“Magnifica humanitas”, de Leão XIV (2)
No 135.º aniversário da “Rerum novarum”, o Papa Leão XIV reflete, na sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência artificial. (instagram.com/paroquiasjbpoa)
Um renovado alerta para toda a Humanidade!
O discernimento ético não pode limitar-se a perguntar se utilizamos um determinado sistema para um fim bom ou mau, mas deve também questionar-se sobre a forma como foi projetado e que ideia de pessoa e sociedade está inscrita nos dados e nos modelos que o orientam. (Leão XIV, in MH, n.º104)

Como prometi, regresso ao tema do texto anterior “Magnifica humanitas”, o notável texto do Papa Leão XIV, onde este declara com clareza, tendo como pano de fundo a problemática da IA, que“a justiça exige que se impeça o surgimento de novas formas de exclusão e privação de liberdade: pessoas e povos a quem é negado ou dificultado o acesso às tecnologias básicas, comunidades expostas a uma vigilância invasiva, grupos sociais penalizados por algoritmos opacos que reproduzem preconceitos e discriminações”.

Para o Papa, “uma ordem social justa na era digital é aquela que garante a todos um acesso equitativo às oportunidades, protege os pequenos e mais frágeis, combate o ódio e a desinformação, submete a utilização dos dados e das tecnologias à inspecção pública, de modo que o critério não seja apenas o lucro, mas a dignidade de cada pessoa e o bem-estar dos povos” (passagem n.º 80).
Ao defender esta tese, o Papa regressa a temas já bordados por Paulo VI, na sua encíclica “Populorum Progressio” (de 1967), em que defendia que “o desenvolvimento só é autêntico se for “integral”, ou seja, destinado a “promover todos os homens e o homem todo”, salientando também que a Doutrina Social da Igreja, ao longo do tempo, se tem preocupado em enunciar os grandes princípios – dignidade, bem comum, destino universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça social – que se devem concretizar na História, concluindo que o “desenvolvimento humano integral” deve ser entendido como “um processo em que o crescimento das pessoas e dos povos diz respeito a todas as dimensões da existência e abre o futuro também às gerações vindouras.” (passagem com n.º 82).
Leão XIV alerta-nos para o facto de o perigo da Humanidade se tornar vítima das próprias conquistas, que também Paulo VI já tinha referenciado, ao dizer que “os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento económico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem” (n.º 84).

Centrando-se mais particularmente sobre o problema da inteligência artificial (IA), o Papa Leão XIV declara que “qualquer afirmação sobre a IA corre o risco de se tornar obsoleta em pouco tempo, dada a impressionante velocidade de desenvolvimento destes sistemas”. Depois acrescenta que “todos nós, incluindo quem o projeta, sabemos muito pouco sobre o seu funcionamento efetivo”.
Na verdade, as inteligências artificiais modernas são mais “cultivadas” do que “construídas”: os programadores não projetam diretamente todos os detalhes, mas criam uma arquitetura sobre a qual a IA “cresce”. Daí que Leão XIV conclua que é, cada vez mais, importante aprofundar a investigação científica, mas também novos exercícios de discernimento moral e espiritual (como expressa na passagem n.º 98).
Outro alerta importante do Papa é que devemos evitar o equívoco de equiparar a IA à inteligência humana, pois os sistemas de IA apenas (l)imitam a inteligência humana. Podem ser mais velozes, oferecer muitas soluções rápidas, mas não possuem corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem na experiencia das relações. Não sabem o que é o amor, o trabalho, a amizade, a responsabilidade. Não possuem consciência moral, um exclusivo dos seres humanos. Por isso, não sabem julgar o bem e o mal, não captam o sentido último das situações, nem assumem o peso das consequências (n.º 99).

Um outro aviso é relativo “à rapidez e à simplicidade com que é possível obter orientações, processamentos complexos, conteúdos mediáticos e formas de assistência concreta que simplificam as nossas vidas, mas também podem habituar-nos a delegar em demasia e a procurar respostas prontas, enfraquecendo a própria opinião e a criatividade”. No entender de Leão XIV, a “aparência de objetividade que as respostas e as propostas destes sistemas podem suscitar corre o risco de nos fazer esquecer que elas refletem os parâmetros culturais de quem os concebeu e treinou, com todos os seus méritos e defeitos”. Isto é, as respostas que a IA nos possa dar traduzem os interesses dos seus criadores (n.º 100).
O Papa refere os usos manifestamente anti-humanos, como a manipulação da informação ou a violação da privacidade, e reconhece que também pode haver uma ameaça menos evidente, quando os sistemas de IA, apresentando-se como neutros e objetivos, refletem e reforçam estereótipos ou posições ideológicas daqueles que os projetaram e treinaram (passagem n.º 102).

Leão XIV sublinha que é preciso “desarmar” a IA, o que significa subtraí-la à lógica da competição armada, que, nos nossos dias, não é só militar, mas igualmente económica e cognitiva. Para ele, “desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar”. Não se trata de renunciar à tecnologia, mas, sim, impedir que ela domine os seres humanos (n.º 110).
Nesta carta encíclica, temos ainda outros dados a que somos particularmente sensíveis, como educadores. Leão XIV fala da importância de investirmos na Educação, aludindo à centralidade desta.
O Papa defende que “são necessários adultos que redescubram a sua vocação de artesãos em educar, dispostos a um trabalho diário e paciente, apoiado por alianças educativas amplas e partilhadas”. Por isso, é urgente “acompanhar crianças e adolescentes na utilização das tecnologias como espaço de relação responsável, ajudando-os a reconhecer nelas os riscos e a escolher o que faz crescer a liberdade interior”. O que, segundo ele, representa uma forma concreta de caridade e de salvaguarda da sua dignidade.

Por isso, é preciso “educar as novas gerações para acreditarem que a evolução das tecnologias não segue um percurso inevitável, mas que pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva, constitui um dos serviços mais preciosos ao bem comum” (n.º 238).
Sem qualquer dívida, a escola hoje tem de ensinar os jovens a amar a justiça e a paz. Tem de lhes fazer sentir que as mesmas tecnologias libertadoras podem ser escravizadoras quando mal usadas; que as tecnologias, que nos facilitam a comunicação e tanto acesso a recursos, também podem explorar os mais fracos e alimentar novas formas de escravatura.
Tem de ensinar com lucidez e tem de equacionar os perigos da IA que podem levar à guerra e à manipulação, ajudando a encontrar caminhos concretos para fazer crescer a equidade, a participação e o cuidado da criação. Como salienta Leão XIV, a “esperança que anunciamos vem do céu para gerar uma nova história aqui em baixo”. Precisamente por isso, quem acredita empenha-se para que, em vez das desigualdades, se abra espaço a uma maior justiça e que, “em vez da indústria da guerra, se afirme o artesanato da paz” (passagem n.º 240).
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Nota do Director:
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09/07/2026