Portugal em Lima
Lima, no Peru. (Créditos fotográficos: Jhordy Rojas – Unsplash)
Se o Tratado de Tordesilhas fosse levado a sério, a porção portuguesa que deu origem ao Brasil seria um recorte bem modesto no mapa-múndi. A intervenção da Igreja quanto às posses das novas terras descobertas, bem como daquelas por descobrir, pretendia eliminar os estranhamentos e os conflitos entre Portugal e Espanha. Porém, a ação vigorou por um tempo curto, a União Ibérica eclodiu, surgiu.

Os Portugueses não precisariam de se deterem tão-somente nas estreitas costas atlânticas, estavam livres para expandirem o território, levarem a sua etnia e o seu idioma através do continente afora isentos de conflitos, posto que o fariam com o respaldo de que tudo o que haveria pertenceria à coroa espanhola. Finda a União, assinaram o Tratado de Madrid. Nesta altura, já era enorme o Brasil. Quase chegara ao Pacífico. Só não o fez porque os Andes teriam sido um impedimento natural.
Os mesmos cerros que levaram os Espanhóis a deixarem os índios permanecerem nos seus habitats. Eram tantas aquelas altas montanhas que não vinha nem ao caso por ali se estabelecerem e porem-se a dizimá-los; nem sequer cogitou-se tirá-los do seu sossego. Por isso, o Peru é composto, essencialmente, dos seus povos originários.

Entretanto, o que resta do Tratado de Tordesilhas? Era um feriado nacional: Dia de São Pedro e São Paulo e eu encontrava-me na Plaza de Armas. Aquele lugar onde Francisco Pizarro fundou a cidade de Lima é que é onde a cidade excede em beleza, expõe sua harmonia ao ter a Catedral, o Palácio Episcopal, o Palácio do Governo e o da Prefeitura pintados num amarelo remissivo ao sol inca. Ainda assim, estão a evidenciar o seu núcleo fundacional espanhol.

(© Lúcio Marques Ferreira)
Lima teria sido o centro e o ponto de partida na conquista do território peruano. A fonte de bronze, datada de 1650, é hoje a única lembrança original do passado. Absolutamente intacta, contempla as edificações restauradas em razão de uns tantos terramotos. Um formigueiro de gente: limenhos passam sem cessar por ali, a par de uma omnipresente invasão de turistas, em movimento permanente. São muitas as evidências de que teria sido um mercado aberto nos tempos idos do vice-reinado. A praça reúne inúmeras concentrações humanas em dias de protestos, assim como abraça a cerimônia da troca das guardas. Ali mora o Presidente do Peru. É por ali que circulam aqueles que fazem as leis; por vezes, as farão serem cumpridas. Os balcões de madeira permitem que tudo o que há lá fora seja visto, enquanto o observador não é visto. Eu nada via confortavelmente, encontrava-me debaixo de uma leve precipitação ou garoa fria. Encontrava-me a lamentar o clima e o facto de a Catedral estar, então, fechada. Restava-me contemplar a sua fachada. Na sofreguidão pluviométrica, não se poderia ver a magnificência daquele templo cujo interior guarda inúmeros tesouros no âmbito da arte sacra.

Neste estado de espírito desolado, fui abordado por um guarda, um senhorzinho a perguntar-me de onde eu vinha. Antes de responder, percebi que ele tinha uma faixa no peito com o seu sobrenome à mostra ou, melhor, o seu “nome de guerra”. Chamava-se Portugal! Omiti a minha procedência, as minhas raízes, e passei a perguntar-lhe também sobre a sua origem. Ele informou-me que os seus antepassados vieram de Portugal. (Estranho tratado aquele o de Tordesilhas, os Lusos nunca tiveram limites!) Eu acrescentei que Portugal era, concretamente, um elo comum e indiviso entre nós. Ao que ele adicionou, pondo-se a tentar falar Português: “Não me venha dizer que tem o sobrenome Lima?”

Expliquei-lhe que Lima é uma variável do nome do rio Rimaq, o rio local. A sua nova nomenclatura foi concebida pelos Espanhóis, a qual é, por acaso, também um sobrenome toponímico do Minho. Contemplava aquele que veio de Ponte de Lima. Quiçá, quem atravessou o rio Lima – que os Celtas diziam ser o rio do esquecimento – ou quem o atravessasse esqueceria quem era e de onde vinha…

Ele ouvia-me com uma inquieta atenção e olhava com interesse para os outros membros que tomaram o mesmo “city tour” a que eu me agregara. Éramos poucos: um casal colombiano, de Barranquilla, e um filipino residente em Montreal. Logo, logo, ele foi abordar o oriental canadiano animadíssimo. Por conseguinte, já estava a dizer ao rapaz que os seus antepassados eram filipinos. O que seria até possível.
Portugal esteve e está em toda parte, até quando não o acho, ele me acha. Há que ludibriar os limites dos tratados, toda lusitanidade expansiva foi e será, desde sempre, uma possibilidade. Lima bem poderia conter um estranho Portugal a viver na cidade. Fosse aquele português também filipino verdade ou uma inverdade, há que se considerar que, entre os seus mais de dez milhões de habitantes, dois milhões destes são peruanos-chineses. Quem há-de dizer que não teria vindo entre estes um filipino-português cujo herdeiro étnico se teria aproximado de mim e do outro rapaz na sua praça maior?

Porém, cabe perguntar: seria ele mesmo um guarda ou um oportunista fantasiado de guarda? Um ladrão? Penso que não, o seu semblante era honesto, suave, sincero. O inusitado foi aquela filipinidade portuguesa anunciada. Bem, o tempo lima as pedras e as verdades. Aliás, nem estou mais lá para a verdade vir a saber.

O que também se aplica e não se explica é eu ter encontrado tanta chuva numa cidade onde, ao que dizem, nunca chove. Talvez a água viera para limar as pedras e as verdades, talvez… A única certeza que tenho é que ele levava no bolso da camisa a insígnia Portugal, ostentava-a como sobrenome. Ocasionalmente, cabe pensar: seria aquela camisa mesmo dele? Sabe-se lá! O facto é que, num meio demasiado espanhol, encontrei sinais de ali estar a haver, precisamente, Portugal. É o que importa evidenciar neste relato.
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05/02/2026