Não há poesia depois de “Safra Justa”

 Não há poesia depois de “Safra Justa”

(Imagem gerada por IA – canva.com)

Theodor Adorno e Max Horkheimer, pensadores alemães do século XX, escreveram em “Dialética do Esclarecimento” (no ano de 1947) que o destino sombrio da modernidade estava inscrito na sua própria vitória. Que a razão, responsável pela queda de mitos e de superstições, havia convertido a vida numa força orientada apenas pela utilidade, pela eficiência e pela administração técnica da existência. O ser humano, outrora sujeito da História, esgotava-se então na qualidade de elemento metrificável, instrumental e substituível. Era tomado como um martelo a que recorremos, exclusivamente, como meio para alcançar um fim. Ou como um olival cujo valor medimos pelo número de posseiros que dele retiramos. Algo que já não é, no fundo, um ser humano – aconteceu em Auschwitz, por exemplo.

Os filósofos frankfurtianos Theodor Adorno e Max são autores da obra “Dialética do Esclarecimento”. (sentidosocial.com.br)

Para mal de todos nós, as décadas que nos separam dos anos 1940 não trouxeram a maturação cognitiva e humanista que seria de esperar. Elaborada na fulgurância dos campos de concentração e tantas vezes tida por datada, esta tese dá mostras de vitalidade a cada gesto animalesco do Homem. E a Operação “Safra Justa”, aqui em Portugal, é a mais recente exposição daquilo que Adorno e Horkheimer designaram como o triunfo da razão instrumental sobre a dignidade.

(Créditos fotográficos: Nazar Hrabovyi  – Unsplash)

Num campo agrícola, cerca de meio milhar de trabalhadores emigrantes foi encontrado em condições que beiram a escravatura. Por trás, uma estrutura criminosa que explora centenas de trabalhadores estrangeiros – quase todos em situação irregular –, reduzindo a sua condição humana ao seu valor de uso. Cada corpo, uma unidade de produtividade; cada existência, um input económico. A desumanização não surge, portanto, como um acidente moral, mas como algo munido da mais afinada lógica funcional. Zero equívocos, infinita convicção, plena concretização.

Ergue-se, portanto, uma questão inevitável: onde estavam as forças de segurança que, há escassos meses, receberam 400 euros de subsídio de risco, justificado por uma perceção (inflacionada) de insegurança?

A pergunta não é inocente. Em Portugal, não são raros os episódios em que agentes da autoridade alimentam publicamente discursos de hostilidade contra emigrantes, sobretudo os indocumentados, reforçando a ideia de que deles emanam o perigo, a desordem e o crime. Mas é aqui que o caso ganha contornos ainda mais perturbadores: entre os detidos estão dez militares da Guarda Nacional Republicana  e um agente da Polícia de Segurança Pública, suspeitos de colaborarem com a rede criminosa.

(facebook.com/jornalexpresso)

Não foi agora que a expressão de ódio – desde o discurso à agressão, do insulto a vias de facto – se tornou uma das mais salientes marcas da contemporaneidade. Vai, contudo, revelando uma nova camada: o desfasamento entre a prática e a narrativa. Quem tem medo de emigrantes, não costuma inseri-los no seu país; quem embandeira a emigração ilegal como a origem de todos os males, não costuma ser seu promotor; quem mandata André Ventura para “limpar a corrupção”, não costuma contribuir ativamente para uma das suas mais grotescas expressões.

Reformulemos: não costuma – a menos que encontre na escravatura, no tráfico de pessoas e na corrupção um meio de lucro próprio. E regressamos, uma vez mais, à tese que inicia o texto.

Em 1947, Theodor Adorno e Max Horkheimer escreviam sob o peso da época mais aterradora da História. Podemos dizer, com razão, que foi há mais de oitenta anos. Mas quem viveu as duas épocas, como o filósofo alemão Jürgen Habermas, não hesita: “As democracias ocidentais não estão a morrer num golpe dramático, mas a definhar sob o olhar indiferente de cidadãos que se tornaram meros espectadores do próprio declínio”.

.

………………………….

.

Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

.

11/12/2025

Siga-nos:
fb-share-icon

Lourenço Ferreira

https://linktr.ee/glourencosferreira

Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

Outros artigos

Share
Instagram