Conheci o “Umbigo da Lua”
O nome do México tem a sua origem neste outro nome: Metztlixihtlico. Cidade do México. (Créditos fotográficos: Roger Ce – Unsplash)
Na atualidade, as “cidades turísticas” descortinam-se em partes selecionadas, incitam a uma visita induzida sempre por dentro de um artificialismo gerado em prol do lucro, lugares vazios de originalidade. O lugar a visitar será sempre um clichê, um estereótipo, um lugar-comum sob um percurso previsível. Fornece-se um chavão, nunca a chave adequada que abre a porta, aquela que conduz à realidade. Neste sentido, são raros os lugares que não se apresentam como montagens, que contêm o passado e presente em consonância com o espírito do lugar; que existem, resistem sem artificialismos.

Encontrei a cidade do México numa noite alta, noite de lua cheia, todo o Zócalo esvaziado. Como assim, o Zócalo? O termo deriva de “zoccolo”. Era como os Romanos chamavam à base de uma coluna destinada a conter um obelisco, uma sustentação para um monumento. No século XIX, foi criado um concurso para se eleger o melhor projeto para um monumento que seria erguido na Plaza de la Constitución, em razão das comemorações da Independência. Um modelo foi escolhido. Porém, houve falta de dinheiro, uma vez que a nação se encontrava em guerra. E, por isso, o elegido nunca foi concluído.
Entretanto, erguera-se a base de uma coluna onde aquilo seria erigido. Essa peça permaneceu ali por muito tempo. Daí que o “zoccolo” tenha passado a ser a designação da praça onde todos passavam e marcavam encontros, até que, por fim, foi retirado. No seu lugar, foi colocada uma bandeira do país condizente com o tamanho da praça e o orgulho nacional. Enorme!

A praça foi erguida por Espanha no seu habitual modelo: o de Plaza Mayor. Resultou tão maior porque foi fundada sobre o que dantes era o terreno de Tenochtitlán, um templo asteca que continha um grande entorno. A ocupação foi maciça. Onde havia o Palácio de Montezuma II ergueu-se o Palácio Nacional, aquele que abriga a Presidência. Todavia, os Mexicanos não se furtaram ao orgulho do seu passado: ergueu-o com pedras das ruínas do palácio anterior.


A Catedral, que substituiu o templo que havia, ainda ressoa em quase trinta sinos. Redobram a dor dos eliminados, a memória de uma cultura vilipendiada, como também ressoa em cristandade a sua afinidade com o seu memorial.
A poucos quarteirões dali, o Palácio de Belas Artes apresenta uma arte europeia sem culpas. O seu mármore branco é encimado por uma cúpula dourada, uma majestosa composição alheia aos descartes da História e da memória. Quem quiser colocar-se nessas vias deve aceder ao parque que fica ao lado, ir até o Museu Diego Rivera, que recorda o nome do marido da tão triste e colorida Frida Kahlo, que pintou, em cores subtis, as tristezas das perdas e as glórias na História do México.


Se se segue mais adiante, encontra-se, na Plaza Garibaldi, os mariachis vestidos de branco com uns enormes sombreros cujos detalhes dourados nos remetem, novamente, para as cores do Bellas Artes. Contudo, a difusão dos seus acordes teria surgido para cobrir com alegria as “marriages”. Tocam a vida em enlaces como toca toda a cidade. Segue o México sendo México a cada mirada, não há espaço para artificialidades.
A Calle Madero que fica bem adiante tem uma linda casa de azulejos que não quis virar memorabília, funciona dia a dia sendo um restaurante. O convívio da cidade com a sua memória é frequente, pulsante. Eu tinha chegado dois dias, após um terramoto. Por todo lado, via alguém a estar a fixar coisas: a resiliência é proporcional á bravura desse povo. O quarto do hotel cheirava a reboco. Já continha um branco imaculado de boas-vindas, mas a indicar: “Agora saia e vá ao encontro das cores!”

do México. (Créditos fotográficos: Alejandro Giraldo Ortega – Unsplash)
Confesso que até então eu não sabia, mas ocorreu-me perguntar na Concierge (assistente virtual) o que significa a palavra “México”. Explicaram-me que “Metztlixihtlico” significa “umbigo da Lua” ou “centro da Lua”. Isso no idioma antigo dos Mexicanos, deriva da língua Náuatle. Resulta da junção das palavras “metztli” (lua) e “xictli” (umbigo). Ganhei novamente a rua e fui saudado por uma grandiosa lua incidente por acima de mim.
Santo domingo: visitei a Igreja de São Domingos e fui ver as ruínas astecas, a não tê-las abaixo de mim e, sim, ao meu lado. À cidade selena, toda alma serena a encontra na sua magia noturna.
Se a descobre, portanto, sem panfletos gerados por IA ou nas publicidades pega-turista, visitar o “Umbigo da Lua” é uma descoberta de conectividade para com a criação e a vida.

15/06/2026