Uma estátua para o Mendigo Basilius?

 Uma estátua para o Mendigo Basilius?

Joaquim Vieira Basílio, encarnando o Mendigo Basilius, na Feira Medieval de Coimbra, em 2014. (facebook.com/ze.manel.9822 – facebook.com/groups/basilius/)

Ainda não escrevi uma vírgula sobre a pessoa que muita gente recorda com admiração e algum espanto. Mas começo por dizer que a 31.ª edição da Feira Medieval, que decorrerá de 17 a 19 de Julho, fará reviver os usos, os costumes, a gastronomia e o ambiente da época, recriando as práticas de quem vendia e adquiria as mercadorias de que necessitava no século XII, quando Coimbra ainda era a capital do reino. Porém, essa condição cessou em 1255, quando D. Afonso III transferiu a corte régia para Lisboa, cuja posição estratégica, maior centralidade no território conquistado e o seu importante porto melhor serviam a administração do reino e o crescente desenvolvimento comercial.

(coimbra.pt)

Com essa mudança, os altos vassalos e funcionários régios, como os ricos-homens, os alcaides, os infanções, os oficiais e servidores da corte – e também membros do clero conimbricense – seguiram o rei e a estrutura administrativa. O esvaziamento político e demográfico e a subsequente estagnação de Coimbra seriam, de certo modo, compensados, no plano social, pela fundação da Universidade, em 1290 (apesar da alternância entre Lisboa e Coimbra, fixando-se definitivamente aqui em 1537). Ou seja, passadas quase quatro décadas, a cidade reinventava-se.

O Mendigo Basilius em Coimbra. (aventar.eu)

Recuemos a esse tempo marcado pela formação da nacionalidade e pela Reconquista cristã, em que Coimbra era uma cidade fronteira e de contacto com muçulmanos, judeus e moçárabes. Imaginemo-nos naquele importante espaço público e pólo de trocas económicas. Ali, partilhavam-se saberes e sabores moldados pela ruralidade dominante, pela tradição cristã e pelas influências ibéricas.

Nesse encontro de gerações e de origens, sob a “paz de feira”, estavam os feirantes protegidos de represálias e, em alguns casos, isentos de portagens e de impostos.

Uns negociavam gado, cereais, azeite, sal e outros produtos de subsistência, bem como artesanato, tecidos grosseiros e alfaias agrícolas. Outros compravam o que necessitavam até à próxima feira. E os desfavorecidos sobreviviam à custa da caridade e da economia da salvação. Daí a sua presença junto da sé e das igrejas e albergarias, para garantirem a remissão dos pecados da sociedade urbana e crente. Aliás, dar esmolas era uma prática aconselhada pelos religiosos, ao verem os mendigos como instrumentos espirituais para que os ricos e mais abastados alcançassem um lugar no Céu.

“O meu pai, além do teatro, gostava de escrever. Fazia muitos apontamentos, comentários e reflexões”, confirma um dos seus filhos, Carlos Polónio, revivendo a dureza inerente à representação do Mendigo Basilius. (facebook.com/rui.costa.9843)

Recordo o olhar fascinado das minhas filhas quando nos deslocávamos à Feira Medieval e nos deparávamos com o Mendigo Basilius e as suas chagas, que pareciam reais e muito dolorosas. Joaquim Vieira Basílio, ao encarnar a personagem de pedinte, próximo da Sé Velha, desde 1992, aprimorava sempre a maquilhagem especial e os andrajos que vestia. Este certame de narrativa histórica é dos mais antigos do país e surgiu de uma parceria entre a Câmara Municipal e o INATEL de Coimbra, graças ao antigo delegado João Fernandes.

O Mendigo Basilius no Mercado Medieval de Óbidos.
(olhares.com/Torress – facebook.com/mercadomedievalobidos)

O Centro Popular de Trabalhadores de Sobral de Ceira, ao qual Joaquim Vieira Basílio esteve ligado na última fase da vida, através do teatro, prestou-lhe homenagem como figura simbólica da região e das feiras medievais. Ao falecer em 2017, o generoso Mendigo Basilius – que doava a instituições solidárias todas as esmolas que recolhia nas recriações históricas em Portugal e no estrangeiro – deixou também muito material escrito, recortes de jornais e documentos que nunca chegaram a ser tratados nem organizados em livro, como queria o seu filho Jonas. “O meu pai, além do teatro, gostava de escrever. Fazia muitos apontamentos, comentários e reflexões”, confirma agora Carlos Polónio, revivendo a dureza da própria representação: “O meu pai chegava a permanecer seis ou sete horas seguidas no desempenho dessa personagem histórica, ao sol ou ao frio e descalço.”

O Mendigo Basilius, figura emblemática das ruas e autêntica “estátua viva” de uma realidade dura e atormentada, não mereceria ser homenageado com uma estátua na cidade, como símbolo de reconhecimento, gratidão e saudade de um homem bom?

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 12 de Julho) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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13/07/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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