Chegar a casa

 Chegar a casa

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Chamam-lhes nómadas digitais, como se esse rótulo lhes conferisse a antiga aura de liberdade, aquela dos pastores que seguiam o ritmo das estações, dos viajantes que atravessavam desertos ao encontro de um oásis, dos povos que carregavam as suas vidas inteiras em tendas de pano levadas no dorso de pachorrentos animais.

A palavra “nómada” evoca horizontes infinitos, o vento no rosto, o território sempre aberto a perder de vista. E por isso nos seduz. Evoca, também, saberes ancestrais: que a terra é vasta, mas acolhedora; que há sempre um lugar onde se pode pousar, nem que seja apenas por uma breve noite; que a nossa casa é em qualquer lugar, desde que seja debaixo do Sol ou das estrelas, ou da água das chuvas.

Mas os nómadas de hoje não seguem o Sol, nem as estrelas nem, muito menos, as chuvas. Seguem o sinal tantas vezes instável de uma rede informática, uma ligação invisível que sustenta um modo de vida e que, paradoxalmente, também os prende. Onde antes havia bússolas, corpos celestes e rastros de animais, há agora cabos submarinos, antenas ou satélites que, estando no céu, nunca poderão assemelhar-se a estrelas. A rota dos nómadas contemporâneos não é a da Natureza, mas a da conectividade. A tenda já não se arma no chão: paira, etérea, em nuvens virtuais, intocáveis, intangíveis, suspensas sobre um vazio que nenhum olhar humano consegue alcançar.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Dizem-se eles, os nómadas de hoje, livres porque não têm patrões de fato e gravata, nem escritórios de vidro e betão, nem horários fixos. A sua prisão é, no entanto, muito mais subtil. A queda de um sinal, a falha de um servidor, a ausência de energia, fazem com que o mundo em que se movimentam se desmorone, esmagando-os, manietando-os. A liberdade que proclamam não é o sopro aberto do deserto nem ,o dos vales e montanhas, mas a fragilidade de quem vive pendurado num sinal elétrico, em páginas web que podem desaparecer de um momento para o outro, em plataformas que os acolhem hoje, mas que, amanhã, poderão fechar-se para eles, sem apelo. A aparente liberdade das suas existências esconde uma dependência total: as suas vidas estão pendentes de um qualquer equipamento que, em frente dos seus olhos, se interpõe entre eles e o mundo que os rodeia.

Por vezes, parecem eternos viajantes, exibindo fotografias de locais exóticos, de praias ensolaradas, de cidades distantes. Mas, em cada imagem, há repetição e cansaço. A praia é apenas pano de fundo para o telefone móvel, a montanha não é contemplada, mas fotografada, a cidade é reduzida a um cenário que se esgota tão depressa quanto se partilha. Viajam muito, sim, mas raramente chegam a um destino. O mundo, para eles, é vitrina, não o chão onde se finca o pé.

E, no entanto, talvez não sejam apenas os autodenominados e idolatrados nómadas digitais a viver este paradoxo. Todos nós, de algum modo, nos tornámos nómadas, mesmo sem levantar ferro. O mundo físico já não nos basta. Percorremos, incessantemente, espaços digitais que não têm chão nem fronteiras visíveis. Atravessamos oceanos de informação sem sair do sofá em que, preguiçosamente, nos deixamos cair. Erramos de janela em janela, como viajantes que nunca descansam, procurando lugares que não existem. O nomadismo, que outrora era exceção, tornou-se condição generalizada, um modo de ser que não precisa de malas nem meios de transporte, mas apenas de ligações virtuais. Estamos em casa, mas não vivemos nela.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Mas o que é “casa”, afinal? Será o bairro onde crescemos ou que habitamos, o cheiro do pão quente ao amanhecer, a sombra do arvoredo de um soalheiro parque que guarda as nossas memórias? Ou será apenas um perfil, um conjunto de pastas arquivadas num servidor distante, um endereço eletrónico que nos dá a ilusão de existência no ciberespaço? Andamos tão perdidos nesse ciberespaço que talvez já não saibamos regressar. Talvez já não exista volta, apenas a deriva constante. A casa que transportamos connosco é invisível, intangível, feita de códigos de acesso, de efémeras páginas que não passam de zeros e uns que, por breves instantes, povoam a memória volátil de um qualquer servidor. E, no entanto, essa “casa” não nos protege da intempérie, não nos oferece calor, não nos sustém quando o corpo desfalece.

Há quem acredite que a mobilidade incessante é sinal de emancipação. Mas não será antes um sintoma de desenraizamento? Quando nada nos prende, também nada nos acolhe. Quando tudo é transitório, tudo se torna descartável. E até as memórias se confundem com um fluxo contínuo de imagens que deslizam sem cessar, sobre as quais não conseguimos nem queremos deter o olhar. A velocidade, que parecia libertadora, transforma-se em vertigem; e o movimento, que parecia promessa, converte-se em eterno aborrecimento. O mundo inteiro parece estar ao alcance da mão, mas a mão não toca verdadeiramente em nada.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

A ironia é cruel: os nómadas ancestrais carregavam consigo a pertença, porque a sua tenda, ainda que montada e desmontada vezes sem conta, era sempre um lar. Os nómadas de agora, os digitais, carregam, pelo contrário, apenas a ausência de pertença. O hotel de hoje é substituído pelo quarto de amanhã, a cafetaria desta semana por um qualquer espaço na próxima. Tudo é efémero, tudo é transitório, tudo é impessoal. Não há chão que os reconheça, nem paredes que os escutem, nem humanos que os recordem.

E se a verdadeira errância não fosse a dos que mudam de país com um computador às costas e um telefone móvel nas mãos, mas a dos que, permanecendo imóveis, já não têm raízes? O exílio talvez se esconda em cada notificação que nos arranca do presente, em cada ilusão de pertença a um espaço que nunca é nosso. Somos peregrinos num mundo virtual que não nos conhece, que não guarda os nossos passos, que não se lembra de nós.

Os nómadas digitais são apenas o reflexo mais visível de um destino que se tornou comum: o de uma sociedade onde a dependência se confunde com a liberdade, e onde cada um carrega dentro de si o exílio, disfarçado de ligação à rede. No fundo, talvez todos sejamos já nómadas, mas não os da terra e do vento, não os das rotas ancestrais guiadas pelas estrelas. Somos nómadas de um território irreal, onde não há porto de abrigo nem horizonte verdadeiro. Erramos de ligação em ligação, como se navegássemos num mar infinito, mas sem nunca encontrar terra onde possamos simplesmente desembarcar e dizer: “Cheguei a casa.”

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01/09/2025

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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