O olhar estético é ideológico
(Créditos fotográficos: Chris Nagahama – Unsplash)
Prólogo
O gosto enquanto leitura do que possa ser objecto de apreciação estética – e tudo pode ser e, de facto, é –, é uma actividade envolvida em todos os aspectos da vida em comum das criaturas. Nada acontece fora de um juízo do tipo estético. Não existe juízo, mesmo político, que não seja atravessado por critérios de gosto – o que tem a ver com o belo, certamente, mas também com tudo o que se possa converter em narrativa, em episódio, em consumo ficcional. Nada vive fora desse tipo de contaminação.

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Por tudo isto e ao contrário do que popularmente se diz, os gostos devem discutir-se. Mais ainda quando o sector da Cultura é actualmente olhado de viés, com desconfiança, e onde as mais recentes declarações governamentais apontam, infelizmente, para uma crescente tendência do peso da decisão do mercado, desvalorizando, assim, a responsabilidade na tomada de decisões políticas sérias e de fundo para o sector. Por tudo isto, insisto, é preciso discutir o gosto e, sobretudo, assumir que ele é ideológico. Como procurarei mostrar de seguida:
1 – O gosto é ideológico, isto é, manifesta uma visão que reflecte – expressa, ou sublima, ou confirma, ou manifesta inconscientemente – um ângulo de existir, uma posição, uma relação ao objecto, à representação, que carrega em si um ambiente social de inserção, uma onda de momento, um ir atrás, dependentes de níveis diversos de integração sistémica (ou de uma exclusão relativa), olhar esse que é desatento, superficial, estatístico e não indagador, diria aquisitivo, em última instância.

Sebastian – Unsplash)
2 – Condicionados pelo valor de troca, quantificamos tudo. Tudo é valor de troca. Tudo tem um preço, mesmo se esse preço é simbólico – os mitos publicitários, a renda da celebridade, a tal “aura”, suportam-no. Essa via, essa atmosfera venal inevitável das respirações, atinge, enquanto olhar subordinado, a idolatria e o fetichismo – o valor além da troca vira intangível, ganha a força do não mensurável e permite aos famosos – os artísticos e os outros e tudo tem ingrediente “para-estético”, as contaminações são gerais – encaixar as suas rendas gerindo a “auto-imagem que administram” como capital-imagem.
3 – Essa religião é alicerçada numa dependência salivar dos terceiros, fãs idólatras, incapazes de estruturar socialmente uma autonomia emancipada e esclarecida do olhar, esmagados que são pelo espectacular artificiado e alucino-efervescente.

(Créditos fotográficos: Jametlene Reskp – Unsplash)
4 – O gosto, por assim dizer, formado e informado – sensível e consciente do labor das formas – no plano complexo da “obra” em jogo, manifesta afeição e razão emocional, supõe um treino do gostar, uma vivência prática continuada das práticas do gosto assente em modos e em capacidades formadas de ler.
5 – Esse objeto-representação merece um tempo de observação e provoca uma sensação de atracção ou de repulsa – outras reacções também: indiferença, por exemplo ou mesmo alheamento radical, divórcio – que se converte numa percepção angular, numa leitura ou ainda na sua ausência, nulidade, grau zero; ou melhor, preconceito – uma leitura que se forma como pseudojuízo.
6 – A exclusão: os que não praticam o gosto por serem excluídos das suas práticas e viverem adestrados pelo entretenimento como um grande rebanho que pasta, popularucho, dominical, porno-rítmico de compasso pum, pum, miserável de imagem e movimento. É o resultado da condição vítima da sua própria pobreza conceptual e dos efeitos homogeneizadores da mercadificação de tudo, americanizada. É toda uma maneira de vi(ver) que alimenta em circularidade de estímulos e de práticas, adestrados quanto ao modo como o desejo é inculcado pela publicidade, pela promoção, pela campanha constante dos preços, pela tristeza semanal da festa televisionada em que possam ser expostos na sua alegrada passividade animal.

7 – O que é de ler nasce com a prática da leitura e cada obra de arte – e, de uma maneira real, tudo o que seja legível nos fenómenos reais – gera os seus instrumentos a partir dos materiais que convoca, dos modos de escrita, das implicações disciplinares, da socialização do seu exercício: a pintura organiza o olhar do apreciador a partir dos signos expostos na tela, o teatro convoca a atenção do espectador em assembleia na sala diante dos corpos que agem, o livro o sujeito solitário, o cinema a massa heterogénea dos que partilham uma sala escura, etc. Todas as manifestações artísticas comportam modos de significar que nelas agem e implicam reacção e acção de quem observa, vê, diagnostica, pensa, sente, age.
8 – O mais são lógicas especulativas, tagarelice intelectual ou retórica e, como tal, o que dizem é sobre – é-lhes exterior – e não a partir do que está dentro e é laborado artisticamente e exibido, manifestado, exposto, vivo – corpos pintados e corpos que agem são duas categorias antinómicas, mas sabemos que a imobilidade age na percepção e que a mobilidade pode ser objecto de suspensão no olhar do observador.

9 – A obra impõe-se, fascina e converte o sujeito em idólatra – frequentemente, é assim e a criatura vira epígono – ou é uma descoberta. Aquilo que surpreende e desperta a curiosidade, sem a qual não se lê, será, muitas vezes, uma incompreensão inicial, dados caóticos que uma ordenação específica empreende, justamente na sua hierarquização-leitura.
10 – Todas as categorias do belo têm o seu poder atractivo, o seu impacto racional e emocional, o corpo nu (a famosa “origem do Mundo”, as ninfas de Botticelli), a paisagem escultórica e urbana de De Chirico, a selva impenetrável e a versão ingénua (de Rousseau) o granito que faz fronteira ao alto como uma lâmina (sertão castelo-vidense), o voo do grifo (no Tejo Internacional), a crina negra de um cavalo selvagem (de Caballos), um colo oitocentista (de Queiroz), um auroque taurus (no Côa), o avesso do direito (o mistério de um subpalco, o detrás de um cenário), o vazio do deserto escaldante (Sahara), a fala poética de uma deficiente a contar o seu amor proibido (na peça “Ella”), o horizonte preenchido de perfis arranhando os céus (o perfil vendido de Maputo, a linha de Évora vista de sul com a sua catedral logo vertida em “turism’olhar”), etc… Os traços do corpo instrumento em Picasso, com o seu cruzamento de linhas sobrepostas geometricamente mapeado, o teu corpo envelhecido numa fotografia a preto e branco, um rosto sereno na antecâmara da morte, Édipo em Colono a deambular pela paisagem, tudo o que no real é gerado surge, emerge como nova “velha vida” e cativa, merece a nossa atenção dinâmico-contemplativa e animada, inter-relacional. Essa força de atracção que nos leva à reacção, à leitura-recriação, à imitação deslocada de eixo, à contemplação, é vida, alimento de vida, transformação, bem como o sentido de esse “estar aí” no cosmo que nos calhou como condição humana e que nos fez capazes de pensamento – por muito que também nos tenha feito torcionários e desumanos.

11 – Digo: eu gosto. Isso que diz? Confirma uma adesão, uma posição granítica, uma distância instável: gosto durante quanto tempo, tenho uma desilusão, continuarei empolgado, deixo de gostar… Uma primeira impressão gera um movimento. Uma sensação orienta para a percepção. Num segundo tempo, a confirmação dessa percepção gera juízo. Num terceiro tempo, esses dados do juízo, a recomposição dos elementos em jogo, a desconstrução. E, num quarto tempo, o despertar de um conceito, o pensamento em potência – emerge duma relação com um objecto, com uma paisagem, uma representação.
12 – Essa relação vive de uma tensão, de um “não sei quê” emocional que altera o meu estado de espírito num sentido “não dominado”, uma tensão tanto emocional quanto ideal. Essa alteração é o “gosto de”. Quando se diz “não gosto de”, a relação é mais claramente negativa, há mal-estar. No entanto, esse “não gosto” é, eventualmente, mais produtivo intelectualmente do que o gosto integrador do olhar massivo que peca por sobrepor sentimento de pertença a elaboração crítica potencial.
13 – Nas questões do “eu gosto” e, portanto, do gosto como manifestação sensível, o prazer é um degrau imediato, o incómodo – por vezes, gratuito – uma possibilidade nas estéticas da provocação. Isto é, nas manifestações artísticas que estão em desconformidade estratégica com o real, em inadequação produtiva, em desajuste. O gosto – e não “gosto e clico” – do artista manifesta uma posição mais ou menos explícita em relação ao que é conforme ao “grande costume” (esse que se respira no ambiente) ou “ao grande outro” (o respeito, mesmo o medo, que se interioriza quanto aos tabus) para falar daquilo que, em mim, é interdição, autocensura em favor de um juízo adequado ao que antes do gosto é já uma forma de gosto. Ou seja, uma conformação ao que a tradição, por um lado, lega e a publicidade, que explora o gosto nas suas imagens invasivas e constantes no presente, dominadoras e capazes de inoculações ideais subliminares – uma vacina constante, vai impondo sub-repticiamente, como no conhecido slogan “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. E o que se entranha é a coca… em ola (onda). Neste caso, a conversa do “viral” é esclarecedora, sendo mais forte o motivo epidémico do que as razões produtivas.

14 – Um rosto, ler um rosto antes de o ler em conformidade com um padrão dominante – parece-se com ou lembra o Clooney, a Cardinale, etc.) – pode ser esse “eu gosto” fora da regra; porventura, esse é o “eu gosto”, aquele que procura uma singularidade na leitura. Relacionar-se com os princípios que regem o gosto em conformidade com a condição venal do objecto que se gosta é ir atrás – o design é, num certo sentido, essa mercantilização do olhar que procura a condição massiva, pois rege-se por princípios que buscam audiência máxima. Aqui, em contradição com as lógicas massivas, há também zonas mais restritas, nichos de gosto e zonas de experimentação que andam á frente das outras e que mais tarde, muitas vezes, passam a gosto dominante. Há obviamente, nestas casos, os fenómenos reconhecidos do regresso ao que foi e, reciclado pelo tempo, volta a ser, a dar lucro. Um clássico nunca é um objecto retro.
15 – Mas esse “eu gosto” pode exercer-se em tensão crítica, em desconformidade, em entendimento do mundo e não em trânsito da condição consumidora. O que atrai nos monstros de Goya? O que é que, causando ferida, gera admiração e pasmo nos fuzilamentos do 3 de Maio? Um plano é o real referido – o que é pintado são factos até observados – o outro é o modo como esse real não é traído nem mentido pelas formas oferecidas ao olhar, pelas cores, pelo guarda-roupa, pelo olhar espantado e temeroso do fuzilado protagonista, referência crística.

16 – O acto estético é um acto de leitura, é a manifestação de uma opção, de um começo que desponta para uma relação. Pode impor-se a partir do que se vê, uma paisagem, um Picasso, complexidades diferentes. De uma diz-se: “Ah, as vistas.” E, aí, tendemos para a contemplação, enquanto não damos com um poste de electricidade. A outras complexidades tentamos descodificar as linhas do desenho impossível, que não “existe” – a história do gosto é a mudança das percepções no tempo. A peça “Seis Personagens à Procura de um Autor” foi pateada; “La Dolce Vita” um escândalo moral seguido de proibição.
17 – Eis que o acto depende de uma dada forma de ler. “Ler e depois” dizia um mestre.
18 – Essa leitura é, obviamente, a prática de uma impressão primeira que joga com os sentidos todos. O gosto é sinestésico, mas não é imediatamente consciente disso.
19 – Numa pintura, ouço o pôr do sol porque ouço o seu ruído ou o seu silêncio. A visão dos girassóis transmite-me o seu odor, as cores invadem-me a retina, o filme que faço faz-me entrar no quadro como um olho voador.

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20 – O meu juízo não é mecânico-orgânico apenas, isso depende da minha disponibilidade cultural na leitura, do grau de informação que conforma o juízo – que pode afogar a leitura, tal como as notas pé de página dos académicos afogam o ensaio ou o romance, sobrepondo-se a referência ao objecto referido e impedindo a sensação, impedindo a leitura, parte plena de “gordura” preconcebida.
21 – A informação angular, a formação cultural e a informação referencial, ilustrada, pode resultar no seu contrário, coleccionismo acumulador – o acumulador torna a referência uma pirâmide de lixo e a arte um jogo mundano.
22 – Posso até reagir como o cão de Pavlov, sem o saber, mas ao contrário do animal – já criticam o Pavlov, como ciência “anti-cão” (ironia destes tempos) – ao contrário do “maior amigo do homem”, posso perceber que estou a salivar porque dentro, falando a natureza animal, eu sei o que é salivar. A mesma natureza que manifesta a pulsão de morte, a tendência violenta quando associada a uma visão do humano como ser superior a outro ser humano ou animal são a bitola do racismo e da subalternidade dos animais, entendidos apenas como recurso alimentar ou laboral.

23 – É dentro de um juízo conformado – que se revolta contra a conformação ou que é sua expressão – que o gosto se manifesta como idêntico ao de muitos. Isto é, gosto do que outros gostam e, por isso, estou aqui ou vou ali ou, então, surge de outro modo: como singularidade, imprevisto sensorial, novidade – um ler que é, em si, criação ou, numa perspectiva mais social, para-sistémica, análise, explicação.
24 – O juízo analítico não é propriamente um juízo estético. É de outro tipo, racionaliza o fenómeno em análise como algo que se faz num segundo tempo. Regressas ao objecto, ao que está em jogo e, passada a primeira impressão-leitura, passas a uma leitura analítica em função dos teus instrumentos intelectuais de leitura – da tal grelha, mais ou menos académica, mais ou menos especificamente artística (há leituras de objectos artísticos que são, elas mesmas, variações do objecto. Nesse sentido, são prolongamentos semânticos e formais, artísticos, glosas).
25 – Voltando à “vaca fria”, o que diz Aristóteles? Que a “imitação” é o princípio da criação, a famosa mimese. E que essa “imitação” – que, evidentemente, não é fotográfica, nem uma colagem ao real enquanto este acontece – deve ser perfeita. Isto é, corresponderá a uma dada harmonia, a um equilíbrio formal. Outras categorizações, também determinou: uma corresponde ao avançar da História até um clímax seguido de desenlace – para realizar a tal purga virtuosa, uma libertação pela emoção via identificação – e outra que estabelece uma hierarquia: a tragédia é “imitação dos de cima”, a comédia é “imitação dos de baixo”. Isso podemos seguir no contraste entre Sófocles e Aristófanes, entre Édipo e Trigeu.

26 – Ditou também a verossimilhança, uma ficção imitante que faça parecer verdadeira, verosímil, a realidade imitada. A forma de imitar é decisiva e “forma” quer dizer trabalho da forma, quer dizer espaço, tempo, estrutura, extensão, figuras e natureza comunicativa – cada arte tem o seu modo de comunicar ou de exercer a sua especificidade existencial.
27 –Não estamos muito distantes hoje e o primarismo da experiência espectadora trazido pela massificação (via ecrãs) acentuou o carácter literal da confusão entre a vida e a ficção; tanto mais que as virtualizações do real duplicam este como se o fosse – a vida virtual entrou em cheio no real. A virtualização das relações, actualmente, é vida real, tornou este mecanismo mais complexo e mais primário – morre-se nas redes sociais, há suicídios e depressões a acontecer nas redes, há manipulação em escala muito mais ampla do que a propaganda ariano-nazi ou estalinista (em que a arte é igual a engenharia da alma) praticavam.
28 – A dependência de um quadro virtualizado de vida e as vidas ficcionadas online, geridas, trazem novos problemas, em particular, uma questão de identidade flutuante e de vidas projectadas em cenários de ficção, a mais das vezes coladas a ídolos e a práticas tribais que se seguem em adoração cega. Todo este mecanismo nos reconduz quase a um tempo de recolectores caçadores, tempo em que um desenho na parede da gruta antecederia um conseguimento na caça, a magia prevalecia. O que temos hoje não é distante, com o desprezo generalizado da ciência e da razão.

29 – De reter é que este mundo virtual é, por excelência, um mundo estético, um mundo de imagens manobradas, escritas para produzir resultados, seja essa estética publicitária, seja essa manobra manipulação extremista, como temos visto no êxito do uso das extremas direitas nestes ambientes. Aí, o que temos também consiste numa questão de literacia da imagem ou das imagens – o essencial a um juízo emancipado, sem o qual a democracia é uma mentira retórica.
30 – Conclusão: o gosto é central nas nossas escolhas e, por isso, deveria ser ensinado na diversidade disciplinar implicada como matéria determinante de compreensão do real e do real virtual. Desde o objecto de consumo massivo que incorpora design, uma dimensão criativa, para ser atractivo, às falas mansas ou à performance autoritária do político à conquista de votos, tudo é sublinhado pelo gosto.

Não é por acaso que, na publicidade, um automóvel voa na estepe e/ou se compara com a ferocidade de um leão na selva. Não se trata de afecto numa escala que nada tem de íntimo, trata-se de ir atrás do mau gosto populista ou massificado por campanhas específicas que atrai para o grande espectáculo, seja qual for, ou do gosto conservador de uma imaginada possibilidade de estabilidade que se leia num rosto e num vocabulário moderados.
Em qualquer circunstância, tudo é enredado em sequências ficcionais do tipo narrativo que faz de cada consumidor – cidadão, espectador, público anónimo – um alvo dessas narrativas que se jogam na conquista e soma compulsiva de adeptos. Tal como acontece nas redes sociais e em que cada sujeito é convertido no conjunto de dados que o tal algoritmo usa para encaminhar as supostas mensagens adequadas a cada caso, fazendo do cidadão não um leitor do que possa ser o interesse geral, mas, pelo contrário, de alguém que é parte de uma tribo particular, tal como as pessoas são de regiões ou de clubes quando o são de modo cego e agressivo.
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15/01/2026