Não faz sentido estar a praguejar em Praga
Ponte Carlos, em Praga, na Chéquia. (Créditos fotográficos: Rodrigo Ardilha – Unsplash)
Não é de se estranhar que a contemporaneidade contenha tamanha polaridade: os fronts direitos e os de esquerda posicionados inteiramente divididos, ávidos por estranhamentos, não apresentam nenhuma novidade. Diríamos que o homem, ao vislumbrar, na tentativa de sair da caverna, que à frente havia outra caverna com outros homens, cismou de estranhá-los.

Com isso, deu um passo para trás: criou um líder que gerenciaria o grupo dentro de um ideal de estranhar o outro grupo. Ambos os grupos, um dia, puseram os pés para fora da caverna, fiéis seguidores dos seus líderes; o confronto entre os grupos foi inevitável, a marcha da insensatez foi estabelecida – o que haveria fora da caverna à caverna não pertencia, o outro era outro, um inimigo. Um grupo de opositores. O homem não encontraria outro homem ao centro, escapou para a direita e para a esquerda, a levar consigo o mais que equivocado ideal do seu líder: separar é preciso!
Corria o ano de 1990, um ano em que trabalhei no Turismo. A minha tarefa era juntar pessoas e levá-las para viajar comigo. Eu achava os roteiros demasiado incultos, propensos a promoverem miradas curtas, imprecisas. O que me parecia ser uma perspectiva ordinária de deslocamentos de massas. Interessava-me o deslocamento incomum: seguir, prosseguir para algum lugar onde ninguém estava a seguir. Porém, estaria a levar seguidores comigo. Não como líder, mas numa fraterna parceria, essencialmente, investigadora da História.

Em certo dia, chegou-me às mãos um anúncio de que uma agência de viagens do Rio de Janeiro estaria a montar uma viagem que, na época, ninguém fazia: ver de perto o desmonte ou derrube da Cortina de Ferro, inclusivamente poder conferir com os próprios olhos a demolição definitiva do Muro de Berlim. Fui até Rio de Janeiro, conversei com eles e me dispus a criar um grupo. Assim o fiz: em julho, embarquei com 44 pessoas, a maioria eram professores universitários. Havíamos de somar à nossa Civilitas uma ampla Universitas. Fomos pioneiros enquanto brasileiros naqueles caminhos. A operação tinha deficiências de conforto previsíveis, seguíamos conscientes de que não encontraríamos hotéis com mais de uma ou duas estrelas, o autocarro não seria panorâmico como eram os Pullman. Eu seria o intérprete, pois o guia polaco só falava Alemão. Naquela época, ninguém naqueles países onde iríamos falava Inglês. Havia uma preocupação com a alimentação incluída no pacote, enfim…

A viagem partiu da tão cara e bem resolvida Zurique, o autocarro era um luxo. Seguimos até Viena, outra cidade cara e bem resolvida. Doravante, o que viria pela frente? Andei sozinho pela madrugada vienense para me preparar para o desafio, a cidade é um aglomerado de anéis, vai-se de um lugar, volta-se para o mesmo lugar. Segui, cíclico, absolutamente encantado com a rua, com a Lua, com a arquitetura que propunha alguma tertúlia comigo àquela hora de silêncio. Ao voltar, aproveitei a água alpina a correr pela banheira e fui deitar-me mesmo a saber que descansaria por pouco tempo.
Não tardou, fui acometido por uma intensa alergia respiratória, o que era esperado, uma vez que o travesseiro continha penas de ganso, a que sou alérgico. Correu menos mal porque havia no meu grupo três médicos que levavam consigo medicamentos. Tudo saneado, lá fomos nós em direção a Praga, já por conta de um autocarro bem antigo, precário. Íamos conduzidos por um guia e um motorista polacos.

Viajávamos com vistos no passaporte e, na fronteira, ficámos retidos por mais de duas horas. A guarda checa deixava passar em directo toda a gente europeia e olhava para nós como se fossemos uma invasão inusitada de aves amazónicas, espécimes nunca vistas ali. Ergui-me e fui até à porta do autocarro para reclamar, exasperava-me aquela situação. Todavia fui contido pelos polacos: “Não piore as coisas! Nunca se sabe… Isto, aqui, é a Checoslováquia!” Só em 1992, a Chéquia e a Eslováquia se separaram, por conflitos burocráticos.

Contudo, permitiram a livre circulação dos seus cidadãos e de outras pessoas. Terminado o período de confinamento, entrámos em Praga. O hotel que nos foi destinado situava-se na periferia e era, de facto, assustador. Tinha um elevador velho e rangente, cuja porta, semelhante a um acordeão, produzia ruídos que faziam lembrar um principiante a ensaiar o instrumento.
Já alta noite, alguém se dirigiu ao meu quarto para deixar uma mala que algum elemento do grupo se esquecera no chão. Dormi pouco. Na manhã seguinte, desci para o pequeno-almoço com a referida mala. O proprietário agarrou nela visivelmente irritado, contando que não conseguira dormir por nela guardar o seu dinheiro. Conferiu, cuidadosamente, o conteúdo até se tranquilizar e, já com a irritação a esmorecer, censurou-me por não ter ido, de quarto em quarto, à procura do dono da mala.
Encarei a sopa fria, de tomate, pepino e iogurte. Era o que havia. O dia prometia ser kafkaniano ou talvez me premiasse com um aceno do Milan Kundera. Algo assim: perceba “a insustentável leveza do ser”. Até que, por fim, vimos Praga! Mais parecia saída de um conto de fadas. Avançámos, a pé, pela ponte que leva ao castelo. De súbito, uma das professoras constatou que todo o seu dinheiro desaparecera. Fora roubada ao pagar um sorvete que consumiria, distraidamente, na ponte.

Todos começaram a praguejar: “O que viemos fazer em Praga?” Procurei acalmá-los. Expliquei que o nome da cidade significa “umbral”. Entráramos num umbral kafkaniano. Apesar da beleza deslumbrante do cenário, havia como que um impulso para que aquele conto de fadas tivesse de incluir obstáculos, vilões e contratempos. Afinal, sem eles, não seria verdadeiramente um conto de fadas.
Acalmei-os. Quase sempre, os professores (assumidamente intelectuais) mantêm-se na esquerda. E nós estávamos num lugar que, na época da Guerra Fria, era considerado de esquerda. Exerci o fascínio do líder, levando-os a compreender que Praga não se endireita. Era preciso amá-la com o lado esquerdo do peito, o do coração, e só então a cidade passaria a justificar-se aos olhos de todos.

Está-se em Praga para a viver, para a ver. Praga está por toda a parte. Convém, por isso, mantermo-nos à esquerda para lhe vermos o lado direito e, também, à direita para lhe contemplarmos o lado esquerdo. Praga é um umbral que anuncia que, para lá da caverna, há luz e há pessoas. O homem permanece ao centro, com as suas iguais inclinações, quer para o bem, quer para o mal. É o lugar exacto para sair da caverna com o pé direito e com o coração a bater à esquerda, indiviso.
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06/07/2026