Vinte e quatro séculos depois de Tucídides
(Créditos da imagem: Tanya Barrow – Unsplash)

edifício do parlamento austríaco (Reichsratsgebäude),
construído pelo barão Theophil von Hansen, em
estilo neoclássico. (pt.wikipedia.org)
Não se procura esboçar, ao longo das linhas que se seguem, uma qualquer descoberta original. O propósito é mais modesto, ainda que não menos exigente: tornar visível a persistência com que os acontecimentos se encarregam de confirmar uma realidade inquietante. Há, por isso, uma ideia que atravessa toda a reflexão e que importa enunciar desde já: a mais clara noção do que é certo ou errado raramente basta para orientar a conduta humana. Se se preferir uma formulação mais severa, dir-se-á antes que a consciência da diferença entre o bem e o mal revela, não poucas vezes, uma surpreendente impotência para impedir a escolha deste último – condenando o primeiro a permanecer no confortável território das intenções jamais convertidas em ação.
Para sustentar esta tese, que de modo algum pode passar sem uma justificação bem composta, atrevo-me a convocar um conjunto de casos concretos. Mergulhemos em dois tipos de exemplos, pertencentes a tempos radicalmente distintos: o primeiro, legado pela literatura clássica; o segundo, imposto pela mais imediata atualidade.

De “Anna Karénina”, escrito por Lev Tolstói, passando por “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, pela tragédia íntima que atravessa “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, e pelo lento desmoronamento familiar narrado em “Os Buddenbrook”, de Thomas Mann, a grande literatura oferece um vasto cortejo de personagens que reconhecem, com inteira lucidez, a via moralmente mais exigente, mas optam por dela se desviarem, precipitando-se em destinos cuja tragédia se deve precisamente a uma escolha que fizeram.
Em todas estas obras, a distância entre o juízo e a ação constitui o verdadeiro motor da tragédia. Por que recorro a romances de outros séculos? A resposta é, em si mesma, elucidativa: porque todos oferecem retratos da condição humana, por sua vez profundamente impermeável à passagem do tempo. É, de resto, esclarecedor que um exame às mais horrendas práticas de dominação e de exploração do Outro nos revele que estratégias idênticas se mantêm até hoje, embora adaptadas ao potencial dos recursos que agora temos ao dispor.

Atentemos no presente, que sobre a natureza humana também nos oferece um caso interessante: a queda do ministro da Administração Interna, Luís Neves. Não a queda política em sentido formal – à hora a que escrevo, numa ensolarada manhã de terça-feira, Luís Neves permanece em funções –, mas a erosão da autoridade moral que, em certos casos, precede e pesa mais do que qualquer demissão. Até aqui, a imagem pública de Luís Neves confundia-se com a de um dirigente firme e competente, associado a algumas das mais relevantes operações de combate ao crime em Portugal. Não é curto o leque de investigações conduzidas com discrição e rigor, cuja dimensão apenas se revelava ao público quando os resultados já eram robustos o quanto basta. Recordo, entre outras, a Operação Safra Justa, sobre a qual escrevi há alguns meses – ainda que pudesse citar várias outras, igualmente merecedoras de aplauso.

Maior foi, por isso, a minha surpresa – creio não estar sozinho, antes acompanhado por muitos portugueses – ao descobrir que Luís Neves parece não escapar às fragilidades mais elementares da natureza humana. Como compreender que uma casa sua, no alto de um monte alentejano, venha sendo alvo de operações sem faturas nem registos financeiros que as documentem? Como conciliar a versão segundo a qual a alegada piscina não passaria de um simples tanque com as imagens de satélite que, afinal, mostram que, naquele local, nada existia antes do início das obras? E o que dizer da descoberta, nas instalações da empresa do empreiteiro responsável, de um atrelado outrora apreendido pela Polícia Judiciária – com a qual o dito empreiteiro mantinha relações profissionais há anos, logo coincidentes com o período em que Luís Neves era o diretor? Tomados isoladamente cada um destes elementos, poderia admitir explicações. Considerados em conjunto, desenham um quadro suficientemente inquietante para tornar inevitáveis as perguntas que hoje recaem sobre quem, durante tantos anos, simbolizou a autoridade encarregada de as fazer a outros.
Ressalve-se que todas estas palavras apenas deixam de revestir o carácter provisório que aqui lhes atribuo quando as diligências necessárias permitirem confirmar a veracidade dos factos, mas também que esta cautela não basta para invalidar um argumento que atravessa séculos de reflexão sobre a condição humana – recordemos que a “História da Guerra do Peloponeso”, uma das mais penetrantes obras sobre a natureza humana, foi composta por Tucídides cerca de quatro séculos antes de Cristo. Se havia ministro que jamais imaginei ver enredado em questões desta natureza, com certeza era Luís Neves. É, por isso, com genuíno pesar que assisto ao desgaste da sua reputação, apesar de consciente de que deste caso emerge o ponto principal do presente artigo: a realidade tem o estranho hábito de desfazer as exceções que julgamos existir e de recordar, uma e outra vez, que ninguém está verdadeiramente imune às fragilidades da condição humana.
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23/07/2026