(I am)sterdam (1)

 (I am)sterdam (1)

Rijksmuseum, em Amesterdão. (Créditos fotográficos: Georges Jansoone – pt.wikipedia.org)

Eu já conhecia as escadas apertadas, os quartos exíguos, são mais que comuns nos hotéis da cidade. Nesta vez, apetecia-me o plano e o vasto. Daí optei por residir, uns dias, num hotel que se situa próximo do Aeroporto Schipol. Obsequiei-me espaço interno e mais ainda: poder estar a ver, da janela, tílias, tulipas, esquilos…Da janela porque o vento e a chuva não colaboravam no sentido de estar a andar lá fora.

Schiphol Plaza/NS no Aeroporto Schiphol de Amsterdão. (Créditos fotográficos: Shirley de Jong – pt.wikipedia.org)

De certeza, eu não fora o único a ter feito essa escolha. Ademais, o hotel convinha-me porque oferecia transporte para o aeroporto onde haveria transporte ferroviário para me levar para o centro da cidade (coisa de dez minutos até à Centraal Station), a Haia, a Roterdão e a Bruxelas que, desta vez, eu haveria de conhecer.

Centro de Amesterdão. (Créditos fotográficos: Nikolai Karanesev – nl.wikipedia.org)

Na manhã seguinte, abstive-me do aquecimento e coloquei a janela em esquecimento. Fui para o local designado onde a “van/transfer” leva os hóspedes para o aeroporto. Sem telhados, logo o cabelo alvoraçado pelo vento e molhado. Pensei comigo: “Tudo bem! Estar na Holanda é estar cercado de água por todos os lados! Faz parte!”

Paragem de elétrico do lado oeste da Estação Central de Amesterdão, renovada, com três elétricos Combino a operar nas linhas 2, 12 e 13. (Créditos fotográficos: Eriksw – nl.wikipedia.org)

Também estava ali um homem hospedado no hotel, trazendo consigo apenas uma bolsa de couro onde cabiam todos os seus pertences. Claramente, não eram muitos os que ele levava para viajar. Um homem simples: calçava umas botas curtas com resíduos de barro, usava uma boina de cor indefinida, surrada; e uns óculos respingados de chuva, que ainda assim não ocultavam os seus olhos azuis, inusitados para aquele dia cinzento. Olhos fulgurantes dos mares do Norte com a precisão de um momento de alguém retratado por Rembrandt ou por Anthony van Dyck. No que pensava?

Basílica Co-catedral de São Nicolau, em Amesterdão. (commons.wikimedia.org)

Entabulei conversa com ele. Contou-me que era jardineiro, que no verão vive na Holanda, a sua terra; e que, no inverno, busca o sol, algures. Por isso, já teria conhecido 17 estados brasileiros! Uau! Mas, desta vez, tinha a Etiópia como destino, bem mais barata. Mas, desta vez, tinha a Etiópia como destino, uma opção bastante mais económica. Uma escolha sensata.

Amesterdão (Países Baixos). (Créditos fotográficos: Adrien Olichon – Unsplash)

Conversa vai, conversa vem, expostos a um clima inclemente, enquanto a “van” não vinha, perguntou-me: “Então, por que escreves?” Disse-lhe que talvez fosse por eu ser luso-mineiro. Terei herdado do pai, português, o “navegar é preciso”! O gosto e a sina de sair pelo Mundo afora, sem demoras. E da mãe, brasileira e mineira, o imaginário do longínquo, as mais distantes geografias que, tão-somente e apenas, se adivinha haver detrás das montanhas, numa morosa contemplação. Ambas as vertentes aguçam-me as letras. Algo como as sementes e os bolbos despertariam nele o desejo de plantar vida.

Amesterdão (Países Baixos). (Créditos fotográficos:  Callum Parker – Unsplash)
Jardins da Ilha do Moinho de Vento, Holanda (Países Baixos).
(Créditos fotográficos: Lori Stevens – Unsplash)

E, logo, a conversa terminou: a “van” chegara. Já vinha cheia, sabe-se lá de onde vinham as outras pessoas. Tomámos os assentos que restavam: um à frente, outro mais atrás. Chegámos ao Schipol, uma última saudação mútua. Não muito tardou e já me encontrava naquele cartão postal a ter atrás de mim a estação central. Por onde seguir? Amesterdão é um convite à mobilidade. Esta, quando não é exercida através da bicicleta, não exclui o prazer de deambular a pé, desde que tal seja feito fora da ciclovia, pois a cidade dá prioridade aos peões.

A princípio, bastava estar a passear pelos beirais dos canais, tudo é Amesterdão!

Aliás, a cidade que tem no nome o rio Amstel. Já não o tem mais, ele virou uma miríade de canais. São lindos e, além disso, não cheiram mal como os de Veneza, pois a água é bombeada e renovada de três em três dias. Decido começar pela frente da igreja que se encontra apinhada de crianças e de adultos com cara de criança (afinal, são holandeses) animados com a passagem do São Nicolau que, por sua vez, distribui guloseimas e alegrias. Percebo em mim essa alegria, uma inocente leveza, com certeza: “(I am)sterdam.” Tudo o mais se contará depois.

(Créditos fotográficos: Екатерина Борисова – pt.wikipedia.org)

18/06/2026          

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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