Basileia

 Basileia

(Créditos fotográficos: Claudio Schwarz – Unsplash)

Reino de Deus e urbe humana. Demasiado humana?

Basileia, Suíça. (Créditos fotográficos: Eryk Piotr Munk – Unsplash)

Nos idos do século XVIII, emergiu uma corrente de pensamento dita humanista que considerava o uso da cor sendo um atraso intelectual. Argumentavam que as estátuas gregas nuas de cores representavam o apogeu, o máximo do humano. Nem mesmo se davam conta de que a quase totalidade delas, no passado, eram pintadas. Tão-somente o passar do tempo tirou-lhes as cores. Originalmente, ocorriam aos olhares coloridas.  

A “moda” pegou: as cidades europeias revestiram-se de tons pastéis, neutros, “humanizaram-se” rendidas ao rigor da evidência de que menos é mais. Será? Até hoje, nos dias frios, as pessoas usam roupas pretas, cinzentas, castanhas. Assimilam o temperamento do clima, conquanto descoloridas julgam-se humanas, demasiado humanas?

(Créditos fotográficos: Johnson Hung – Unsplash)
(Créditos fotográficos: Basil Minhaj – Unsplash)

Há uma cidade que contradiz tudo isso: tem nas cores a promoção do humano com o apoio do Divino. Essa cidade é a Basileia. (Teologicamente: o Reino de Deus, onde a sua vontade é soberana, estabelecida e prevalece.) Ao que parece, naquelas paragens suíças, Deus aposta nas cores, incita os humanos a colorirem e nem mesmo Kant, Goethe, Nietzsche, que ali viveram e sendo grandes humanistas, tiveram outra escolha para os seus olhares, a vontade divina prevaleceu na paisagem: o prédio da prefeitura é vermelho, renascentista, a Catedral (construída entre 1019 e 1500, nos estilos românico e gótico) é rosada e tem telhados coloridos voltados para o céu, assim como o Spalentor, portão medieval da cidade velha (um dos três portões sobreviventes da cidade de Basileia).

O. rio Reno que ali faz uma curva é absurdamente azul – e é assim que é visto, por onde quer que se olhe. Permeado pelo verde das árvores que se desverdecem somente quando chega o frio. O rio, no Verão, é o “caminho” favorito das pessoas que se jogam nele para executarem o seu lazer ou mesmo ao voltarem para a casa. Verão desde a água até à cidade alta esplendorosa. As casas têm janelas coloridas. 

(Direitos reservados)

Tal liberdade criativa – digamos: artística – também incide nos inúmeros museus interativos que incitam as criaturas a desenvolverem percepções “divinas” quanto às criações. Escuta-se a voz sussurrante dos pintores, num jardim com esculturas e águas que dançam ao ritmo de sons envolventes. Repetem o antigo morador, o psiquiatra e psicoterapeuta Carl Gustav Jung (1875–1961), que descobriu na cidade ou formulou o conceito de “inconsciente coletivo”.

Todavia, trata-se de uma arte a não propor barreiras. A Basileia não as tem, basta andar “um quilómetro” e estaremos em França. Com “um outro quilometro”, estamos na Alemanha. Falam ali Alemão, mas agradecem-nos com um “merci”. Ao estar nesta cidade; visitei três países e, talvez, o Reino de Deus, um sítio divino onde a cor e o humano permanecem harmonizados. Um lugar voltado para a criação do humano, demasiado humano, com aprovação divina.   

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01/06/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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