Junta-se a isto a necessidade de medidas de segurança apertadas em todo o ciclo de combustível, desde a mineração ao tratamento dos resíduos radioativos, bem como um tempo de construção longo e custos elevados.

Rheinberg, na Alemanha. (Créditos fotográficos: Tiark Tiwary – Unsplash)

A questão dos custos deve, no entanto, ser vista além da parte financeira, já que o facto de poder compensar as intermitências das renováveis tem um valor difícil de exprimir. Se queremos ser sérios quanto à descarbonização da sociedade e a uma economia a curto ou médio prazo, haverá que assumir os riscos e substituir as centrais fósseis por centrais nucleares, um pouco por todo o Mundo. Cada ano que se adia a ação climática é um ano em que teremos de arcar com as consequências e os custos de tempestades cada vez mais devastadoras e secas cada vez mais prolongadas.

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Nota:

1 https://ourworldindata.org/grapher/death-rates-from-energy-production-per-twh

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30/03/2026

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Nuno Sousa

Nuno Marques Sousa é professor da Universidade Aberta, desde 2008. Doutorado em Física e Matemática pela Universidade Radboud de Nijmegen, nos Países Baixos, tem feito pesquisa nas áreas do Urbanismo e Transportes, no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores de Coimbra (INESC-Coimbra). Paralelamente à sua carreira académica, desempenha vários cargos na sociedade civil, onde se dedica às causas coletivas.

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