Solitários num país solidário…
Rio de humidade proveniente das Caraíbas alimentará quase incessantemente as sucessivas frentes geradas pelas tempestades formadas no Atlântico Norte, intensificando a chuva em Portugal. (tempo.pt)

de 2026. (Imagens VIIRS DNB do satélite NOAA-20 –pt.wikipedia.org)
Pela minha experiência pessoal perante às catástrofes, o sentimento que nos invade primeiro – e que permanece algum tempo – é que estamos solitários perante os acontecimentos… Quando olhamos para o lado e vemos que não estamos sós e que aquilo que nos atingiu alcançou outros com igual ou maior medida, parece termos uma sensação de alívio. No meu país (Chile), um provérbio resume este estado de espírito: “mal de muchos consuelo de tontos”. Não vale a pena traduzir, é muito fácil de compreender e é muito ilustrativo.
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passagem da depressão Kristin. (pt.wikipedia.org)
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Perante o temporal que assolou a região Centro e, em particular, a cidade de Leiria, descobrimos o país real, o país que não está preparado para catástrofes desta dimensão. É manifesta a falta de recursos – sobretudo, geradores, neste caso – e, efectivamente, saber quem pode ajudar estrategicamente e com experiência. As casas precárias, que são as imagens dominantes, ilustram quão pobres são as habitações das pessoas necessitadas e como, num breve sopro de intempérie, tudo vem abaixo.

tempestade Kristin, em 1 de Fevereiro de 2026. (portugal.gov.pt)
Junto do país solitário, emerge logo o país solidário, aquele que está no coração das pessoas que correm para ajudar e que percebem que qualquer auxílio, mesmo pequeno, é necessário e bem-vindo. As críticas ao governo compreendem-se, pois, os socorros oficiais chegam sempre mais tarde do que as ajudas dos populares. As pessoas perguntam onde está o exército na ajuda à proteção civil, bem como as tendas de campanha ou, até, um hospital militar de campanha para suprir os problemas de saúde. E fazem muita falta!
Nenhum de nós é especialista nestes assuntos para dar recomendações, mas sentimos a falta de soluções que a emergência da situação impõe. Não se pode fazer campanha eleitoral no meio da confusão e da dor da gente. Lamentamos a morte daqueles que, nas reparações das suas vivendas, perdem a vida. Ironias do destino!
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A importância da memória
Sobre a importância das memórias, ouçamos Marco Túlio Cícero: “El cultivo de la memoria es tan necesario como el alimento para el cuerpo.” O que, traduzido, também nos diz: “O cultivo da memória e o exercício da mente são tão necessários como o alimento para o corpo.”

romano. (escolakids.uol.com.br)
Lemos na edição de 24 de Janeiro do El País que as Avós e Mães da Praça de Maio, na Argentina recebem o Prémio Atocha de Advogados, em Madrid: “A memória deve ser fértil.” O colectivo argentino foi reconhecido pelo seu trabalho na busca e restituição da identidade de crianças e netos raptados ou nascidos em cativeiro durante a ditadura.
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Controvérsia aqui ao lado

Sobre a série “A Guerra que Todos Perdemos?”, o escritor Arturo Pérez-Reverte atribui a controvérsia do Dia da Memória a um “erro de layout” ou de grafismo. O décimo ciclo “Cartas em Sevilha” adiciona pontos de interrogação a “A guerra que todos nós perdemos” para tentar resolver uma controvérsia que traz renúncias e críticas às vítimas do franquismo.

O cartaz da reunião, agora, adiciona pontos de interrogação e vai do inicial “1936: A Guerra que Todos Perdemos” para “A Guerra que Todos Perdemos? 1936-1939”. O título, é uma “provocação” segundo as vítimas do franquismo. E a participação de personagens como José María Aznar e Iván Espinosa de los Monteros levou à renúncia do escritor David Uclés de participar em tal evento. “Já sabemos que havia um lado vencedor e um lado perdedor, isso é óbvio”, justificou o escritor Arturo Pérez-Reverte ao El País. Mas “o que queremos dizer”, continuou ele, “é que toda a Espanha perdeu” com o fracassado golpe de Estado que provocou a Guerra Civil em “questões como a participação das mulheres” ou a “reforma agrária”; e no qual “anos da República foram perdidos”, sustenta o autor, no âmbito do artigo intitulado “Memorialistas da Andaluzia criticam as conferências sobre a Guerra Civil, que resultaram em mais renúncias após Uclés”, da autoria de Juan Miguel Baquero, na edição de 27 de Janeiro de eldiario.es.
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Conheci alguns espanhóis que perderam a guerra, mas apenas recordo aqui quatro

de Dentes”, do dramaturgo Jorge Díaz (1930-2007), no teatro Talía de
Santiago, sob a direcção de Claudio di Girólamo. (flickr.com)
Carla Christi, actriz catalã-chilena que chegou de Espanha ainda jovem com os pais – a bordo do Winnipeg, o mesmo navio em que Roser Bru viajava – foi a preferida do dramaturgo chileno Jorge Díaz, por muitas razões. Foi com ela que a sua peça “A Escova de Dentes” e outras alcançaram o reconhecimento merecido. Carla, cujo nome verdadeiro é Rogelia Vilamitjana, captou as nuances da alma e do carácter deste autor, como um irmão gémeo e o seu melhor amigo.
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(en.wikipedia.org)
O pintor José Balmes Parramón, que nasceu no ano de 1927 em Montesquiu de Catalunha, onde viveu a sua infância até ao início da Guerra Civil Espanhola (em 1936). Após a vitória franquista, Balmes e a família são obrigados a abandonar Espanha. Viajou para Valparaíso, cidade portuária na costa chilena, seguindo para o Winnipeg, no Canadá, com a ajuda do governo chileno aos republicanos espanhóis.

(fpabloiglesias.es)
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Augusto Pescador Sarget, a partir de 1965, na Universidade de Concepción, foi director do Instituto Central de Filosofia e professor de Lógica, de Filosofia Contemporânea, de Ética, de Filosofia Grega e de Filosofia da Ciência, aposentando-se em 1982. Faleceu em Concepción, a 11 de março de 1987.

(es.wikipedia.org)
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Francisco Álvarez González (Madrid, 1912 – Costa Rica, 2013) foi um filósofo espanhol que estudou na Universidade de Madrid. Foi discípulo de José Ortega y Gasset, de Manuel García Morente e de José Gaos (filósofo espanhol radicado no México). Em 1965, Francisco Álvarez viajou para Concepción, no Chile, onde foi professor e director do Instituto de Filosofia da Universidade local, até 1971.
Estes dois últimos professores foram nossos convidados, eles e as suas esposas, das quais a minha mãe guardou sempre amizade e recordações. Depois de 1971, o director do Instituto / Faculdade de Filosofia da Universidade de Concepción foi o meu pai, Rafael Merino Hernández, deposto pela ditadura militar de Augusto Pinochet, quando as universidades de todo o país foram interventivas.
Agora, espero ansioso pelo dia 8 de Fevereiro e pela afirmação da Democracia em Portugal!
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05/02/2026