Uma impactante mulher: Dominique Poulange

 Uma impactante mulher: Dominique Poulange

A actriz e encenadora Dominique Poulange. (cinemorgue.fandom.com)

Aceitei o desafio para o Dia Internacional da Mulher, assinalado ontem, 8 de Março. A propósito, lembro que, na minha vida profissional, talvez a mais impactante mulher tenha sido a actriz e encenadora Dominique Poulange.

Encenador franco-argentino Jorge Lavelli. (entretiens.ina.fr)

Jorge Lavelli, um extraordinário encenador francês (naturalizado, de origem argentina), famosíssimo no final década de 80, director do La Colline – Théâtre National, fora quem eu escolhera, a convite da então Secretaria de Estado da Cultura (SEC), que me deu abertura para optar por quem fosse, em qualquer parte do Mundo. Ele acabara de recusar ao próprio ministro da Cultura francês (no governo de  François Mitterrand), Jack Lang, aceitar assistentes estagiários (incluindo os oriundos de África, de expressão francesa), por entender que perturbavam o seu trabalho.

Jack Lang foi ministro da Cultura de François Mitterrand.
(pt.wikipedia.org)

Fui recebido, num gesto de simpatia por Dominique Poulange, enquanto assistente de Lavelli, informando-me de que apenas o fizera por consideração para com o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) francês que intercedera, a pedido do MNE português, para essa entrevista. Deu-me conta da situação e, uma hora depois de estarmos a falar, acabou por me dizer: “A mim convenceu-me, vamos lá ver se eu convenço o Jorge Lavelli)!”.

Duas semanas mais tarde, recebi uma carta de Lavelli a “aceitar, a título absolutamente excepcional”. Tão excepcional foi que o adido cultural da Embaixada Portuguesa em França (Michel Delpuech) alertou Fernando Alçada (director-geral da Acção Cultural da SEC) para ver se era uma fraude, por causa da recusa de Lavelli a Jack Lang. Alçada acreditava em mim e só me pediu para eu ir falar com Michel Delpuech (o adido). Fui mesmo mostrar-lhe a carta. Confirmou para Paris e confirmou que, estranhamente, era verdade!

Peça “Nonna”, de Roberto Cossa, com direcção de Jorge Lavelli, contando com a colaboração na encenação de Dominique Poulange. (colline.fr)

É a Dominique Poulange que devo ter feito esse estágio (na temporada teatral de 1988/89) que me foi tão útil. Lavelli era, de facto, um génio e Dominique uma extraordinária assistente dele. E que sempre me acompanhou no estágio, para além do próprio Lavelli. Ele já morreu. Dela perdi o contacto, mas teve um papel impactante na minha vida profissional. Estejas onde estiveres, obrigado, Dominique!

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09/03/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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