Boas entradas… 

 Boas entradas… 

(Créditos fotográficos: Larisa Birta – Unsplash)

Não é fácil encontrar a origem e a data da expressão “Boas entradas”, mas sempre a encontrei singular e diferente daquelas que nós, nas mesmas datas ou nas mesmas ocasiões, utilizamos como manifestação de bom augúrio… 

Na tradição do Espanhol e latino-americana, a expressão mais usada é “¡Feliz y próspero año nuevo!”. Etimologicamente, “próspero”, da raiz “prosper” (de meados do século XIV), “prosperen”: “ter sucesso, prosperar, avançar em qualquer coisa boa”; do Francês Antigo “prosperer” (século XIV) e directamente do Latim “prosperare” (“fazer ter sucesso, tornar feliz”), bem como de “prosperus” (“favorável, afortunado, próspero”). Tudo isto para explicar ou desejar do melhor, do avanço e do progresso…1

Desafortunadamente, o ano de 2026 acordou na manhã de 3 de Janeiro com um ataque à integridade territorial de um país, a Venezuela, pelos Estados Unidos da América (EUA).

No meu último artigo (publicado na edição de 1 de Janeiro de 2026), escrevi que – hoje, como antes – os EUA não são capitalistas, mas imperialistas. Isto é, desafiam as nações latino-americanas e apropriam-se dos seus recursos naturais, submetendo-as a um destino de pobreza e de desigualdade. 

Já aconteceu com grande parte dos países latino-americanos, entre os quais se destacam a Nicarágua, a Colômbia, o Panamá e o Chile, estrategicamente assediado desde o triunfo de Salvador Allende, em Setembro de 1970. 

Operação Justa Causa: soldados do 75.çº Regimento de Rangers preparando-se para tomar La Comandancia no El Chorrillo, bairro da Cidade do Panamá, em Dezembro de 1989. (pt.wikipedia.or)

Lembro ainda a invasão do Panamá. Há 36 anos, os Estados Unidos realizaram uma intervenção militar neste país latino-americano, em 20 de Dezembro de 1989, alegando associação do governo com o narcotráfico. Os EUA eram, então, presididos por George Walker  Bush, quando invadiram o Panamá e capturaram o general Manuel Noriega. 

Manuel Antonio Noriega Moreno
(historica.fandom.com/wiki)

A diferença entre Manuel Noriega e Nicolás Maduro, é que Noriega era um homem próximo dos EUA. Foi treinado e formado pelos norte-americanos, tornando-se, de facto, líder do Panamá em 1983.

Desde a década de 1950, Noriega trabalhava para os órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Foi, durante muitos anos, um dos principais activos da CIA (Central Intelligence Agency), atuando como fonte de informações na região e, principalmente, como intermediário para o mercado ilegal de armas e de equipamentos militares (além de dinheiro vivo) entre o governo dos EUA e as organizações de contra-insurgência (COIN)  e os grupos anticomunistas na América Latina. Participou na Escola das Américas (School of the Americas), instituto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, fundado em 1946. Em 1961, seu objectivo oficial passou a ser o de ensinar a “formação de contra-insurgência anticomunista”. Nesta “bela” instituição foram formados os militares das ditaduras latino-americanas que praticaram torturas, desaparecimentos, raptos políticos e atentados nas repressões dos governos militares da Argentina, do Chile, do Uruguai e outros2.

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Que esperança para a Venezuela? 

Julgo que nenhum latino-americano vai perdoar à galardoada com o Prémio  Nobel da Paz de 2025, Maria Corina Machado, por ter apelado para a invasão do seu país. Isto, em qualquer enquadramento nacional, é uma traição. E Donald Trump, na sua obsoleta cabeça loira, ainda terá pensado: “Não, esta Corina não me serve.” Consequentemente, Corina Machado, sabendo-se desprezada, ofereceu metade do valor do Prémio Nobel da Paz (supostamente, não do prestígio do Nobel) ao presidente norte-americano. Em troca de quê? Suspeitamos da sua eventual presidência. Espero não ver esse próximo episódio! 

Queridos leitores, se alguém ainda me está a ler, aspiro a que nos reste uma lucidez terminal, até ao fim, para vermos ou contemplarmos criticamente este mundo total em decadência.  

(Créditos fotográficos: Rafael Urdaneta Rojas – pixabay.com)

Na Europa (União Europeia), verificamos uma rendição total à política dos EUA. A este respeito, a posição do governo português indigna! O ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, sem opinião própria, declarou que a intervenção dos EUA é uma “intenção democrática”! Ou seja, disse querer contribuir para que se “avance rapidamente” com uma “transição democrática na Venezuela“.

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À procura de um lugar seguro

Com muita pena, gostava de vos falar de teatro, de música ou de cinema, mas os tempos parecem não estar para isso. Parece que o Mundo nunca foi um lugar seguro. Consultando dados na Internet, já são 41 as intervenções dos EUA na América Latina… E mais de 50 conflitos armados no Mundo depois da II Guerra Mundial! 

Que caminho para o futuro? Que esperança para a Venezuela e para os países que Trump e a sua política neo-Monroe pretende aplicar? 

RTP2 estreou “OPERA.NOW” a 5 de Janeiro de 2026. (sapo.pt)

Sintonizem a RTP2, o meu refúgio… Estreou um novo programa belíssimo, “Opera. Now”3, que sintonizará, talvez, com um artigo que penso escrever: “Por que os jovens pensam que a ópera é uma coisa de velhos?”

Desejo-vos um bom ano de 2026, dentro dos possíveis! 

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Notas: 

(facebook.com/jornalexpresso)

1 – “prosper” – etimologia, significado e origem | etymonline.

2 –  Veja histórico de intervenções americanas na América Latina – actualizado com a biografia de Manuel Noriega, na enciclopédia livre Wikipédia.

3 – “Opera. Now” é uma série documental em seis episódios que divulga a ópera contemporânea junto do público geral e não especialista. Como informa a RTP2, Apresentada pelo compositor Vasco Mendonça, “Opera. Now” oferece uma visão única sobre o fascinante e ainda pouco explorado universo da ópera do século XXI.

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08/01/2026 

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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