Xenofobia em modo de comentário
(sicnoticias.pt)
Falemos de uma notícia. Encontrei-a no Facebook, depois de já a ter lido no Público. “Uma mulher muçulmana foi impedida de entrar num autocarro da Carris, em Lisboa, por estar a usar máscara e hijab. A jovem, de 26 anos, apresentou queixa por discriminação junto da Carris e da PSP.” Logo abaixo, a habitual indicação: “Saiba mais através do link na bio” – convite que pressupõe, naturalmente, que a informação não se esgota no fragmento apresentado. A acompanhar o texto, uma imagem no formato gráfico recorrente da SIC Notícias. A letras vermelhas num fundo branco, lê–se o seguinte: “Mulher impedida de entrar em autocarro da Carris por usar máscara e hijab faz queixa por discriminação.”

Façamos, então, o que nos é pedido: abrir o link.
A notícia esclarece que o episódio terá ocorrido uns dias antes. Uma mulher bengalesa, de 26 anos, tentava regressar a casa após deixar os filhos na escola, quando foi impedida, pelo motorista, de entrar no autocarro. O motivo invocado: o uso de máscara – ou do hijab, potencialmente da combinação entre os dois. O que é estranho, já que pessoas de máscara não são raras e o uso do hijab, que mais parece um lenço como tantos que hoje se encontram, não encontra qualquer obstáculo legal.

Perante a exigência, a jovem baixou a máscara cirúrgica para mostrar o rosto e voltou a colocá-la, logo que confirmada a sua face pelo motorista. Ainda assim, foi-lhe ordenado que a retirasse por completo, sob pena de o veículo não prosseguir viagem. Posteriormente, ao apresentar queixa, depois de ouvir um “lá vêm vocês com as vossas histórias” do polícia que a atendeu, a mulher bengalesa alegou que o entendimento terá sido o de que usava uma burca – cujo uso, recorde-se, foi alvo de legislação recente ainda não em vigor.

A leitura integral da notícia permite uma clarificação elementar dos factos. Sistematizemo-los numa frase: a mulher utilizava uma máscara cirúrgica – objeto banalizado no espaço público contemporâneo – e um hijab, cuja natureza e função estão longe de qualquer ocultação facial; perante isto, o motorista do autocarro impediu a sua entrada no veículo. Antes de mais, a associação entre o hijab e uma burca revela, no mínimo, uma confusão conceptual; no limite, uma ignorância preocupante. Mesmo admitindo, por hipótese, tratar-se de uma burca, a inexistência de enquadramento legal em vigor tornaria a interdição juridicamente infundada. O episódio aproxima-se mais de um gesto discriminatório do que de qualquer aplicação legítima de normas.
Até aqui, nada de particularmente surpreendente – aliás, é-o somente para quem crê viver num país que respeita o multiculturalismo. O que verdadeiramente merece atenção são as reações subsequentes, vocalizadas através de comentários à publicação.
Basta uma breve amostra, para efeitos de ilustração que não ofendam a sanidade do leitor:
- “O uso do Niqab em locais públicos é proibido em Portugal. Uma forma de tentar contornar a proibição é usar o Hijab + máscara de proteção. Parabéns ao motorista que procedeu como devia.”
- “As pessoas têm que seguir as regras do país que os acolhem. Lá no país de onde vêm também não permitem muitas coisas e os turistas se submetem às regras.”
- “Quando me pedem para tirar o chapéu no aeroporto (que não cobre de forma alguma o rosto), também me posso queixar de discriminação… já que é comum ver algumas outras pessoas a passar de “lenço” na cabeça.”
- “Ainda está em Portugal?!”
- “Mas está proibido em locais públicos, foi aprovado. E os jornalistas sabem disso.”
- “Sempre pode voltar para as origens lá pode usar à vontade sem qualquer problema.”
- “Ela que fique quietinha se não quiser ser extraditada… a lei é clara.”

Num contexto em que a informação está a escassos segundos de distância, a desinformação não apenas persiste como se afirma com segurança e convicção. Não se trata de ausência de acesso, mas de ausência de verificação; não de escassez informativa, mas de desinteresse pela sua complexidade. Poder-se-ia, a partir daqui, ensaiar uma reflexão sobre o potencial democratizador das redes sociais – estas ágoras digitais frequentemente celebradas, sobretudo pelos agentes populistas que tanto proveito delas retiram. Ou, em alternativa, sobre os mecanismos de circulação e legitimação da desinformação em ambientes de elevada exposição mediática. Ambas as vias seriam legítimas.

Porém, talvez o essencial resida na constatação de que o problema não está apenas nos meios ou nas plataformas, mas nas disposições que orientam a sua utilização. Sabemos que a facilidade de acesso não garante, por si só, uma cultura informada, nem a visibilidade ampliada implica necessariamente maior lucidez coletiva. Mas não são as redes sociais que escrevem estes comentários; são pessoas, muito provavelmente portuguesas, que rejeitam qualquer tipo de informação consistente, não resistindo contudo a tecer comentários da mais baixa e discriminatória estirpe – para não dizer xenófoba e racista.
Resta, assim, dar conta de um certo desalento. Não tanto perante o episódio em si, mas perante o que ele revela. Afinal, talvez não estejamos somente perante um problema de informação. Talvez estejamos perante algo mais profundo.
No Parlamento, ainda são só 60. Por esse Portugal fora, o desplante é de milhões.
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07/05/2026