Revoltas no Teatro
Bonecos de Santo Aleixo (cendrev.pt)
A revolta, a rebelião contra a autoridade estabelecida, a sublevação, a insurreição, o levantamento, o motim e a sedição, seguindo as definições do dicionário, parecem-me perspectivas que contrariam uma revolução da qual esperamos efeitos mais duradouros e permanentes num ciclo de mudança total, político e social.
Assistimos recentemente a dois espectáculos teatrais que trazem ao palco a revolta como ato subversivo e espontâneo.
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Auto da Revolta do Mestre Salas

O Centro Dramático de Évora (CENDREV)1, através do autor e encenador Ricardo Alves, e a Palmilha Dentada, companhia teatral do Porto, realizaram em conjunto uma coprodução que já estava agendada há cerca de uns quatro anos. O encenador e também autor do texto adrenta no mundo do teatro de varas. As pequenas marionetas de Santo Aleixo, de Évora, inspiram uma peça de revolta dos bonecos contra os seus manipuladores. O resultado é um belo espectáculo que recria o universo minimalista deste género. Os actores, três personagens, movimentam-se no palco, como as figuras originais, saltitando em cena, com os bracitos pendurados e sem mais expressão que a voz e o rosto.

O líder da revolta é o Mestre Salas, figura que é também protagonista, original, com o Padre Chancas, dos pequenos autos originais… Pouco a pouco, as figuras vão conseguindo maior mobilidade e autonomia nos movimentos. E o que começou com o protagonista passa a ser imitado pelas duas figuras restantes.
A liberdade chega a tal extremo que os actores/bonecos, libertados da vara que os comanda, rompem a quarta parede e dirigem-se à boca de cena para dialogar directamente com os espectadores. E, num arranque de “improviso”, ficamos a conhecer fragmentos da vida dos intérpretes. Este belo espectáculo, colorido e lúdico, fala da liberdade e da revolta, permitindo-nos tomar consciência da necessidade da mudança.

A peça esteve em cena na sede da Palmilha Dentada, na Travessa das Águas, no Porto, sítio no qual esta companhia de teatro é acarinhada pela vizinhança, fazendo deste grupo um parceiro privilegiado.
Como disse o director plástico Ricardo Alves à rádio Renascença, em 20 de Maio de 2026, sobre a peça teatral “O Auto da Revolta do Mestre Salas”, as “questões da liberdade são importantes a cada dia, a cada momento e não só no momento histórico em que o vivemos”. Adiantando: “Seja ele qual for, nunca podemos deixar de refletir sobre ela e de tomar o máximo cuidado para que ela não se perca.”
“O nosso obje[c]tivo é comunicar. Sempre foi e é por isso que fazemos espe[c]táculos. Temos ansiedades para partilhar e perguntas que gostávamos de ver respondidas”, explicitou Ricardo Alves, salientando que o propósito final do espectáculo é que o público “apareça, se divirta e que vá para casa pensar no assunto”.

A Palmilha Dentada, companhia profissional de teatro nascida em 2001, tem-se dedicado à criação de espectáculos de teatro com textos originais, cuja principal linguagem é o humor, fundamentalmente o absurdo e o de situação.
É oportuno lembrar o trabalho de investigação sobre as marionetas ou bonecos de Santo Aleixo, realizado pelo actor e amigo Alexandre Passos2, intitulado “Bonecos de Santo Aleixo: a sua (Im)Possível História”. Tendo sido publicada pelo CENDREV em 1999, esta obra seminal cruza a história das marionetas em Portugal entre os séculos XVI e XVIII com a evolução destes carismáticos títeres alentejanos. Actualmente, o livro está esgotado e é difícil de encontrar, a não ser em alfarrabistas especializados.
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A opereta “A Morte do Diabo” ou “A Revolta das Flores”
“A Morte do Diabo” é um espectáculo musical, irónico, poético e com uma forte componente visual que evoca o sonho como esperança colectiva para construir um mundo melhor. (teatroaveirense.pt)
No havendo uma folha de sala no Teatro Aveirense, quando assistimos a este espectáculo, apoio-me na imprensa (jornal Público e outros) para dar notícias desta realização.
“A Morte do Diabo” é uma opereta inacabada (libreto) de Eça de Queirós e de Batalha Reis, estreada a 30 de Maio de 2026, no Teatro Aveirense, escrita e incompleta em 1869, esteve perdida durante cerca de 120 anos. A montagem foi possível através de uma cuidadosa investigação e o texto inédito, embora inacabado, foi descoberto por acaso na Biblioteca Nacional, revelando uma nova e desconhecida faceta da arte de um dos maiores nomes da literatura portuguesa.
Irene Fialho, a investigadora que descobriu a opereta, diz que a obra se enquadra num tempo precoce da escrita de Eça de Queirós. Num cenário no qual predomina o vermelho, durante quase toda a representação, estamos no Inferno e quem governa é o Diabo, acompanhado de dois acólitos. O Coro – que representa o povo – vive à custa de chá e de bolachas, que são oferecidos pelo Poder, como num cerimonial litúrgico. O Coro revolta-se até à chegada de uma figura feminina, floral, no melhor sentido da palavra, lhe vai oferecendo flores, na intenção de derrotar o poder instituído.
Em declarações à TSF, Irene Fialho destaca ainda que a opereta continua actual e até nem desafina com a presente disposição do país, pois fala de um Inferno maçador e aborrecido. Refira-se que o libreto inacabado da autoria de Eça de Queirós e Batalha Reis foi musicado pelo maestro Augusto Machado, com obra na França e em Portugal.
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Notas:
1 – CENDREV – Centro Dramático de Évora. “E nessa altura tive oportunidade de conhecer melhor, além do a[c]tor, o marionetista, o aderecista, o artista plástico… e a excelente pessoa e o muito bom camarada que ele foi.” (Salvador Santos, historiador do teatro em Portugal)

realizado por António de Macedo e baseado no romance
homónimo de Fernando Namora. (mubi.com)
2 – Agradeço ao historiador, cronista e amigo Salvador Santos a sua entrada, sem dúvida, bastante útil neste artigo: “Conheci o Alexandre Passos (28 de Junho de 1931 – 20 de Maio de 2007), em Luanda, para onde eu fora mobilizado no cumprimento do serviço militar obrigatório, no ano de 1973, integrado no elenco da Companhia Rafael de Oliveira, onde ele, para além da sua participação como a[c]tor, assumia as funções de dire[c]tor de cena. Antes, apenas o vira representar uma única vez, em 1965, no filme ‘Domingo à Tarde’, tendo privado com ele a última vez depois da Revolução de Abril, em 1975, no Teatro Garcia de Resende, quando ele integrava a equipa residente do Cendrev-Centro Dramático de Évora.” (Salvador Santos, historiador do teatro em Portugal)
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15/06/2026