Tudo a ganhar e nada a perder

 Tudo a ganhar e nada a perder

(Créditos fotográficos: Bob Works – Unsplash)

Quando se é ainda jovem, mesmo jovem (até aos 25 anos, vá lá!), pode dizer-se tudo o que se pensa, porque o Mundo está ainda todo por ganhar. E pronto a desculpar os exageros da juventude. Depois, já comporta riscos de perdas do adquirido. Mas, ao chegar a velho (pelo menos, 70 anos, lá vá!), pode passar-se a dizer novamente exactamente o que se pensa.

(Créditos fotográficos: Aarón Blanco Tejedor – Unsplash)

Já nada se tem a perder, já se perdeu tudo o que se não conquistou no Mundo. Acresce a isto que um “enfant terrible” é charmoso, mas um adulto com maturidade, se prolonga essa irreverência para lá de limites que defina com rigor e atenção, pode passar a ser olhado como um pateta. E acresce também que um velho, além de ser tido por não perigoso, ganhou o estatuto suficiente da vida para se lhe permitir nova irreverência. É o caso em que eu mesmo me encontro: nada (mais) tenho já a perder e não preciso de pensar no que teria para ganhar: falta-me tempo. E, na falta desse tempo, fica-me o tempo que vivi e a autoridade para falar a partir do muito que vi.

(pexels.com)

É uma espécie de segunda adolescência, antes de atingir a chamada segunda meninice. Assim, destravei a língua, tal como quando era novo. E ainda só agora comecei! Ainda que mantendo em reserva, por pior que seja ou por proveito que me desse, o que em reserva me foi dito. Isso é outra coisa. Irá comigo para o crematório e lá se esfumará. No mais, estou de volta aos meus furiosos 20 anos! Para dizer, por exemplo, que se o André Ventura é um charlatão (e é), acreditarem nele deve-se ao facto de, com outros jeitos, o terem antecedido muitos outros charlatões. Se assim não fosse, ele não tinha espaço para “charlatanear”.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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20/10/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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