Tudo a ganhar e nada a perder
(Créditos fotográficos: Bob Works – Unsplash)
Quando se é ainda jovem, mesmo jovem (até aos 25 anos, vá lá!), pode dizer-se tudo o que se pensa, porque o Mundo está ainda todo por ganhar. E pronto a desculpar os exageros da juventude. Depois, já comporta riscos de perdas do adquirido. Mas, ao chegar a velho (pelo menos, 70 anos, lá vá!), pode passar-se a dizer novamente exactamente o que se pensa.

Já nada se tem a perder, já se perdeu tudo o que se não conquistou no Mundo. Acresce a isto que um “enfant terrible” é charmoso, mas um adulto com maturidade, se prolonga essa irreverência para lá de limites que defina com rigor e atenção, pode passar a ser olhado como um pateta. E acresce também que um velho, além de ser tido por não perigoso, ganhou o estatuto suficiente da vida para se lhe permitir nova irreverência. É o caso em que eu mesmo me encontro: nada (mais) tenho já a perder e não preciso de pensar no que teria para ganhar: falta-me tempo. E, na falta desse tempo, fica-me o tempo que vivi e a autoridade para falar a partir do muito que vi.

É uma espécie de segunda adolescência, antes de atingir a chamada segunda meninice. Assim, destravei a língua, tal como quando era novo. E ainda só agora comecei! Ainda que mantendo em reserva, por pior que seja ou por proveito que me desse, o que em reserva me foi dito. Isso é outra coisa. Irá comigo para o crematório e lá se esfumará. No mais, estou de volta aos meus furiosos 20 anos! Para dizer, por exemplo, que se o André Ventura é um charlatão (e é), acreditarem nele deve-se ao facto de, com outros jeitos, o terem antecedido muitos outros charlatões. Se assim não fosse, ele não tinha espaço para “charlatanear”.
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20/10/2025