“Mamma Roma”
“Mamma Roma”, filme do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, com a exímia interpretação de Anna Magnani. (facebook.com/rtpdois)

Para assinalar os 50 anos da morte de Pier Paolo Pasolini (PPP), a RTP2 programou um breve ciclo com três obras-primas do cineasta italiano. “Mamma Roma” é, como informa a RTP, “um retrato neorrealista de martírio maternal com uma extraordinária dimensão poética e social e coroado por uma das mais exímias interpretações de Anna Magnani”. A mesma nota informativa diz-nos tratar-se do segundo filme de PPP, “com argumento original, e uma das primeiras obras do cineasta a retratar os marginais da sociedade italiana”.
Estamos perante a “melodramática história de uma prostituta de Roma que tenta dar uma vida digna ao seu filho”, apresentando-se como um “filme de uma extraordinária dimensão poética e social”. Na altura da sua estreia, o filme foi proibido em Portugal, tendo sido exibido apenas em 1992.
É de notar a forma de escrita do filme, que, em determinados momentos, apresenta uma construção épica, na qual os transeuntes da cidade de Roma se transformam numa espécie de coro grego que relata o passado da protagonista.

“O Evangelho Segundo São Mateus”, também exibido, é um drama bíblico inovadoramente naturalista e despojado. A vida de Cristo contada a partir do Evangelho, com as parábolas, os primeiros discípulos, a revolta, a determinação, os milagres, a intolerância, a solidão e a impaciência. Já escrevi um texto sobre este filme (na edição de 20 de Abril de 2023). Como ele está próximo da realização de “O Acto da Primavera”, de Manoel de Oliveira, sendo coincidentes nas datas de realização e de distribuição, assim como na linguagem cinematográfica puramente poética.

“Passarinhos e Passarões” é uma fábula de 1966, sobre os Innocenti (apelido simbólico), numa caminhada pela estrada fora. Totó (numa última interpretação) e o seu filho Ninetto Davoli, no caminho, encontram um corvo falante que comenta a actualidade política exaustivamente. Invulgar alegoria filosófica entre o cristianismo e o marxismo. O filme arranca com um genérico (registo de créditos), cantado “à capela”, totalmente original e inesperado. Totó, o actor e a personagem, estão tão colados um ao outro que dificilmente os podemos separar.
Voltando a “Mamma Roma” e conhecendo grande parte das divas e das actrizes italianas da época, pergunto-me: quem ou qual outra actriz poderia ter interpretado esta personagem? Imagino impossível… Ela é a loba iniciática da lenda romana, estridente no riso e nas lágrimas.

No início, ela assiste às bodas do seu “ex”, o seu chulo no passado. Agora, ela é uma comerciante de feira que vende produtos agrícolas. Alcançou um estatuto para cuidar do seu filho numa nova vida. O jovem Ettore, vestido com um fato parece um homem, como aqueles que exploram as mulheres, apaixona-se por uma mulher mais velha, Bruna, mãe de um filho.
Porém, o passado de Mamma Roma volta. O seu “ex” regressa para a explorar e ela assume uma dupla vida de prostituição nocturna e vendedeira de dia. O jovem Ettore é preso por roubar um rádio de um paciente do hospital. E morre exausto, confuso e detido, amarrado a uma cama, chamando pela mãe. Mamma Roma, ao chegar ao hospital, em desespero, abraça as roupas usadas do filho, correndo para a janela do quarto para se suicidar, mas é impedida. Desistindo finalmente, contempla a cúpula da Basílica de San Giovanni Bosco. E é este o único momento do filme em que vemos a cidade de Roma no seu esplendor. O resto é filmado nos arrabaldes, entre ruínas de aquedutos e colunas, sombras de um passado glorioso.

Ettore é um “ragazzi de vita”. “Meninos da Vida”, o primeiro romance de Pior Paolo Pasolini – como lemos no sítio electrónico “Nau Literária”, no âmbito da crítica e teoria da literatura em Língua Portuguesa – “evidencia a vida nacional no contexto de crianças e adolescentes que habitam regiões periféricas de Roma, lidando com privações, abusos e criminalidade, de modo que a literatura age como captação da realidade”.
Na paradoxal forma de vida do autor será ele próprio, Pasolini, vítima de um “jovem da vida” que o assassinou num encontro sexual.
Federico Fellini, no seu filme “Roma” (de 1972), rende uma homenagem a Anna Magnani, neste breve diálogo. A câmara segue a actriz até à entrada da sua residência:

cinema mundial. (media.rtp.pt)
“Narrador/Fellini: Esta senhora, de regresso a casa, caminhando à volta do muro de um palácio nobre, é uma actriz romana, Anna Magnani. Ela bem poderia ser o símbolo vivo desta cidade.
Anna Magnani: Achas?
Narrador: Roma vista como a virgem vestal e loba. Uma aristocrata e uma vagabunda. Uma bufona sombria.
Anna Magnani: Achas que sim? Estou com muito sono agora.
Narrador: Posso fazer-lhe uma pergunta?
Anna Magnani: Não. Desculpe. Não confio em si. Tchau. Vá dormir Federico.”
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02/04/2026