Viva o Paraguai!

 Viva o Paraguai!

Rio Paraguai. (Créditos fotográficos: Andi – Pixabay)

Há lugares, assim como há pessoas, que nada oferecem. Especulam a sua sede e em seguida afastam o copo. Desconfie sempre daquilo ou de quem não é modesto. Não são sinceros. O Mundo está cheio de insinceridade disfarçada de sofisticadas boas-vindas. O Paraguai nada promete. À chegada, não especula o visitante, acolhe-o, compartilha o seu grande rio, dá-lhe de beber da sua água, apresenta-se com uma surpreendente modéstia. A sua simplicidade tem uma boa intenção, posto que não burla nem decepciona.

Ponte da Amizade sobre o rio Paraná, ligando o Brasil ao Paraguai.
(pt.wikipedia.org)

Eu vi o Mundo e posso dizer que nenhum outro lugar e nenhuma outra gente me terão impressionado tanto, porque abraçam a ternura como princípio, inteiro, intacto, atuante.

A 14 de maio, a nação comemora a sua independência, obtida pacificamente em 1811. Jovens idealistas asseguraram a sua autonomia tanto de Espanha quanto das tentativas argentinas de anexações territoriais. A princípio, a soberania da sua identidade dependeria de uma imersão isolacionista. Porém, o rio Paraguai (que significa “grande rio”, em Guarani) nasce rio Apa, no Brasil, e encontra o rio Paraná, na Argentina. Ainda que seja o seu rio a alma do país a atravessá-lo, a sua vocação é relacional. O rio incita o convívio, sobretudo onde não há mar.

Se, por um lado, há fronteiras nas margens, no Paraguai o seu rio é solo, é um não limite. É ainda o factor de integração étnica, cultural, identitária que dá nome ao país.

Ponte Héroes del Chaco sobre o rio Paraguai, que liga Assunção a Nueva Assunção. (pt.wikipedia.org)
O Panteão Nacional dos Heróis (Panteón Nacional de los Heroes) é um
monumento localizado em Assunção, capital do Paraguai.
(pt.wikipedia.org)

Um certo dia, um tal de Solano Lopez, ávido de levar o seu país a ter mar, colocou a sua gente numa grande encrenca. A Guerra do Paraguai com os seus vizinhos dizimou 60% da população e, ao invés de aumentar o território, perdeu-se terras. No Panteão dos Heróis, em Assunção, há um túmulo que homenageia o “soldado desconhecido”. Não há, ali, nenhum corpo. Contudo, 300 mil soldados mortos encontram-se simbolicamente a descansarem.

O Paraguai teve uma série de ditadores no seu percurso histórico, quem quiser conhecer um, através das letras, deve ler “Eu, o Supremo”, da autoria de Augusto Roas Bastos. É um livro sobre a soberba de um tal Rodriguez de Francia, escrito no exílio, uma vez que o escritor, ao viver na Europa, escapava de outro ditador, o então presidente Alfredo Strossner. Os rudes no poder nunca representaram esse povo, foram acidentes de percurso.

(Direitos reservados)

Diferentemente dos demais países latino-americanos, que tiveram os seus povos originários extintos, assim como as suas línguas, neste terreno, o indígena manteve a sua identidade e o seu idioma preservados. Todo o país é capaz de se expressar em Guarani. Isso se explica porque a implantação das missões, idealizada como bloqueio espanhol ao expansionismo lusitano, teve o apoio dos nativos. Com o tempo, veio a formar-se uma sociedade alternativa ao colonialismo. A terra – como acervo identitário não subalterno – passou a ser uma propriedade insigne do povo indígena. O catequisado era animista, o seu sagrado estava na Natureza visível. O catequizador teve de se adaptar ao “anima” local e essa junção gerou um imenso gosto pelos afetos.

Ruinas jesuíticas das Missões. (viajarentreviagens.pt)

Naquelas terras, não havia órgãos para as igrejas, os religiosos ensinaram os nativos a fazerem e a tocarem harpas. Nascia assim o som divino da harpa paraguaia. O convívio de nativos e de não nativos em harmonia. Não fossem os gaúchos dos Pampas e os bandeirantes invadirem as missões e a fazerem dos terrenos afetivos estancias privadas, latifúndios usurários, a experiencia comunitária teria prosseguido.

A tradicional harpa paraguaia, um dos maiores símbolos da cultura nacional. (Rediex.gov.py – paraguaiteete.wordpress.com)

Todavia, a guaranização presente nas ruínas cristãs ainda atesta o que resta daquelas somas de afetos. Assim, como no Chaco, há uma coesão comunitária num solo vazio de rios. Contudo, produtivo, expressa num assentamento maronita.

A história dessa comunidade remonta ao século XVI, quando os anabatistas, liderados por Menno Simons, se separaram da Igreja Católica e passaram a defender o batismo apenas de adultos conscientes da sua fé. Perseguidos na Europa, os menonitas emigraram para países como a Rússia, o Canadá e, posteriormente, o Paraguai. (rotabioceanicanews.com.br)

Gente que veio dos confins da Europa e que encontrou ali a sua harmonia como mais-valia. Enfim, o Paraguai é afeito aos afetos, sublimou os conflitos, e é esse o seu tesouro maior, o seu ex-libris: ninguém o visita sem obter simplicidade, sinceridade afetiva, nada como a erva mate compartilhada na mesma cuia, o gesto simples que a fraternidade e a proximidade emana. Esse é o Paraguai que terá sido por mim visto, que fez e faz sentido.

Consumido principalmente na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no Sul do Brasil, o mate ou chimarrão é um chá amargo e com cafeína, preparado com folhas secas de erva-mate. (estadao.com.br)

18/05/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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