Há pouco que quer dizer muito

 Há pouco que quer dizer muito

(techbit.pt)

Num apontamento de jornal, fui recolher um pormenor que significa um pormaior. Por acaso, é uma breve nota no âmbito de um jogo de futebol. Mas podia ser de outra coisa qualquer. Por ela se vê bem o que é o pensamento geral. A coisa é, simplesmente, sobre a classificação positiva de Samu no jogo Celoricense-Futebol Clube do Porto, em que marcou três golos. Nada de mais justo.

(instagram.com/jornal.azull)

Depois, sobre o jogador Denis Gul, que jogou antes de ser substituído por Samu, atribui-lhe uma classificação negativa por não ter marcado nenhum golo. Continua a parecer-me adequado. O resto vem posteriormente, quando considera agravante da classificação negativa deste último, o facto de, além de ter desperdiçado uma oportunidade de golo (e refere ser a única que teve), em comparação com o primeiro ficar ainda mais negativo! Valha-me Deus! Então o que é positivo torna mais negativo o que outro fez ou não fez suficientemente bem? Porquê? Porque estamos numa sociedade de competição desenfreada? Porque, assim, se estimula a inveja? Porque tudo o que de bom alguém faz implica o rebaixamento de outro? Mesmo estando os dois, no seu esforço individual, a tentar contribuir para um mesmo objectivo?

(Créditos fotográficos:  Wayne M. – Unsplash)

Que o mérito deva ser exaltado e que, por isso, “passarinhos e pardais não somos todos iguais” é assunto que tem a minha total concordância. Que o treinador decida, em conformidade, escolher Samu na vez de Denis Gul é natural e justo. O que é estúpido é o resto, o demérito de um ser agravado pelo êxito do outro! Ainda se fossem adversários… Mas são da mesma equipa! Ou já não há lugar a equipas (no futebol ou onde seja), mas só competidores encarniçados? Aposto que os dois, felizmente, não pensarão assim ao olharem-se, ainda como competindo para o mesmo lugar. Que raio de mentalidade!

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27/10/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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