Macondo é aqui!
Cartagena, Província de Cartagena, Bolívar, na Colômbia. (Créditos fotográficos: Leandro Loureiro – Unsplash)
A minha expedição colombiana iniciou-se em Cartagena das Índias. Mais precisamente defronte ao relógio da torre, porta de entrada para o passado, porta de saída para hoje. A cidade amuralhada, de algum modo, nos protege, sugere haver uma calmaria de tempos outros. Outrora, o desassossego surgia, tencionava, tão-somente e apenas, quando havia, surgiam piratas no mar. Falo em serenidade neste cenário quando ainda é manhã, posto que, à tarde, chegam os turistas e os vendedores de coisas para os turistas se alvoroçarem. Será quando toda a Cartagena se torna uma fraude inteiramente superfacturada.

Angel –Unsplash)
As pessoas saem dos hotéis da orla e espalham-se no Centro Histórico, tornarão aquilo “full” de turistas. Vendedores de frutas, doces, badulaques e artesanias abordam, insistentes, os visitantes e há ainda as vendedoras de prazeres que circulam por ali, ofertando-se; quando chega a noite, migram para o Getsemani. Parece que toda a cidade quer o seu dinheiro, o seu tesouro, até mesmo as “baianas”, trajadas com uma pitoresca inautenticidade, cobram para saírem nas fotografias. De autêntico mesmo há só aquele relógio que demarca os tempos: não tem fiúza, não trapaceia.
Em seguida, enfrentei quatro horas de estrada num autocarro em direcção a Santa Marta. Ainda não seria o meu alvo, a minha meta estaria mais adiante: a mais ou menos uma hora e meia de viagem. Todavia, para descansar, deixei-me ficar por dois dias em Santa Marta, que, afinal, tem o mérito histórico de ter sido a segunda cidade erguida pelos Espanhóis nas Américas. Foi criada depois de Asunción (a capital e a cidade mais populosa do Paraguai).

A cidade tem muitas casinhas coloniais, singelas e coloridas, nas suas ruas estreitas, e uma Catedral Basílica que já abrigou os restos do libertador Simón Bolívar. Mantiveram a cripta, levaram-no para a Venezuela. O aspecto da cidade é singular: montanha, selva e mar – tudo junto e misturado. Uma permanente brisa desce da Sierra Nevada a acariciar, refrescar a cidade, que induz à ingestão do coco. Ainda que tenha firmado a sua identidade com as suas bananeiras. Tudo é coco: arroz de coco, cocadas, água de coco… Ademais, tudo me pareceu ser bem mais autêntico em comparação a Cartagena, tudo flui naturalmente – até aquelas “baianas” que servem o coco. Ninguém incomoda ninguém.
Entretanto, fui de encontro à minha meta: atravessei a rodovia litoral a avançar sempre aos pés da Sierra Nevada até chegar a Aracataca. Um lugar ínfimo que tem o seu mérito: foi o berço de Gabriel García Márquez, onde ele viveu os seus primeiros anos, ao ser criado pelos avós. A avó era cega, contudo, iluminava a imaginação do pequeno, sempre a contar mitos e lendas; ao seu modo, criava no ouvidor um contador de estórias.

Decidido a ser na vida somente escritor, Gabo foi nômada. Quando vivia na cidade do México, um certo dia cismou de passar uns dias em Acapulco, dirigiu-se para lá num velho Opel de 1962. No meio da estrada, teve um “insight’, uma espécie de iluminação que ia abrindo o livro inteiro que queria escrever. Voltou e enfurnou-se por um ano e meio em casa, junto à sua máquina de escrever, para compor o seu romance “Cem Anos de Solidão”. Um livro universal que demarcou a identidade latino-americana, absolutamente permeado de lembranças das estórias da avó e pelos devaneios infantis, doravante lembranças da sua pequena Aracataca. No livro, a cidade chama-se Macondo.

Enveredou pelo Realismo Mágico, viu beleza na adversidade, poesia onde havia conflito; ao experimentar tal epifania solitária, deixou-nos, paradoxalmente, uma obra-prima para nós, os latino-americanos – nunca nos sentirmos sós. O livro que ele antevira flutuando na sua mente deu início ao “boom” da literatura latino-americana e, também, curou-o, posto que ele se queixava de vivenciar uma aridez improdutiva, ao estar escrevendo para jornais e a não produzir livros. Em Aracataca, conheci a sua casa-museu; ainda há por lá o seu quarto de menino. Conheci “una abuela” que me explicou que macondo é, em verdade, uma árvore alta com um tronco espesso gerado pelo acúmulo de tempo de vida; entretanto, ela excede em rejuvenescimento na sua copa, onde se encontra uma folhagem exuberante e ainda flores amarelas com alguns tons de vermelho. Por conseguinte, é uma árvore pungente de vida, disposta a ressignificar-se. Pois bem, vivas às macondos!

Posto que há sempre um caminho de volta, retornou-se a Bogotá, desta vez para conhecê-la. Agreguei-me a um “tour” no hotel e saímos cedo para a digressão: eu, um casal de idosos canadianos, em verdade lusitanos, e o que vinha a ser o neto deles, um miúdo a somar, talvez, uns sete anos. A primeira parada foi nas minas de sal de Zipaquirá, povoação do Departamento de Cundinamarca. Um cenário que em muito me recordara a minha passagem por Wieliczka, na Polónia. Anda-se por suas galerias de sal de pedra; estas contêm as etapas do sofrimento de Cristo em 14 capelas, a cada estágio uma cruz. Um reduto de fé a 200 metros abaixo do solo, impressionante.

Em seguida, fomos para a Basílica do Senhor de Montserrate, que fica no topo daquele que é o maior morro da cidade, lado a lado com o Morro da Candelária, uma cidade que leva a fé às alturas. Na Basílica, conferiu-se uma imagem barroca, de 1650, do Senhor Caído. Bogotá é pródiga em chuvas; ciente de existir nas alturas, ela convive com nuvens. À saída, chovia e o casal de idosos escorregou, um levara o outro ao chão. Alegavam desnorteamento, dores nos calcanhares ou no corpo; seria preciso irem a um posto médico. Contudo, a quererem poupar o neto do problema, decidiram confiá-lo a mim. A minha lusitanidade e a minha idade geraram confiança. Rogaram que eu mantivesse o miúdo no passeio e que só o entregasse a eles à noite, no hotel, com eles já medicados. Sendo assim, virei avô circunstancialmente, experimentei um impulso de estar a brincar como criança com uma criança.

O “tour” deixou-nos por três horas na Plaza Bolivar; poderíamos ver, fazer o que quiséssemos. A Praça é o cartão-postal de Bogotá, concentra os três poderes e está sempre cheia de gente e de pombos. E tem a Catedral Primada, que primava em estar fechada. O rebuliço é enorme. Há vendedores de tudo: milho, caldo de cana, churros, formigas comestíveis, capas de telemóvel, “pen drives”, imanes de geladeira…
Gente sem pressa e gente apressada, a praça já foi mercado público, espaço de circo, de touradas, lugar de celebrações de posse de poder ou de eventos fúnebres e ainda serve para a democracia dos protestos. O Capitólio é onde se criam as leis; o Colegio Mayor San Bartolomé tem muitos alunos – vinte deles, no passado, foram eleitos presidentes; o Museo de la Independencia foi o cenário da dita cuja; o Palácio da Justiça foi reconstruído duas vezes; o Palácio Liévano, o da Prefeitura guarda memórias de ter sido Penitenciária Feminina e lugar dos cartórios.

Mas, nada disso interessaria o pequeno Zeca (José Carlos), que, ainda impactado com o que ocorrera com os avós, via em mim um avô urgentíssimo, capaz de dar-lhe segurança afectiva e diversão, aferrava-se a mim como a pedir-me isto. Levei-o então ao La Puerta Falsa, o restaurante mais antigo de Bogotá, e ofereci-lhe um “santafereño”, um chocolate quente com queijo derretido por dentro; eu anunciava a diversão. Ele aprovou, ficou contente.

A poucos passos dali, entrámos no Museo Botero. Adverti-o sobre a arte que ele ia ver ali: um mundo de gente volumosa. Divertido. Ele perguntou o que eu fazia para viver. Disse-lhe: “Já fiz muita coisa, hoje sou apenas escritor. Um contador de estórias.” Ele pediu: “Conta uma estória para mim, eu ainda não sei ler bem.” Confidenciei-lhe: “Depois de ver isso aqui, serás tu quem vai virar um contador de estórias doravante.” A cada quadro e escultura, ele expedia risos e perscrutava as estórias que contavam. Riu-se da mão que dá acesso ao museu, da Mona Lisa, do cavalo, da Madre Superiora, do Ladrón. A segurar a minha mão, adverti-o docemente: “Estás a ver como ficam as pessoas que comem apenas ‘burgers’?”

Nada lhe passava despercebido: as orelhas pequenas, a pinta na bunda da mulher nua, o que havia de pequeno em meio ao grande. O miúdo fazia as suas descobertas a partir de si próprio, feliz por ter-me como avô emprestado. Por fim, à chegada no hotel, lá estavam os seus avós de facto e ele correu para contar as suas estórias a partir do que experimentou. Com uma dose de imaginação fecunda e algum lastro pontual. Como o fez Gabriel Garcia Márquez, e faço-o eu.
Os avós agradeceram-me pela dedicação e o desempenho como avô substituto. Estava tudo bem com eles, felizmente e passamos todos a sorver uma sopa típica: a changua, feita de água, leite, ervas finas, ovos, um prato volumoso com um realismo fantástico. Viva a Colômbia!
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05/11/2026