Burlar o tempo: buscar novos espaços!

 Burlar o tempo: buscar novos espaços!

“A Man” (Kei Ishikawa, 2022). (cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt)

(en.wikipedia.org)

Nasci numa Páscoa. O que significa que tenho sempre ao meu dispor duas datas de aniversário a comemorar: o dia de Páscoa que é móvel, varia a cada ano; entretanto, a cada 19 de abril será quando variam os meus anos. Estes dois tempos enquanto me atualizam também me levam a viajar, pois almejo uma variação de espaços.

Para exercer tal mobilidade nos meus verdes anos, eu tinha o patrocínio e a companhia do pai e da mãe, mas o tempo levou-os para longe de mim. Em razão disso, de algum modo, busco-os, se calhar. Busco em mim retornar àquela felicidade que eu conhecia naqueles tempos quando os tinha junto de mim, enquanto comemorávamos os meus aniversários sempre fora de casa.

Culto “gospel” no Harlem, em Nova Iorque. (viaggi-usa.it)

Podemos sempre variar os espaços, já o tempo não. Esse é vário, ao seu modo. Já fez muito em me conceder dois dias de aniversário, foi generoso comigo neste particular. Dentro dessa mobilidade aniversariante, levei-me às minhas diferentes esquinas, à guisa de festas do Mundo: conheci o “Easter Parade” na Quinta Avenida, em Nova Iorque, e fui de encontro aos chapéus ornamentados de flores num culto “gospel” no Harlem, as cabeças a balançarem movidas pela fé e a alegria da vida restituída pela primavera.

Vista aérea da Cidade do Vaticano e da Praça de São Pedro, à noite. (pt.wikipedia.org)

Fui a uma missa campal pascal na “Piazza di San Petro”, a ter o Papa João Paulo II a celebrar, comigo em Roma, a promessa de vida eterna: a ressurreição de Cristo. Houve um ano em que fui ao encontro do meu pai em Nova Orleães, a associar o rio Mississipi à sua pessoa. O rio, literalmente, significa “pai das águas”, no idioma dos povos originais.

Avenida Aviadores del Chaco, em Assunção, capital do Paraguai. (pt.wikipedia.org)

Num ano outro ano, fui ao encontro da mãe. Fui ao Paraguai, mais exatamente a Assunção, dita ser “la madre de las ciudades” porque a partir dela teriam nascido muitas e muitas cidades. Fosse no dia 19 de abril ou na Páscoa, eu queria sempre ter os pais por perto de mim, ainda que dentro de um tempo outro, já sem a presença deles. 

Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis. (pinheirodabemposta.com)

Quando eu os tive próximos, houve duas coincidências no tempo: a de o dia 19 de abril ser o mesmo dia da Páscoa. Num desses anos, andava eu com o meu pai na terra onde ele nasceu – a localidade de Pinheiro da Bemposta, no concelho de Oliveira de Azeméis, em Portugal –, terá comparecido ao almoço de festa um enxame de primos que eu nunca teria conhecido antes e uma fartura de amêndoas confeitadas. Que doces tempos aqueles!

Distrito-sede do município de Niterói, no Rio de Janeiro. (Créditos fotográficos: Shot by Cerqueira – Unsplash)

Numa outra ocasião vivíamos eu e eles no Rio de Janeiro e optámos por estar a celebrar num outro Rio diferente daquele onde morávamos. No almoço festivo, fomos a Niterói, a fim de ermos a visão do Rio adiante e à frente. O serrilhado das montanhas num azul-acastanhado emoldurado por um mar anil e o dia mais que azul de abril: que beleza terna, envolvente e transcendente. Exatamente, como é a família!

Cidade de Barcelona. (barcelonacard.org)

Numa única vez, esse hábito de fazer uma viagem celebrativa tornou-se um apuro: estava eu na Suíça, a caminho da Turquia e, de súbito, o espaço aéreo fechou-se por conta da evolução poluente espalhafatosa de um vulcão islandês. Nem os aviões nem os comboios poderiam sair. Passei uma tarde e uma quase noite em Genebra, numa praça de onde sairiam autocarros para a Espanha, sem nenhuma garantia de que iria viajar. Eram veículos sem garantias de conforto nem mesmo sequer de registo legal, uma verdadeira aventura. Até que, por fim, disseram o meu nome, fui encaminhado para um deles, foi um grande presente de aniversário: saí às 23 horas para Barcelona. Obviamente, quando cheguei à Catalunha já se tinha passado o dia do aniversário. Da Suíça levou-se chocolate e cansaço.  

Os ovos Fabergé são obras-primas da joalharia produzidas por Peter
Carl Fabergé e pelos seus assistentes, no período de 1885 a 1917, para
os czares da Rússia. O Imperial Coronation é um dos mais famosos e
icónicos de todos os ovos Fabergé. (pt.wikipedia.org)

Neste ano, considerando o dia de Páscoa, não comprei passagem aérea para ir a nenhum lugar, pois o custo associado ao feriado e ao preço do combustível, impactado pela guerra, aproximar-se-ia do valor de um ovo Fabergé antigo num leilão da Sotheby’s.

Réplica da Caravela Anunciação, de Pedro Álvares Cabral, no Parque
Portugal, em Campinas, São Paulo. (pt.wikipedia.org)

Coube-me optar por viajar no dia 19 de abril, na intenção de cumprir dois tempos: um seria movido por passadismo, pôr-me a encontrar o pai no Parque Portugal, em Campinas. Neste lugar, há uma réplica da nau Anunciação que levou Pedro Álvares Cabral para o Brasil, ancorada no lago. Enfim, ir de encontro de peito largo à uma “réplica” do pai.

Para ir de encontro da mãe convém buscar um restaurante de comida mineira que prometa aroma e sabor caseiro. Réplica de mãe que, dificilmente, terá como resultante o terno tempero de mãe, outrossim…

Pintura “La réproduction interdite” / “Not to be Reproduced”, da
autoria de René Magritte, em 1937.
(cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt)

E ainda, numa perspetiva não associada ao passadismo, experimentar a sensação daquele homem retratado por René Magritte, aquele que olha para o espelho e se vê de costas para o passado, sempre a prosseguir para mais adiante. Entrar num elevador e, ao olhar para o espelho, conferir: é facto! É para frente que se anda! Essa é a mensagem que nos chega em cada aniversário.

Experimentar – naquela sensação de hiato ascendente e descendente que afere o equipamento não o peso, mas a leveza dos anos – não a perda temporal, sim o ganho de outros dias, meses, quiçá anos. E estar apto na meta de chegada ou de partida, inevitavelmente, a ser cumprida no nosso relógio ou calendário pessoal. A crónica de hoje não se resume, portanto, a um só lugar. Ela contém a transitoriedade de um tempo específico: tempo de quem tem, em cada ano, dois aniversários e que muito aprecia burlar o tempo, ao trocar espaços.

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09/04/2026     

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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