Ser “influencer”
(ambidigital.ai)
Antes de ser um estilo de vida vendido em vídeos filmados em Vale do Lobo, “influencer” já era o nome oficial de um processo-crime português – e a palavra nunca esteve tão bem escolhida.

Nas novelas turcas que hoje se veem em mais de 150 países, o Bósforo aparece sempre à mesma hora dourada, filmado do terraço de uma cobertura que nenhum dos protagonistas parece precisar de pagar. As famílias são donas de empresas que ninguém vê a trabalhar, os amores são absolutos e a riqueza não tem origem – está lá, como o mar, como parte da paisagem.
Quem vê sabe, racionalmente, que é ficção. Mas, ao fim de centenas de episódios, o efeito deixa de ser o de uma mentira que se desmonta e passa a ser o de uma imagem que se instala – um outro nível de vida possível, ao qual algumas pessoas têm acesso e outras não, por sorte, por talento, por qualquer coisa que se pareça com mérito. Não é um véu imposto de propósito. É um véu que substitui, devagar, a realidade por outra coisa mais bonita de se olhar.

Portugal não precisa de importar esse véu de Istambul. Tem o seu próprio, construído em português, a poucos quilómetros de Faro. Chama-se, sem ironia nenhuma da parte de quem o vende, “Triângulo Dourado”: Quinta do Lago, Vale do Lobo e Vilamoura. Três “resorts” que a própria indústria imobiliária descreve como “o pináculo do estilo de vida luxuoso”, com campos de golfe de nível mundial, restaurantes com estrela Michelin e moradias anunciadas como “o local perfeito para viver”. Nenhuma dessas frases é falsa, tecnicamente. O que fica de fora é tudo o resto: quem constrói essas casas, quem as limpa, quem serve essas mesas – e a que preço, literal, essas pessoas vivem a poucos minutos dali.

Esse “resto” tem números. Segundo a remuneração média declarada à Segurança Social, em outubro de 2025, o distrito de Faro pagava entre 1050 e 11 50 euros brutos mensais – abaixo da média nacional de 1504 euros, na região que mais riqueza turística atrai no país inteiro. Conforme dados do Centro de Estudos para a Intervenção Social, o Algarve tem um PIB (produto interno bruto) mais elevado do que a média nacional, mas o ganho médio dos seus trabalhadores é mais baixo do que o do resto do continente; mais de dez mil crianças na região vivem em situação de pobreza extrema, o abandono escolar precoce ronda os 20% – quase o dobro da média do país –, e quase um em cada dez agregados familiares gasta uma fatia insustentável do rendimento só com habitação. A taxa de sazonalidade do emprego no turismo algarvio já ultrapassou os 43% – a mais alta do país –, o que significa, traduzido em vidas concretas, milhares de pessoas que trabalham sete meses por ano, sem estabilidade suficiente para arrendar uma casa na mesma região onde arrumam os quartos de quem pode pagar mil euros por noite.

Esta distância entre a imagem vendida e a vida de quem sustenta essa imagem tem, aliás, um nome oficial em Portugal – só que não nasceu na moda nem no imobiliário. Nasceu na Justiça. A 7 de novembro de 2023, o Ministério Público ordenou buscas em 42 locais, incluindo o gabinete do primeiro-ministro, para investigar concessões de exploração de lítio no Norte do país, um projeto de central de hidrogénio verde e um centro de dados em Sines. O nome atribuído ao processo foi Operação Influencer. Foram detidos cinco arguidos, entre eles o chefe de gabinete do primeiro-ministro António Costa, Vítor Escária – a quem foram apreendidos, guardados em livros e em caixas no seu próprio gabinete, 75800 euros em notas. Traduzido em salários mínimos de 2026: mais de 82 meses de trabalho ao salário mais baixo que a lei permite, encontrados escondidos como se fossem marcadores de página. António Costa demitiu-se nesse mesmo dia. O Governo caiu. Portugal foi a eleições antecipadas.

âmbito da Web Summit. (Créditos fotográficos:
João Pedro Correia – pt.wikipedia.org)
O crime que está no centro deste processo chama-se, tecnicamente, tráfico de influência – artigo 335.º do Código Penal – e distingue-se da corrupção por uma nuance que vale a pena explicar: não exige prova de que um funcionário público tenha, de facto, decidido algo a troco de vantagem; basta provar que alguém usou, ou fingiu usar, a sua proximidade com o poder para influenciar uma decisão, a troco de dinheiro ou benefício. É, por definição, um crime sobre aparências e acessos – sobre quem parece estar perto o suficiente do poder para o mover, mesmo que nunca se prove exatamente o quê.
Mais de dois anos depois das buscas, em abril de 2026, escutas telefónicas divulgadas pela TVI sugeriram que o próprio António Costa poderá ter faltado à verdade na conferência de imprensa em que anunciou a demissão, ao negar ter falado sobre os negócios do lítio e do hidrogénio com o amigo e consultor Diogo Lacerda Machado. O processo, à data deste artigo, continua sem condenações – nenhum dos arguidos deve ser lido como culpado antes de uma sentença transitada em julgado.

Este tipo de processo também não é invenção portuguesa. Entre 2006 e 2007, a polícia

britânica investigou o chamado escândalo “cash for honours”: doze empresários tinham emprestado cerca de 14 milhões de libras ao Partido Trabalhista, de Tony Blair, através de um vazio legal que não obrigava à declaração pública de empréstimos – só de doações –, e vários desses financiadores acabaram indicados para lugares vitalícios na Câmara dos Lordes.
Tony Blair tornou-se o primeiro primeiro-ministro britânico em funções a ser interrogado pela polícia numa investigação criminal; o seu principal angariador de fundos e uma assessora próxima chegaram a ser detidos. Ao fim de dezasseis meses, em julho de 2007, o Ministério Público concluiu não haver “perspetiva realista de condenação” e encerrou o processo sem uma única acusação formal – mas Blair já tinha saído de Downing Street. A estrutura do crime é quase indistinguível da portuguesa: um regime legal que distingue empréstimo de doação, tal como distingue “influenciar” de “decidir”, deixa espaço de sobra para que a proximidade ao poder se compre sem que ninguém tenha, tecnicamente, cometido nada que se prove em tribunal.

O que a Operação Influencer torna visível, mais do que qualquer resultado judicial ainda pendente, é a mecânica exata que também sustenta o Triângulo Dourado: o valor, nos dois casos, não está no que se produz, mas em quem se conhece e em quem se deixa ver a conhecer. Um “resort” de luxo vende, através de fotografias no pôr do sol, a ideia de que aquele estilo de vida é conquistado; a mesma indústria que vende essas fotografias depende, para o seu financiamento, de circuitos de investimento – muitos deles ligados ao regime de vistos gold já documentado no artigo “O código da rapina” (publicado na edição de 29/07/2026) – em que a origem exata do dinheiro raramente é a pergunta que alguém faz primeiro.
Nos dois casos, a beleza da superfície não é acidental: é a função da superfície. É o que permite que ninguém pergunte, com a mesma urgência com que pergunta o preço de uma casa, de onde veio o dinheiro que a pagou.

Esta lógica – riqueza embrulhada em algo doce, apresentada como natural, enquanto a exploração que a produz fica invisível a quem consome – não é nova em Portugal. Tem quinhentos anos, e o seu primeiro capítulo escreveu-se com açúcar, não com imobiliário. Foi na Madeira, a partir de meados do século XV, que Portugal desenvolveu o modelo que depois exportaria para todo o Atlântico: plantações de cana trabalhadas por mão de obra escravizada, primeiro trazida das Canárias, depois da costa da Guiné. Por volta de 1500, tinham sido construídas no Funchal cerca de 150 fábricas de açúcar – a ilha tornara-se o maior exportador mundial do produto, que chegava às mesas europeias como luxo doce e limpo, sem rasto visível da floresta queimada para alimentar os engenhos nem das pessoas escravizadas que cortavam a cana. As duas capitanias que geriam essa produção chamavam-se Funchal e Machico – o mesmo nome, por acaso histórico e nada mais, da vila onde este trabalho documentou, no âmbito de um próximo artigo sobre violência doméstica, um caso recente de agressão filmada. Esse modelo madeirense – tecnologia, capital e mão de obra forçada, embrulhados num produto que se vende pela doçura – foi depois replicado em São Tomé e Príncipe e, à escala maior, no Brasil.

Mais de quinhentos anos depois, o produto mudou de nome, mas a estrutura sobreviveu quase intacta: um estudo da Universidade de Chicago, encomendado pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos da América (EUA), encontrou 1,5 milhões de crianças a trabalhar na produção mundial de cacau, sobretudo no Gana e na Costa do Marfim – 45% das crianças entre os cinco e os dezassete anos nessas regiões, em trabalho perigoso, uma subida de catorze pontos percentuais numa década, apesar das promessas públicas da indústria do chocolate.

fotográficos: Tobias Kaiser – Unsplash)
Ninguém que desembrulha esse chocolate pensa na criança que cortou o cacau, do mesmo modo que ninguém que fotografa o pôr do sol em Vale do Lobo pensa em quem, a trinta quilómetros dali, sustenta esse pôr do sol com sete meses de trabalho por ano. “Desde 2012 que trabalho sete meses por ano e por isso não tenho uma vida estável”, contou Célia Santos, trabalhadora de hotelaria no Algarve, ao órgão de imprensa AbrilAbril. Sem casa própria, a viver com os pais: “A minha mãe trabalhou 30 anos nestas condições e eu vou pelo mesmo caminho.”
Não sei quantas Célias há, hoje, a limpar quartos no Triângulo Dourado. Sei que a conta, historicamente, nunca foi feita com o mesmo rigor com que se conta o lucro.
O que une estas três histórias – o Triângulo Dourado, a Operação Influencer, o açúcar que virou chocolate – não é conspiração nenhuma, nem sequer, na maior parte dos casos, um plano deliberado de esconder o que quer que seja. É a repetição banal de uma mesma equação: quanto mais bonita a superfície, menos perguntas se fazem sobre o que está por baixo dela. As novelas turcas não escondem que são ficção; ninguém precisa de mentir sobre a origem do dinheiro de um “resort” de luxo para que a maior parte das pessoas simplesmente não pergunte.

O véu não precisa de ser imposto. Basta que seja repetido – numa novela, numa fotografia de golfe ao pôr do sol, num anúncio de chocolate – vezes suficientes para que deixe de parecer um véu e passe a parecer, apenas, a forma como as coisas são.
Portugal já tinha, sem saber, o nome certo para isto. Chamou-lhe Operação Influencer antes de qualquer criador de conteúdo o reivindicar para si. A ironia não é acidental: é a palavra mais precisa que este país já usou para descrever o que significa, de facto, ter influência – não seguidores, não gosto, não mérito. Apenas acesso, bem vendido. Aqui, a engrenagem que não pune nem precisa de crime provado. Precisa apenas de proximidade; e de uma imagem bonita o suficiente para que ninguém pergunte de onde ela veio.
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Fontes:
RTP, Vogue Portugal, Observador e parlamento.pt, mar. 2025 (história do sufrágio feminino, referida noutro artigo desta série); Engel & Völkers, WTFC e Magazine Imobiliário, 2025-2026 (linguagem de marketing do Triângulo Dourado); postal.pt, mai. 2026, e Público, dez. 2023 (salários e índices de pobreza no distrito de Faro/Algarve); Wikipédia PT, Diário de Notícias, ECO, Euronews, Renascença e Público, nov. 2023-abr.2026 (cronologia da Operação Influencer, incluindo os 75800 euros apreendidos a Vítor Escária e as escutas divulgadas pela TVI em abr. 2026); Código Penal português, art. 335. º (tráfico de influência); Channel 4 News, NBC News, The Week e Al Jazeera, 2006-2007 (escândalo “cash for honours” no Reino Unido). SOL/Alberto Vieira, RTP Ensina, “Aprender Madeira” e repositório da Universidade de Lisboa (história do açúcar, da escravatura e das capitanias de Funchal e Machico na Madeira, séculos XV-XVI); AbrilAbril, dez. 2019 (testemunho de Célia Santos, trabalhadora de hotelaria no Algarve). SWI swissinfo. ch, citando estudo da NORC/Universidade de Chicago encomendado pelo Departamento do Trabalho dos EUA, sobre trabalho infantil no cacau no Gana e na Costa do Marfim. Nenhum arguido mencionado neste artigo deve ser lido como facto assente de culpa antes de sentença transitada em julgado.
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Nota do Director:
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27/08/2026