Fazer perguntas

 Fazer perguntas

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Talvez a melhor forma de começar este breve texto seja ir direto ao cerne da questão, sem preâmbulos nem rodeios, sem desculpas para contornar este tema que é, evidentemente difícil e complexo: o que é, afinal, um bom professor1? Deixemos de lado o muito bom e o ótimo, pois, como diz o povo, são inimigos do bom. Neste caso, não no sentido de serem prejudiciais, mas no sentido de tornarem ainda mais complexa a resposta à questão em apreço e nos perdermos no caminho para a encontrar.

Voltando ao tema, confesso que não tenho uma definição simples e precisa. Antigamente, quase desde o aparecimento das primeiras escolas, um bom professor era alguém que transmitia muitos conhecimentos. Para os transmitir tinha, naturalmente, de os saber, de ter sabedoria, de ser um sábio. A ênfase estava na transmissão, sendo o professor o transmissor e os alunos simples recetores. É claro que este papel foi evoluindo e, hoje, um professor que é um mero transmissor de informação é, evidentemente, um professor que deixa muito a desejar.

Todos nós tivemos bons e maus professores. Dos bons professores retivemos uma coisa: esses eram os que nos estimulavam, os que nos faziam querer saber mais e ir mais além. É claro que o conhecimento era uma peça importante, mas era-o na medida em que nos abria portas para ir mais longe e, eventualmente, chegarmos a ser melhores do que eles. E aqui está, talvez, uma possível resposta, de entre muitas, à questão inicial: um bom professor é aquele que dá aos seus alunos as ferramentas para serem melhores.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

E com isto podemos, facilmente, perceber de uma maneira mais clara o impacto que as tecnologias têm no ensino. Desde há algumas décadas que quer docentes quer alunos têm acesso a enormíssimos volumes de dados, de informação e de conhecimento. Para além disso, com as ferramentas de inteligência artificial (IA), passámos a dispor de conhecimento já digerido, pronto a consumir por quem dele precisa, quase como uma “fast food” de informação. Porém, apesar disto, quer o acesso a toda essa informação quer a sua disponibilização através de ferramentas de IA cumprem, meramente, o papel de transmissores – talvez fosse melhor dizer, difusores – de informação, sem que isso signifique compreensão ou entendimento; ou seja, o papel de maus professores, que se limitam a “despejar matéria”.

Se quiséssemos que os nossos jovens fossem uns simples recetores de informação, talvez isso fosse sofrível, se tivéssemos a garantia de que, ao menos, essa informação tinha sido compreendida e assimilada, e não algo simplesmente ouvido ou copiado e colado para preencher o espaço de um qualquer relatório ou documento nunca lido pelos supostos “autores”. Mas é evidente que essa garantia não existe.

Aliás, se aceitássemos essa mediocridade, estaríamos a dar o primeiro passo para que os alunos se tornassem piores que os professores, e iniciaríamos uma espiral que só terminaria com o colapso do sistema educativo e, portanto, da sociedade. É esta a razão pela qual necessitamos, cada vez mais, de bons professores.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

É claro que as ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT ou outras similares, podem e devem ser exploradas pelos professores em todos os graus de ensino. No entanto, o risco de uso passivo, em que o aluno se limita a copiar respostas, exige um acompanhamento ativo por parte dos docentes.

É por isso que deve existir sempre um foco nos processos e não apenas nos resultados, querendo isto dizer que os professores devem incentivar os alunos a mostrar e a explicar as suas linhas de raciocínio. Em vez de se pedirem apenas respostas, soluções ou documentos finais, devem valorizar-se esboços, versões intermédias, análises críticas e comentários reflexivos sobre o que está em causa e o que foi alcançado. É fundamental que o professor leve os alunos a criticarem, a corrigirem e a reformularem a informação que recolheram. Desta forma, a ênfase passa a estar na análise, na validação e no refinamento, e não na simples cópia ou compilação de informação produzida automaticamente. Todavia, para que estas ferramentas sejam usadas criticamente, é fundamental que os próprios professores compreendam como elas funcionam, as suas limitações, enviesamentos e potenciais usos pedagógicos. Ou seja, é necessária formação neste domínio. O mesmo se aplica, naturalmente, aos alunos, pois é fundamental que estes aprendam a tirar o melhor partido possível destas ferramentas, usando-as para desenvolverem as suas capacidades e não para as limitarem, incentivando a interação, a criatividade, o espírito crítico, a capacidade de análise e a curiosidade.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

A inteligência artificial já não pode ser encarada como um agente externo à educação, mas sim como um novo elemento do seu ecossistema. É certo que a sua presença desafia os modelos pedagógicos tradicionais e exige uma atualização profunda das práticas docentes, dos modelos de avaliação e das políticas educativas. Mas, mais do que um risco, a IA representa uma oportunidade para valorizar ainda mais o papel do professor, enquanto promotor do pensamento autónomo e crítico. É que, numa era em que as máquinas também geram respostas, o bom professor é, afinal, aquele que consegue ensinar os alunos a fazer perguntas.

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Nota:

1 – Neste texto, os termos “professor” e “aluno” não têm qualquer conotação de género, sendo utilizados para designar professores ou professoras, e alunos ou alunas, respetivamente.

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02/10/2025

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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