O dia da nau que deu a volta ao Mundo

 O dia da nau que deu a volta ao Mundo

Réplica da nau Victoria, construída em 1992, em visita a Nagóia, no Japão, para a Expo 2005. (pt.wikipedia.org)

Na crónica anterior, falei da palavra “proselitismo” e da sua origem grega prosélytus”, significando “aquele que chegou” ou “estrangeiro”. Inicialmente, era um vocábulo usado para designar quem vinha de outro povo e que acolhia uma nova fé. Esta ideia de “chegada” e de ruptura serve de mote ideal para a data de ontem, 6 de Setembro, um dia que, historicamente, evoca algumas transformações profundas.

Sebastião José e os seus irmãos, o Cardeal Inquisidor e
o Governador do Grão-Pará. (Pintura de Joana do Salitre, na sala
da Concórdia do Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras).
(pt.wikipedia.org)

Se recuarmos até 1771, deparamo-nos com o dia em que a carruagem do Marquês de Pombal foi apedrejada à saída do Paço, num atentado cometido por um homem considerado “doido” e imediatamente preso, precisamente quando o governante ainda continuava no auge do poder absolutista josefino.

É do conhecimento histórico que Sebastião José de Carvalho e Melo, o poderoso ministro e valido de D. José I, enquanto imprescindível para revigorar o enfraquecido Estado, viria, com o tempo, a sobrepor-se ao próprio rei. Não é, pois, novidade dizer que agregou muitos inimigos graças à sua política antijesuítica, bem como ao alegado ódio à alta nobreza (tendo condenado, num processo de 1758-1759, os Távoras à morte, por crime de lesa-majestade) e, também, à legislação proteccionista que deu cobertura a companhias privilegiadas e a monopólios.

Execução dos Távoras, estampa da época (1759-60). (pt.wikipedia.org)

Essas razões seriam suficientes para um crescente descontentamento perante a sua crueldade e acção despótica. Porém, a decadência do Marquês de Pombal começa mais tarde, de forma distinta, com a morte de D. José I e a subida ao poder de D. Maria I (em 1777). Obrigado a deixar a corte, retirou-se para a sua vila (agora cidade), no posterior distrito de Leiria (instituído com a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, no ano de 1835). De facto, o prepotente estadista foi afastado do Paço Real, como recorda o autor e enciclopedista José Correia do Souto.

Porto de Sevilha em 1590, por Alonso Sanchez Coello. (marsemfim.com.br)

Nas anotações sobre efemérides e acontecimentos, encontro outra associação que, a meu ver, tem um importante peso simbólico: em 6 de Setembro de 1522, a nau Victoria, que sobreviveu à expedição iniciada pelo transmontano (diz-se que de Sabrosa) Fernão de Magalhães, chegou a Sanlúcar de Barrameda (na província de Cádis), concluindo a primeira circum-navegação documentada do globo, ao serviço do rei Carlos I de Espanha, futuro imperador Carlos V. Dois dias mais tarde, a 8 de Setembro, já sob o comando de Juan Sebastián Elcano, a única das cinco embarcações que largaram de Sanlúcar de Barrameda em 20 de Setembro de 1519 subiu o rio Guadalquivir e atracou definitivamente no porto de Las Muelas, em Sevilha.

A frota de Fernão de Magalhães. (Ilustração: timetoast.com – marsemfim.com.br)

Assim, 504 anos depois da chegada da nau Victoria, vemos que a data coincide com acontecimentos europeus de grande transformação, como o começo da Primeira Batalha do Marne (de 5 a 12 de Setembro), em 1914, quando os Aliados detêm o avanço alemão sobre Paris. E, embora ainda nos pareça surpreendente, em 1991, a então União Soviética reconhecia a independência dos Estados bálticos da Estónia, da Letónia e da Lituânia.

Mapa das regiões dos Estados Bálticos. (pt.wikivoyage.org)

Essa decisão, tomada pelo Conselho de Estado soviético, presidido por Mikhail Gorbachev, surgiu após o fracasso do golpe de Estado em Moscovo, em Agosto do mesmo ano, tendo-se acelerado o processo que conduziria ao colapso definitivo da própria União Soviética, formalizado em 26 de Dezembro de 1991. Hoje, com o presidente russo Vladimir Putin, há muitas páginas abertas quanto à reconfiguração das fronteiras e das alianças internacionais.

A partida, a descoberta, a passagem, a mudança de mundo e a chegada a um novo horizonte são atributos das mulheres e dos homens que sonham com a liberdade. Talvez por isso, a 6 de Setembro de 1960, por ocasião das comemorações henriquinas, Miguel Torga tenha anotado que não conseguia “celebrar o sedentário homem de Sagres [Infante D. Henrique] sem pôr no mesmo altar o irmão das Sete Partidas [Infante D. Pedro, o grande viajante]”. “Só depois de os emparceirar, dum lado o solitário, do outro o convivente, chego à realidade das naus aparelhadas e ao sonho fraterno que nelas embarcou”, confessa este outro sabrosense, nascido em São Martinho de Anta.

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 6 de Setembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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07/09/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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