Brasil, meu Brasil brasileiro (2)
Morro da Urca, em Rio de Janeiro. (Créditos fotográficos: Davi Costa – Unsplash)

Rafael Amaral / Secult – g1.globo.com)
Na continuação destas minhas viagens sem destino, sem pressa e de forma ociosa, observando o ambiente ao redor, direi que a cidade de Belém evoluída e o seu Forte do Presépio me remetem à Belém lisboeta – não a Israel –, ao seu cais à beira rio fica defronte dos arrebóis semelhantes àqueles da capital portuguesa. Mas, tem ela também uma chuva diária e há sempre o risco de cair sobre a cabeça uma manga. É importante não divulgar tal chuva, o turismo contempla os adoradores do Sol.


Constantin Corjinovschi – Unsplash)
Fortaleza fortaleceu-se com o seu parque aquático, foi buscar inspiração em Orlando, trouxe tobogãs, as praias aptas para o banho não ficam exatamente na capital. Natal é tão violenta quanto um dia foi Chicago, nem é recomendável uma visita ao Forte dos Reis Magos. Entretanto, fica perto da pacífica Praia de Pipa, que vem tomando um aspeto de Mykonos tanto na arquitetura quanto na sua vibe noturna.
E Natal dispõe do voo mais curto entre o Brasil e Portugal. Ainda que a Grécia esteja, desde lá, bem mais perto, essa facilidade de deslocamento vem dando certo. Há ainda o Recife, não muito o indico: há tubarões tantos como há no Oceano Índico. Por vezes atacam. O que há de bom é Olinda, bem pertinho. Olinda parece-se consigo mesma. Todavia, muitos preferem ficar no Recife na Praia da Boa Viagem, para assegurarem uma má viagem: seja pelo preço pago nos restaurantes e hotéis, seja por um eventual outro assalto; será tudo por demais inesquecível.
Maceió é um engodo: tem um skyline na orla remissivo à riqueza que oculta a pobreza que há por detrás disso. Para o brasileiro, resta a emoção de ir até a Praia do Francês, longe de casa.

Salvador hesita em ser a casa do Senhor – aquele que salva – ou de ser a casa de Todos os Santos. Neste interregno, abriga todos os pecados. Os roubos são comuns, soçobra uma inquietude num ambiente que sugere ter uma alegria de Carmem Miranda. Porém, mais do que beleza, Salvador contém uma diversidade socioeconômica que irrompe em tristezas.
Belo Horizonte é uma anti-Minas, metropolizada, do interior só mantém o sotaque. Pela falta de praia, espalha toda a gente em bares barulhentos. Melhor seguir para Ouro Preto, que parece ser, sim, muito Ouro Preto. Mas que, para o olhar do luso-brasileiro, se parecerá desde sempre com Angra do Heroísmo, ainda que o herói, neste caso, seja um anti-português, o Tiradentes, fincado por lá na via principal.
O casario é um delírio para os olhos. Complicado é estar sempre a pisar em pedras. Ainda assim, a cidade parece-me ser tão portuguesa! E tão brasileira! Sinto-me em casa.


Unsplash)
No Rio de Janeiro, o turista quase sempre chora, são tamanhos os riscos de alguma coisa vir a dar errado. O Rio é olhar para a beleza em sobressaltos. Há quem diga que a sua baía se parece muito com a de Hong Kong, em razão disso tem aumentado, em muito, o volume de turistas chineses. Tanto quanto aumentou a oferta de produtos made in China vendidos no Saara. Este é um complexo de ruas do centro não um deserto. Estão sempre apinhadas de gente no calor das compras. Aos Chineses eu recomendaria maior atenção ao recado do biscoito da sorte: “Melhor seria teres ficado em casa ou, pelo menos, teres viajado para mais perto de casa.”
São Paulo propõe uma pergunta: existe mesmo o Brasil? Encruzilhada de gentes mil, será essa a cara do Brasil? Até pode ser que sim. É um lugar que posiciona confortavelmente a minha lusitanidade. Qualquer boteco tem bolinho de bacalhau e qualquer padaria tem pastéis de Belém, mas o sotaque paulista é italianado, escapa ao “X” lisboeta carioca. Estarei sempre cercado de Itália e de outros acentos, onde quer que seja que me assente.

Florianópolis e Porto Alegre são incubadoras de parentes dos Açorianos. O difícil é encontrá-los, posto que o tecido urbano de ambas é muito espalhado. Em Santa Catarina, não gosto nada de Camboriú, que forjou a sua identidade a querer parecer-se com Dubai. E, incerta de vir a sê-la, inventou uma Disney caipira: o Beto Carrero.

Desastrosa, eliminou o sol na praia e inventou o estar à sombra o tempo todo. Enquanto o Brasil não se encontra e escapa de si numa Riviera (há umas tantas no litoral paulista e fluminense), exagera em viralatismo, ao se hospedar em resorts de importação que prometem uma noite nas Arábias, um mergulho polinésio; ou ao deambular pelos shoppings plenos de grifes sedutoras de além-mar.
Há até aqueles que se jogam em Foz do Iguaçu para fazerem compras na fronteira, onde recém-chegaram os novos perfumes de Paris e engenhocas de algures, made in Asia. O Brasil nega Pindorama (o seu nome original) e ofusca a herança portuguesa. No entanto, contava Pêro Vaz de Caminha que os Índios ficaram maravilhados com aquela gente clara e vestida com tanta roupa recém-chegada em canoas esquisitas. Conta que fez sucesso um marinheiro que tocava tamborim e um outro que fazia malabarismos.

testemunhando uma descoberta que mudou verdadeiramente o
rumo da História. (newsmuseum.pt)
O Brasil nasceu já admirando o que vinha de fora. E agora? Está aí o 22 de abril (nesta quarta-feira), data em que aniversaria o encontro com tamanho encanto. Getúlio Vargas eliminou o feriado do “nascimento nacional” por julgá-lo ser uma comemoração do colonialismo. Assim, reforçou o feriado do 21 de abril, que homenageia o alferes Tiradentes, o qual se rebelou contra o domínio português. E seria este, sim, o herói nacional.
Numa próxima crónica, vou descrever a minha descoberta do Brasil, justamente como convém a um luso-brasileiro: encontrei no Sul da Bahia o retrato da miscigenação que nunca desaproxima Portugal do Brasil nem o Brasil de si próprio. Enfim, percalços que, para além de uma demarcação geofísica a ser visualizada, contemplaram-me com um estado de espírito essencial. É só porem-se à espera!
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Nota do Director:
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20/04/2026