Da saga “Tudo o que não prometi”

 Da saga “Tudo o que não prometi”

(avozdaindustria.com.br)

Retrato de John Locke pintado por Godfrey Kneller, 1704
(ano da morte de Locke). (Imagem: Coleção de Arte do
Governo do Reino Unido – jacobin.com.br)

John Locke, um dos pilares do liberalismo político, concebeu o contrato social como uma construção simultaneamente frágil e decisiva. Para o pensador inglês do século XVII, a autoridade política nasce de um pacto racional entre quem governa e quem é governado, ancorado no consentimento, na confiança e na contenção do poder. Este pacto materializa-se através da representação: os cidadãos delegam, os eleitos exercem o poder. Mas exercem-no dentro dos limites da autorização conferida – inscritos, de forma explícita, no compromisso eleitoral.

Importa sublinhar que, na perspetiva lockiana, o povo configura uma comunidade política una, igualmente vinculada às decisões do poder que, enquanto todo, instituiu. Não se trata da mera agregação contingente de maiorias e de minorias, mas de um corpo cívico partilhado. O sine qua non deste princípio é o respeito pelos termos do contrato eleitoral, através do qual podemos aferir a robustez de uma democracia representativa. E é precisamente este critério que o presente artigo convoca para analisar a reforma laboral em negociações.

“Réunion de 35 têtes d’expression”, de Louis Leopold Boilly,
imagem usada na capa do livro “Tempos Difíceis”, de Charles
Dickens. (blogdaboitempo.com.br)

Antes, porém, um comentário breve.O modo como um processo reformista se inaugura é sempre elucidativo da sua orientação normativa. Uma das medidas inicialmente propostas – entretanto retirada, mas politicamente reveladora – previa impedir que pais de crianças até aos 12 anos recusassem trabalho noturno ou aos fins de semana. Principiar uma reforma laboral por aqui não só gera crispação e mobiliza negativamente aqueles que por ela serão afetados, como contraria um princípio elementar da negociação social: não oferece qualquer contrapartida. Se o contexto em que vivemos é marcado por uma relação estruturalmente desigual entre capital e trabalho, propostas deste tipo apenas contribuem para as acentuar. Com ou sem reforma, a simples ponderação destas soluções projeta uma imagem inquietante de governo.

Alinhemo-nos agora com a promessa analítica deste artigo. Até porque, mais grave do que qualquer proposta concreta, é o facto de nenhuma delas constar – nem de forma explícita, nem sequer de modo residual – do programa eleitoral. É aqui que a rutura do contrato se torna inequívoca e incontornável.

(facebook.com/SPZN1974)

Pouco tempo após as eleições, sem qualquer alteração conjuntural ou circunstancial que justificasse uma mudança desta magnitude, o governo apresentou – não negociou; apresentou – um pacote com implicações profundas e em clara divergência face ao que prometera. Em termos lockianos, trata-se de uma violação direta do mandato conferido.

Vejamos as duas razões que o justificam:

  1. O programa eleitoral da Aliança Democrática  (AD) compromete-se a “continuar a convergência dos direitos à proteção social dos trabalhadores independentes”. Ora, o pacote laboral propõe elevar de 50% para 80% o limiar de dependência económica exigido para o reconhecimento desta condição – dificultando o acesso a direitos e aliviando, em paralelo, as responsabilidades contributivas das empresas. Em vez de convergência e proteção, há afastamento e retração.
  2. O programa eleitoral da AD manifesta a intenção de “alargar e reforçar o regime de segurança e saúde no trabalho, da parentalidade e da conciliação trabalho-família”. Tomando como referência este compromisso, o espírito inicial de redução de direitos parentais surge como uma caricatura. Indo por diante, sem qualquer mecanismo compensatório, a vida familiar e a convivência parental ficariam subordinadas à privação e à angústia.

A abordagem à reforma laboral no programa eleitoral esgota-se nestes dois momentos. Não se encontra, de resto, uma única das medidas agora em consideração. E como se não bastasse o contrato social estar rasgado, num ciclo de reações desesperadas à greve geral do dia 11 de dezembro, o primeiro-ministro balbuciou números grandiloquentes – salário mínimo de 1600 euros e salário médio de 3000 euros, até 2029. Fê-lo atabalhoadamente, improvisando valores que cresciam de intervenção em intervenção. A velha máxima cesariana aplica-se aqui: não basta ser sério, é preciso parecê-lo. De outra forma, a credibilidade política lockiana sangra até ao esvaimento.

Quando os governos fazem sistematicamente o oposto daquilo que prometeram, desgastam a confiança dos cidadãos e corroem a democracia. O contrato social rompe-se devagar, quase sem ruído. A consequência só chega depois, por acumulação, mas abocanha-nos a todos. Como? As sondagens presidenciais dão uma pista.

Declaro, por honestidade intelectual, que nunca votei no Partido Social Democrata (PSD/AD). Nunca nutri particular simpatia política por este campo, nem particular apreço pelas personagens que o representam. Ainda assim, devo dizer que li o programa eleitoral e que li as medidas agora propostas – e que é do contraste entre um e outro que nasce a necessidade de escrever estas linhas. Considero a greve de 11 de dezembro plenamente justificada e legítima. Não a apoiaria, contudo, se este conjunto de reformas tivesse constado do programa eleitoral ou se tivesse sido clara e exaustivamente apresentado e discutido antes das eleições. Nesse cenário, caberia ao povo português assumir, em pleno, as consequências da sua escolha.

Mas não foi isso o que aconteceu.

.

………………………….

.

Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

.

18/12/2025

Siga-nos:
fb-share-icon

Lourenço Ferreira

https://linktr.ee/glourencosferreira

Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

Outros artigos

Share
Instagram