Um debate que devia continuar!
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Faço parte do grupo de portugueses e de portuguesas que viram na televisão, na anterior segunda-feira, 13 de Abril, o debate entre o historiador e ex-deputado José Pacheco Pereira (JPP) e o presidente do partido Chega, André Ventura (AV), promovido pela CNN Portugal.
Muitos estariam à espera de um debate diferente. Não era o meu caso. Quase adivinhei que tal debate seria o que efectivamente foi. E tenho até uma certa relutância em considerar que tenha havido de facto um debate, já que este modelo tem regras próprias básicas, que ali nem sempre foram respeitadas.

Um debate sério exige, em primeiro lugar, um moderador justo e bem preparado. Mas não foi o caso. O jornalista moderador foi incapaz de moderar, sobretudo AV, permitindo que este interrompesse constantemente o seu interlocutor (JPP). Exige, depois, que os participantes tenham amor à verdade, se empenhem na sua procura; falem verdade. E se podemos admitir que JPP cumpriu estas exigências, o mesmo não podemos dizer de AV, que sistematicamente prefere a mentira e, por norma, não responde ao que deve responder.
Num debate sério, todos os participantes podem problematizar as posições do outro participante. Creio que JPP conseguiu fazer isso em certos momentos. Noutros não conseguiu porque a verborreia em catadupa de AV não o permitiu.
Num debate sério, os interlocutores só devem afirmar aquilo em que acreditam. Creio que JPP seguiu à risca esta norma. O mesmo não diremos de AV, que, quando muito, acredita nas mentiras que diz. Mas, com a sua teimosia, insiste sempre em negar as evidências que os seus interlocutores lhe apresentam.

Num debate sério e digno, os participantes têm de ser isentos. Acredito que JPP, um investigador e pensador sério, foi sempre intelectualmente honesto. Mas não podemos dizer o mesmo de AV, que esteve quase sempre apostado em encontrar argumentos pouco rigorosos ou falsos, na maior dos casos, para rebater o interlocutor.
As regras de um bom debate dizem ainda que os participantes devem ter vontade sincera de chegar a um consenso ou acordo, provando que são sujeitos livres e emancipados e que não é legítimo os participantes entrarem em contradição. No caso presente, JPP deve ter tido a ilusão de que encontraria argumentos para calar as mentiras e a falta de rigor de AV. Contudo, JPP esqueceu que só se pode vencer um debate quando temos a debater duas pessoas que partilhem do mesmo rigor e seriedade intelectual. O que não foi o caso. Duas pessoas rigorosas, sérias, inteligentes, agarram o auditório, esclarecem esse auditório.

Nas redes sociais, pudemos ler dezenas de comentários de pessoas que disseram que não foram capazes de aturar os chorrilhos de mentira e a falta de educação de AV. E achei até imensa piada a que se tenha escrito que na lama não há debate possível . E ainda outras considerações como esta, que eu próprio escrevi na minha página de Facebook: “Ganhar um debate, entre duas pessoas inteligentes, é difícil. Mas ganhar um debate entre uma pessoa inteligente e um ignorante é impossível.”
Muitos leitores podem não concordar comigo por considerar AV ignorante e estarão dispostos para mostrar que não tenho razão. Seja! Até posso admitir que o homem é inteligente. Mas, no referido debate, em muitos momentos, foi flagrante a sua falta de conhecimentos. Todos puderam ver isso. E como já alguém escreve, AV negou verdades que até talvez saiba, só que não lhe convém admitir.

Será que AV ignora que António de Oliveira Salazar teve anos suficientes – 13 anos, no mínimo, já nem é preciso ir mais longe – para fazer uma descolonização bem feita, seguindo o modelo de outros países europeus? Será que AV acredita que o desastre na Índia nada ensinou a Salazar? O que, hoje, todos sabemos é que Salazar e os que participaram no seu regime, pura e simplesmente, não estiveram atentos aos ventos da História.
Que interesse tem ou esconde AV quando falou, como falou, dos retornados? Achará mesmo que eles foram abandonados? Como explica, então, um decreto de Mário Soares que deu prioridade total na colocação dos retornados que eram funcionários públicos? Conheço muito bem casos de bom acolhimento dos retornados, em relação a habitação e a alimentação, na cidade de Coimbra. Convivi com eles de perto, quer no Seminário Maior, que lhes ofereceu alojamento, quer no Instituto Universitário Justiça e Paz, que lhes ofereceu alimento.
Se fosse um homem sério, que privilegia o rigor intelectual, AV saberia que uma boa descolonização teria sido feita por etapas. Por outro lado, AV deveria saber que o povo português estava farto da Guerra Colonial e que não estava disposto a aceitar mais mortos, mais mutilados, mais mães em lágrimas que viram os filhos lá ficar. Enquanto tinha sido oportuno, Salazar e os seus apaniguados foram incapazes de fazer tal descolonização. Vir, agora, o senhor AV responsabilizar Mário Soares, Almeida Santos ou os “capitães de Abril”, é uma ofensa a homens dignos que nos devolveram a liberdade e que contribuíram para a emancipação desses novos países.

Mas o momento deste debate em que senti maior repulsa pelas teses defendidas por AV foi quando ele quis branquear os 48 anos de repressão, de fascismo, de prisões, de mortes! Para ele, até parece que Caxias, o Forte de Peniche, a prisão do Aljube, o campo de concentração do Tarrafal, nunca existiram! Só por ignorância supina AV pode esquecer a morte de Catarina Eufémia, de Dias Coelho, de Humberto Delgado e da sua secretária! Só por ignorância ou malvadez pode ignorar as torturas sofridas pelos homens e mulheres de Portugal nas mãos dos torcionários da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) – reestruturada como Direcção-Geral de Segurança (DGS), em 1969 –, nos diversos calabouços.

(guerracolonial.pt)
O cúmulo dos cúmulos foi quando AV comparou os 48 anos da “negra noite fascista” com os dois anos dos primeiros tempos do pós-25 de Abril! Só alguém muito ignorante, desonesto, pode fazer isso! Por outro lado, AV afirmou que houve excessos dos “militares de Abril”. Todavia, foi incapaz de ver os golpes e atentados da extrema-direita, nomeadamente da organização nacionalista Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP)! Provavelmente, porque há gente responsável por tais façanhas e que, hoje, se alberga no seu partido.

do ataque a Wiriyamu. (capeiaarraiana.pt)
JPP teve o condão de recordar a AV muitos massacres no, então, Ultramar. Pensemos, por exemplo, no Massacre de Wiriyamu (ou Operação Marosca), na província de Tete, em Moçambique. Poderia ter falado, igualmente, das bombas de napalm na Guiné, bem como do Massacre de Batepá (em São Tomé e Príncipe) e de tantas outras páginas negras. Acrescentemos, ainda, que quem ouviu falar AV ficou com a sensação de que a Guerra Colonial só começou em 1961. Mas, infelizmente, não foi assim.
Na escola primária, já a minha geração ouviu falar da prisão de Gungunhana! Rigorosamente falando, entre 1910, data do início da Primeira República, e 1961 a paz foi apenas aparente. Nas chamadas províncias portuguesas de África, em todas, cedo brotaram sentimentos nacionalistas e amplos desejos de libertação do colonialismo e de proclamação da independência.
Várias mentiras repetidas não passam a ser verdade. AV afirmou, sem um pinguinho de vergonha na cara, que Oliveira Salazar nunca mandou prender ninguém. Quem foi então que deu ordens a Silva Pais, último director da tenebrosa PIDE-DGS (1962-1974), para prender os rapazes portugueses que se recusavam a ir para a Guerra do Ultramar?

Quando AV parece tão apostado em elogiar o regime salazarista – até já disse, na Assembleia da República, que eram precisos três Salazares para pôr isto em ordem – esquece que o “orgulhosamente sós” de Salazar fez de nós o pais mais pobre a Europa! Esquece as taxas de analfabetismo na ordem dos 45%. Esquece que a escolaridade obrigatória era baixa; que a mortalidade infantil era alta. Esquece a exploração dos trabalhadores, operários e camponeses; esquece que as greves eram proibidas; que não tínhamos liberdade de expressão; que imperava a censura; que muitos portugueses foram obrigados a emigrar a salto, pondo em risco a própria vida, se queriam matar a fome aos seus filhos; esquece os tempos de racionamento alimentar que durou até 1951. E tantas outras coisas terríveis AV finge ignorar! Ou quiçá ignore mesmo!
Um momento do debate que deveria ficar na memória de todos foi aquele em que AV teve coragem para dizer: “Não quero saber da ditadura para nada!” Quem pode acreditar numa afirmação como esta, se ele já disse que Portugal precisava de três Salazares? Afinal, o seu modelo inspira-se na ditadura!

Há também um momento que, quanto a mim, foi menos feliz por parte de JPP. Foi quando este disse que nunca tratou o Chega como um partido fascista, porque não é, mas é de extrema-direita! Que é de extrema-direita todos sabemos e que é fascista também não parece deixar dúvidas a ninguém.
Foi confrangedor ouvir José Pacheco Pereira, em vários instantes, dizer a André Ventura: “Homem, ouça!” Uma vez que a “matraca falante” não o deixava exprimir uma ideia sem ser interrompido! Mas conseguiu, contudo, dizer-lhe o mais importante: “Sabe qual é o problema? É uma mistura de ignorância e demagogia, que é o que você está a fazer … Eu vou-lhe dizer porquê. Em primeiro lugar, a revolução miserável de que está a falar, que é o 25 de Abril, essa revolução miserável deu a liberdade a Portugal, deu a liberdade para você dizer o que diz, deu a liberdade e deu a democracia para poder estar no Parlamento.”

Para concluir este texto que já vai longo, resta-me dizer que é urgente voltar a fazer um debate sério na RPT, estação pública. Ou, em alternativa, novos debates com participantes devidamente informados, rigorosos, sérios e mais apostados na verdade do que na propaganda. José Pacheco Pereira e muitos outros portugueses e portuguesas teriam nova oportunidade de partilhar com serenidade tanta coisa que ainda está por contar. E que as novas gerações precisam de saber. Porque só se educa com verdade. Porque a mentira destrói a democracia.
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Nota do Director:
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20/04/2026