Pier Paolo Pasolini
Uma cena de “Salò, ou os 120 Dias de Sodoma” (1976). (english.elpais.com)
“O que mais me surpreendeu foi perceber quão profético ele foi.”
(Willem Dafoe, sobre Pasolini)
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Há 50 anos, morreu Pier Paolo Pasolini (PPP), escritor, poeta, dramaturgo, cineasta, argumentista, uma das mais interessantes figuras intelectuais da Itália do século XX. Amado e odiado pelos seus contemporâneos, PPP construiu uma obra ímpar, toda ela marcada por uma singularidade estética de profunda inspiração, que parte do clássico (Gregos e Latinos) até os autores modernos, entre os quais ele próprio se situa, numa autorreferência, com a sua obra única e genuína.

Passam também 50 anos sobre a estreia do seu último filme. Filme maldito, amaldiçoado. Filme que é testamento e documento de denúncia dos últimos dias do fascismo italiano.

Escreve Ianko López, na edição de 21 de Agosto de 2025, do jornal El País:
“Assistir a Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, hoje é uma experiência tão extrema e, às vezes, insuportável quanto há 50 anos, quando marcou [a] sua conturbada estreia. Suas cenas de sexo forçado, sadismo corporal, coprofagia, humilhação e mutilação, filmadas em cenários magníficos e com aparatos formais de rara beleza, geram o mesmo horror, a mesma repugnância moral. Mas, acima de tudo, o campo em que o filme estende [a] sua relevância com maior autoridade é o político, que é o que mais interessa ao seu dire[c]tor. O que Salò enuncia – um estudo da violência subjacente ao exercício do poder nas sociedades capitalistas – não perdeu um pingo [da] sua potência e validade.”

Salò, no Norte da Itália, foi o último refúgio de Mussolini e o derradeiro do fascismo italiano. Em 25 de Julho de 1943, o Grande Conselho Fascista votou pela destituição de Benito Mussolini, que foi preso por ordem do rei Vítor Manuel III e afastado do poder.

Por sua vez, Adolf Hitler, decidido a manter a Itália sob controlo, lançou a Operação Eiche para resgatar Mussolini. O Duce foi libertado por um comando de paraquedistas e transferido imediatamente para a Alemanha. Pouco depois, sob pressão do próprio Führer, Mussolini retornou ao solo italiano, concretamente à região norte, onde foi instaurado um novo regime, sob estrita supervisão alemã. Esta nova etapa do fascismo foi, paradoxalmente, mais radical do que a anterior. O regime impôs medidas violentas contra os seus opositores, organizou tribunais especiais para punir os antigos traidores do partido e colaborou activamente com os nazistas na deportação de judeus italianos.

Na Primavera de 1945, o colapso era inevitável. Mussolini foi preso por uma brigada “partisan” (resistência italiana), juntamente com a sua amante Clara Petacci. Ambos foram sumariamente executados, em 28 de Abril de 1945, e os seus corpos foram pendurados na Piazza Loreto, como símbolo da queda do fascismo e do fim de uma era.

PPP, clássico, cristão e comunista, tanto filmou “Evangelho Segundo São Mateus” (em 1964) como “Teorema” (no ano de 1968), filme em que uma estranha personagem entra numa família burguesa, como um anjo exterminador, seduzindo pelo amor e ternura, preenchendo os lugares vazios do quotidiano, nele brilham todos os actores, entre os quais destaco Terence Stamp (belíssimo), recentemente falecido.
Seria um pecado não mencionar a sua bela trilogia, da literatura universal: “As Mil e Uma Noites”, “Decameron” e “Os Contos de Canterbury”. Todos eles vistos no cinema Olimpya, na cidade do Porto (vizinho do Passos Manuel, na rua homónima – quem se lembra deste cinema?), assim como as suas (de Pasolini) belas adaptações para o cinema de “Édipo Rei” (filme de 1967), a partir da obra de Sófocles, e de a “Medeia” (“Medea”), baseado em Eurípides, filme estreado em 1969, com interpretação de Maria Callas.

Também quero lembrar que – de Pasolini, na sua qualidade de dramaturgo –, foram representadas, em Portugal, as suas peças, assim como as adaptações do grande clássico espanhol Calderón de la Barca.
E, finalmente, relembrar que a sua morte (ou assassinato), em consequência de um encontro sexual com um prostituto, foi denunciada, na altura, como uma morte anunciada ou preparada pela direita italiana, segundo a jornalista Oriana Fallaci1 e a actriz Laura Betti2, a sua amiga intima.
Destaco, igualmente, um belo filme sobre ele, protagonizado por um grande actor (Willem Dafoe)3, com realização do cineasta norte-americano Abel Ferrara.

Aproveito ainda para assinalar os 50 anos de carreira teatral de Emília Silvestre (Maria Emília Cabral Silvestre, nascida em 1960). Conheci a Emília quando era uma jovem de 15 anos, integrou, com outros 50 jovens, um dos três cursos de iniciação teatral, quando dirigia o Teatro Experimental do Porto (TEP), nos anos de 1975 a 1978. Integrou o elenco de “A Excepção e a Regra”, de Bertolt Brecht, e de “As Artimanhas de Scapino”, de Molière, com cenários e figurinos do escultor José Rodrigues. Em ambas as encenações, Emília contracenou com o seu pai, também actor, Diamantino Silvestre, e com aquele que viria a ser o seu companheiro, Jorge Pinto.

Voltámos a trabalhar juntos nos anos 80, numa encenação, para o TEP, de “Amor de Dom Perlimplim com Belisa no seu Jardim”, de Federico García Lorca, numa belíssima versão portuguesa do poeta Eugénio de Andrade, com música de José Luís Borges Coelho. Tenho seguido a sua carreira no teatro e sou testemunha do seu crescimento artístico imparável, nestes 50 anos, a que se junta também os mais de 50 do seu companheiro Jorge Pinto, estando ambos naquela utopia teatral denominada Ensemble-Sociedade de Actores – uma unidade de investigação, de produção teatral e de formação contínua de actores –, fundada em 1996. Dirijo aos dois – como irmãos, na amizade e no teatro – os meus parabéns!
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Notas:
1 – “Carta de Oriana Fallaci para Pier Paolo Pasolini, 14 de Novembro de 1975” – Conheçamos, pois, Pier Paolo Pasolini através da carta que Oriana Fallaci escreveu ao escritor após sua morte.
A sociedade artística e companhia de teatro Artistas Unidos, fundada por Jorge Silva Melo, publicou nos seus cadernos as obras de Pier Paolo Pasolini: “Orgia/ Pocilga” (n.º 16), “Besta de Estilo” (n.º 17), “Calderón” (n.º 21), “Pílades” (n.º 23).
2 – “Pasolini: cronaca giudiziaria, persecuzione, morte”, de Laura Betti (editora). Poucos dias após a morte de Pier Paolo Pasolini, Laura Betti reuniu um grupo de amigos com o intuito de dar vida a um volume que testemunhasse a experiência dramática do escritor e do cineasta perseguido e em constante luta contra o poder, até ao seu assassinato, cujos mandantes estão sendo procurados.
3 – Willem Dafoe sobre Pier Paolo Pasolini: “O que mais me surpreendeu foi perceber quão profético ele foi”
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28/08/2025