Copacabana: um lugar que se pode esquecer para lembrar

 Copacabana: um lugar que se pode esquecer para lembrar

Copacabana, na Bolívia. (Créditos fotográficos: Falco Negenman – Unsplash)

Copacabana, na Bolívia.
(Créditos fotográficos: Falco Negenman – Unsplash)

Bem o sei, estão a julgar que estarei a escrever sobre aquele bairro carioca tão bacana e de vida mundana. O seu nome compreende, deveras, uma grande fama. Porém, a sua origem e propósito são desconhecidos. Em razão disso, a Copacabana original reclama: “Copacabana é um lugar de muita devoção, boliviana.”

Houve um dia em que a Virgem apareceu a um índio que seria sobrinho de um imperador inca e ele quis esculpi-la com esplendor e magnificência. Tentou muitas vezes até que conseguiu. A imagem nunca desaparecera da sua mente e devoção. Luminosa, ganhou uma pele amorenada para compor um paralelo com a Pachamama, a “mãe-terra” que era adorada pelos Incas, e tem longos cabelos, muitos adereços, joias e, mais ainda, as cores nacionais. Foi transferida para uma basílica, a ser a padroeira da nação.

Copacabana, na Bolívia. (Créditos fotográficos: Andrea Huls Pareja –  Unsplash)

Parti da tumultuada La Paz para experimentar a paz do santuário, para conhecer a Virgem e a cidade de Copacabana. São três horas de viagem. Abandona-se o autocarro um pouco mais à frente: chegou a hora de atravessar, de barco, o Estreito de Tiquina, que separa Copacabana do restante território boliviano.

É uma viagem que dura uns quinze minutos. À chegada, no outro lado, lá está novamente o autocarro. Viajara num barco maior. Retomada a viagem, não muito demorada, vê-se Copacabana. Grande é o lago, a cidade é pequena.

Grande é o lago, a cidade é pequena. Copacabana, na Bolívia. (Créditos fototográficos: Andrea Huls Pareja –  Unsplash)
(Créditos fotográficos: Ángel Monteza – Unsdplash)

Iniciaria a empreitada a pé a partir da Plaza 2 de Febrero, onde fica a igreja. Na praça, estive, durante algum tempo, sentado a contemplar o edifício branco com um traçado renascentista fincado naquelas terras indígenas. Estava cercado de pessoas que levam no rosto traços indígenas, algumas poucas estavam a vender alimentos e artesanias. Levava comigo um livro. No momento, nem me lembro qual seria. Entrei na basílica e constatei que a Virgem que ali se encontrava é a Nossa Senhora da Candelária. Teria inspirado a igreja carioca que também leva este nome? Certo é que a Virgem de Copacabana1 – levada da Bolívia por um português para a antiga praia Sacopenapã, onde se ergueria o Forte de Copacabana, nos tempos do Império2, era, de facto, uma réplica da Virgem da Candelária. A igrejinha não existiu por muito tempo, foi demolida para a construção do forte. Já a imagem migrou para uma igreja e a sua fama devocional passou a obsequiar o nome do bairro carioca. Entretanto, falemos da outra Copacabana, aquela boliviana.

Logo à saída da basílica, entusiasmado em vir a conhecer o mercado de rua que, mais à frente, se apresenta, tive de esperar que passasse um séquito de automóveis fantasiados com gravatas, chapéus, tiras… Isso acontece todos os dias: os carros são levados para serem benzidos. A atmosfera é festiva, rebentam garrafas de champanhe, lançam foguetes e tiram a fotografia de família com o padre, em frente ao carro benzido.

A Horca del Inca, cujo nome original é Pachataka ou Pachat’aqa, é um
importante observatório astronómico e sítio arqueológico pré-incaico
localizado em Copacabana, na Bolívia, perto do Lago Titicaca.
(facebook.com/miguelangheloxelmundo)

Os automóveis são mesmo úteis porque é complicado estar a subir a pé quatro mil metros de altitude. Assim mesmo, duas das grandes atrações da cidade são o Cerro El Calvario e a Horca del Inca. No primeiro, a visão que se tem lá de cima justifica o nome indígena “Copacabana”, que significa “visão luminosa do lago”. Na outra, há blocos de pedra com que se media o tempo, ou seja, o movimento lunar, as estações do ano.

Porém, a maioria dos visitantes busca seguir de barco para a Isla del Sol e a Isla de la Luna. A primeira dista 20 quilómetros da cidade, a outra fica a oito quilómetros daquela. São sítios históricos, sagrados para os Incas. Ainda há por lá comunidades autênticas, lamas (ou lhamas) e espaços contemplativos em estado natural.

Lago Titicaca, na Bolívia. (Créditos fotográficos: Sergio Arze – Unsplash)

A Bolívia perdeu o mar para o Chile, mas mantém uma marinha expressiva. O lago Titicaca é o seu mar. Um mar que se aproxima de quatro mil metros acima do nível do mar3.

Nessa Copacabana, não há banhistas, as águas são geladas. Contudo, é onde se come a melhor truta do Mundo e a sua maior avenida termina numa grande âncora. Foi nesse ponto que me dei conta de que havia esquecido o meu livro na praça. Era perto, voltei ainda, na incerteza de vir a encontrá-lo. Entretanto, lá estava ele no mesmo lugar em que o deixara.

Copacabana e o Lago Titicaca vistos de Pachat’aqa. (en.wikipedia.org)

A vendedora de fruta e de folhas de coca (usadas para conter o soroche4, o mal das alturas) apontou para presença integra do livro mantida no banco, quis agradecer-lhe, ela sorriu e confidenciou: “Nunca se esqueça de que Copacabana é um lugar em que se pode esquecer algo. Ninguém pega naquilo que não lhe pertence. Até porque queremos nunca ser esquecidos.”

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Notas da Redacção:

1 – A observação de que a Virgem de Copacabana era uma réplica da Virgem da Candelária sugere uma continuidade das devoções marianas trazidas pelos Portugueses e pelos Espanhóis para a América.

2 – O leitor questionará: “Qual será o Império?» A resposta, remete-nos para a tradição portuguesa do Quinto Império, que não seria um império territorial como os anteriores, mas antes um império espiritual, cultural ou civilizacional, em que Portugal teria uma missão universal.

3 – O lago Titicaca, situado na fronteira entre o Peru e a Bolívia, na Cordilheira dos Andes, é um dos maiores lagos da América do Sul e a área (ou bacia) de água navegável mais alta do Mundo, com a elevação de 3812 metros. 

4 – O soroche ou mal de altitude é o conjunto de reacções do organismo à falta de oxigénio e à menor pressão atmosférica em locais de grande elevação (geralmente, acima de 2400 metros). Os sintomas incluem dor de cabeça, tonturas, náuseas, fadiga e insónia, podendo surgir ao viajar para destinos como os Andes, no Peru ou na Bolívia.

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25/06/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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