Ainda sabemos estar sós? Depois de Arendt, Han também diz que não

 Ainda sabemos estar sós? Depois de Arendt, Han também diz que não

(Créditos fotográficos: Mart Production – pexels.com)

Dados recentes da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária mostram que as contraordenações por uso do telemóvel ao volante duplicaram no primeiro trimestre, face ao mesmo período de 2024. São agora, em média, 84 condutores multados por dia. À primeira vista, é uma mera estatística rodoviária. Mas talvez diga mais sobre nós do que parece: revela a incapacidade de estar apenas num lugar, de fazer apenas uma coisa, de permanecer em silêncio. O telemóvel tornou-se uma prótese do “eu” e do tempo – o prolongamento da nossa ansiedade de presença. Mesmo em contextos que exigem atenção plena, o sujeito contemporâneo cede à compulsão da atividade e ao pavor da solidão.

(x.com/hornsbywatson)

O gesto de olhar o ecrã, mesmo quando o instante pede concentração, é a imagem perfeita de uma época que perdeu o dom da pausa. Vivemos ocupados demais para estarmos presentes. E é precisamente esse excesso de fazer – essa vida “sempre em movimento” – que já inquietava a filósofa judia Hannah Arendt, no século passado.

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Em “A Condição Humana” (de 1958), Arendt descreveu a lenta erosão da vita contemplativa, de dedicação ao pensamento, à reflexão e à escuta interior, diante da ascensão da vita activa – o domínio do fazer, do produzir e do agir. O mundo moderno, diz Hannah Arendt, passou a valorizar apenas aquilo que tem utilidade ou resultado visível, relegando o pensamento para a margem. O triunfo da produtividade sobre o sentido preparava, assim, um homem prisioneiro da própria ação: incapaz de parar, de demorar-se, de experimentar a solidão, de simplesmente pensar.

Mais de meio século depois, o filósofo sul-coreano-alemão Byung-Chul Han retoma essa intuição e mostra o seu desfecho. Se Arendt via a vita activa a sobrepor-se à contemplação, Han descreve uma época em que a própria atividade se tornou ilimitada – a era da hiperatividade e da exaustão. Em “Vita Contemplativa” (obra de 2022), diagnostica uma humanidade dominada pelo imperativo do desempenho e pela vigilância constante da conexão. Já não é apenas a ação que se sobrepõe ao pensamento: é o fluxo incessante de estímulos, de notificações e de tarefas que aniquila a interioridade. Produzimos, reagimos, partilhamos, medimos – mas raramente pensamos. O gesto banal de verificar o telemóvel a cada instante, até durante o ato de conduzir, é o sintoma quotidiano dessa incapacidade de estar, simplesmente, consigo mesmo.

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Longe vai o lembrete arendtiano de que “nunca se está menos só do que quando se está consigo mesmo na solidão”. Han chama-lhe o “défice de alma”: a civilização aboliu o intervalo e transformou-o na mera sucessão de acontecimentos. Tudo o que é lento, silencioso ou demorado tornou-se suspeito. A pausa, a escuta e o recolhimento – condições essenciais da contemplação – foram soterradas pela lógica da conectividade.

(Créditos fotográficos: Joshua Hoehne – Unsplash)

Mais do que há cem anos, pensar é hoje um gesto radical. Num país em que as pessoas passam cerca de dez horas por dia diante de um ecrã, urge reabilitar o silêncio e a solidão – não como fuga, mas como fundamento da existência. Se não o fizermos, talvez daqui a cem anos alguém volte a repetir o aviso de Arendt e o diagnóstico de Han: que, entre o ruído e a pressa, deixámos de saber pensar.

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30/10/2025

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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