Recuperar a missão humanista da escola

 Recuperar a missão humanista da escola

(profseducacao.com.br)

O pensamento nasce sempre na terceira margem do rio. (João Guimarães Rosa)

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António Sampaio da Nóvoa (ASN) dispensa apresentações. Há quem o considere o maior educador vivo entre os falantes da língua portuguesa; outros consideram-no  uma das maiores referências mundiais do mundo educativo. 

A brasileira Revista Educação publicou, em 31 de Julho de 2026, uma entrevista  com este educador e queremos dar a conhecer as ideias principais. Segundo essa revista, António Sampaio da Nóvoa foi o relator do documento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) “Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação”,  o qual inspirou debates em muitos países sobre a transformação da educação diante das mudanças sociais, culturais e tecnológicas.

António Sampaio da Nóvoa (Créditos fotográficos: Sofia Mota – hojemacau.com.mo)

Na entrevista, ASN começa por considerar desafiador o contexto social e político actual,  considerando-o “mais dramático do que nunca” e  salienta  a importância do fortalecimento da comunidade escolar, defendendo que a escola deve ser capaz de encontrar um rumo no meio  de  tanta incerteza,  fragmentação  e tantos confrontos. E isso é, cada vez mais, urgente porque crescem os autoritarismos e os fanatismos que parecem ter respostas para tudo. Mas, o pior, como diz AN, é que quase ninguém tem perguntas. E, sem perguntas, não há educação.

António Sampaio da Nóvoa sabe que só a dúvida “nos permite ultrapassar aquilo que já sabemos e abrir caminho para o novo”. Considera que devemos continuar atentos na defesa dos direitos humanos, que, hoje, é posta em causa em tantas partes do Mundo. Porém, pensa que, ao mesmo tempo, somos chamados a reconhecer uma nova geração de direitos: “Os direitos da Terra e da sustentabilidade de um planeta gravemente ameaçado; o direito ao digital como bem comum, de acesso livre e universal; o direito às diversidades, para que ninguém seja obrigado a viver de uma forma que não escolheu; e o direito à longevidade, porque a grande revolução silenciosa do nosso tempo é o aumento da expectativa de vida, que faz conviver, como nunca antes, tantas gerações no mesmo tempo histórico.” 

António Sampaio da Nóvoa sabe que só a dúvida “nos
permite ultrapassar aquilo que já sabemos e abrir caminho
para o novo”. (acad-ciencias.pt/scholars/antonio-sampaio-
da-novoa)

Aqui, tem de entrar a escola, porque esta deve ocupar um lugar insubstituível. Ela deve ser espaço para muitas aprendizagens, mas, antes de tudo, um espaço de liberdade, pois é “o lugar onde seres humanos educam outros seres humanos para o bem da Humanidade”.  Concluindo que “a tarefa mais urgente do nosso tempo é recuperar a missão humanista da escola como o lugar onde aprendemos a construir o comum e [a] resgatar a grande missão humanista dos professores”.

Um outro momento importante desta entrevista é quando António Sampaio da Nóvoa defende que, mais do que uma comunidade, a escola é uma instituição, recordando, a esse propósito, que, em França, durante muito tempo, os professores eram chamados “instituteurs”, isto é, “instituidores”, uma vez que tinham a tarefa de  instituir as crianças e os jovens como cidadãos, dando, assim, forma às comunidades que constituem a nação.

E o entrevistado cita Anísio Teixeira, reconhecido como o grande patrono da escola pública no Brasil, o qual terá dito que “a escola pública é a maior invenção do Mundo”. Por isso mesmo, esta instituição tem de ser protegida “de certos devaneios futuristas e de imaginários que se apresentam como inevitavelmente modernos e inovadores”.   António Sampaio da Nóvoa até acha estranho que se possa hoje propor “uma educação cada vez mais personalizada, flexível, on-line, quase inteiramente digital”, como se as escolas se tornassem dispensáveis.  

António Sampaio da Nóvoa estranha que se afirme que “os
professores serão co-docentes ou colegas de tutores de
inteligência artificial. (Créditos fotográficos: ORibatejo –
pt.wikipedia.org)

E julga pouco sensato que alguém possa defender “que os alunos devem colaborar com a inteligência artificial”, uma vez que “a colaboração é uma experiência propriamente humana”. ASN reconhece como igualmente estranho que se afirme que “os professores serão co-docentes ou colegas de tutores de inteligência artificial, considerando que “as máquinas podem ser ferramentas extraordinárias, mas não pertencem ao mesmo plano da experiência humana”.  Por isso, conclui que educar é uma relação entre pessoas, fundada na responsabilidade, na confiança e na liberdade. A escola tem sentido  porque é o lugar do comum: “[…] do trabalho em comum, da convivência entre pessoas de diferentes origens, culturas e modos de pensar.” E recorda Paulo Freire: “Educamo-nos em comunhão, uns com os outros.”

Terá, pois, de ser essa “a visão que inspira o novo contrato social para a educação, proposto no relatório da UNESCO ‘Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação’”. E remata dizendo que esse horizonte “exige valorizar as escolas e os professores, fortalecer a instituição escolar e reconhecer a profissão docente como um dos pilares da democracia”.

Segundo António Sampaio da Nóvoa, “ninguém aprende a
ser professor apenas assistindo a aulas, presenciais ou à
distância”. (ceied.ulusofona.pt)

De acordo com ASN, uma comunidade escolar saudável deve ter características muito específicas, citadas no  relatório da UNESCO:

  1. Em primeiro lugar, a cooperação, porque o mais importante não é, simplesmente, dar aulas, “mas sim colocar os alunos em situação de estudo e de trabalho, cooperando entre si, com o acompanhamento e a orientação do professor”.
  2. Segue-se a convergência, pois temos de ser capazes de “fazer convergir diferentes saberes, conhecimentos e culturas [e de] reafirmar que a escola deve ser, acima de tudo, um lugar de estudo”.
  3. Vem depois a colaboração, já que temos de pensar a  docência “como  profissão colaborativa”: “Não se trata de impor a colaboração ou de obrigar alguém a colaborar”. Todavia, “trata-se de organizar o trabalho pedagógico de modo que colaborar deixe de ser um gesto excepcional e passe a ser uma necessidade profissional”.
  4. Temos, seguidamente, a convivialidade, significando que a escola, sobretudo a pública, “é o lugar onde todas as crianças se encontram, independentemente de suas origens, crenças ou culturas”. Assim, “não aprendemos apenas com aqueles que são iguais a nós. Aprendemos  com quem é diferente, porque é a diferença que amplia o nosso horizonte”.
  5. E, finalmente, a cidadania, uma vez que “a escola não se encerra dentro de seus muros”, porque ela é uma instituição pública, da cidade, da sociedade e um espaço que produz o comum, tanto no seu quotidiano quanto na vida pública.
(Créditos fotográficos: Ronald Felton – Unsplash)

Outro momento importante desta entrevista é quando ASN fala da formação de professores, tema tão urgente entre nós, neste tempo em que cada vez eles faltam mais. Segundo António Sampaio da Nóvoa, “ninguém aprende a ser professor apenas assistindo a aulas, presenciais ou à distância”. Ou seja, “aprende-se vivendo a profissão, reflectindo sobre ela e participando de uma comunidade profissional”. ASN advoga que as universidades e as escolas, sozinhas, não têm sido capazes de formar professores suficientes, pelo que é necessário construir uma outra realidade inteiramente comprometida com esta formação.

Devia ser claro para todos que “a formação de professores é uma formação profissional”. Além de conhecimentos académicos, científicos e pedagógicos“, ela exige uma verdadeira vivência da profissão e a construção do conhecimento profissional docente”. Dever ser também claro que a formação precisa de ocorrer num ambiente profissional, no qual os futuros professores convivam entre si e com colegas mais experientes, construindo progressivamente a sua identidade profissional.

(Créditos fotográficos:  Fa Barboza – Unsplash)

Em terceiro lugar, “a formação exige uma parceria entre universidades e escolas, em condições de igualdade”. Por conseguinte, os “professores da educação básica não podem ser vistos apenas como supervisores de estágio”. “Devem participar, com igual dignidade, da concepção e do desenvolvimento dos cursos de formação”, sublinha António Sampaio da Nóvoa.

É preciso ainda que as escolas participantes “sejam reconhecidas como escolas formadoras, dispondo de condições materiais, autonomia e flexibilidade para exercer essa missão”. Da mesma forma, “os seus professores devem ter as condições necessárias para a[c]tuar plenamente como professores formadores”.

E, por último, teremos de entender que a formação docente “deve colocar no centro o conhecimento profissional dos professores e estar intimamente ligada aos processos de mudança educacional”. Para ASN, tudo isso “exige pesquisa sobre a profissão, com os professores e pesquisa realizada pelos próprios professores, em escolas abertas à inovação, ao ensaio e à experimentação”. O verdadeiro desafio, remata, “é construir espaços comuns de formação, nos quais universidade, escola e profissão docente assumam, conjuntamente, a responsabilidade pela formação das novas gerações de professores”.

(Créditos fotográficos: Sebastien Bonneval – Unsplash)

António Sampaio da Nóvoa tem razão quando afirma que “a prática pela prática apenas nos ensina a repetir aquilo que já fazemos. Para este pedagogo, “o que verdadeiramente forma um professor é a reflexão compartilhada sobre a prática, alimentada pelo estudo, pela pesquisa e pelo diálogo entre profissionais”.

Resta-me dizer que concordo com António Sampaio da Nóvoa quando declara, no âmbito da referida entrevista, que o pior do debate educacional são sempre as falsas dicotomias: teoria ou prática, instrução ou educação, autoridade ou liberdade, conteúdos ou métodos, esforço ou prazer. Elas pouco nos ajudam a pensar. Tal como ASN, também concordamos com João Guimarães Rosa: “O pensamento nasce sempre na terceira margem do rio.”

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17/08/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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