Buenos Aires
Buenos Aires (Créditos fotográficos: Nestor Barbitta – Unsplash)
“La juzgo tan eterna como el agua y el aire” (Jorge Luis Borges)
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Tarsila do Amaral, e foi considerado um dos objectos plásticos mais
importantes do Brasil. O quadro (de 85 cm x 73 cm) foi comprado, em
1995, pelo empresário argentino Eduardo Constantini, presidente
honorário da Fundación Malba. (capmagellan.com)
Estou no Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), mais exactamente defronte do “Abaporu”, o pensador que tem uma cabeça pequena e um pé grande. Sou um brasileiro, sou um dândi, um antropófago a querer consumir, digerir a Argentina…
Não, não será assim que iniciarei o meu texto. Estou a misturar o dândi com um turista e também a expor um despeito dos brasileiros quanto aos “Hermanos”. Conflituoso. Este não sou eu.
Não será assim, portanto, que vou iniciar meu texto, recomeço a escrita a partir de um olhar para a literatura na cidade.
Ah! Acordar apalermado por estar numa cidade povoada por tantos fantasmas de escritores a quererem me guiar por ela! Palermo será o meu ponto de partida.

Colocar o meu dândi deambulante a “dandinar” pelo Jardín de los Poetas, um pouco mais adentro do Parque Tres de Febrero será um bom começo.

São 26 escritores estatuados a quererem dizer: “Buenas! Buen día!”
Borges, Lorca, Dante, Shakespeare… sendo de mim quase íntimos.

renunciar à nacionalidade argentina, ele optou por adquirir a nacionalidade
francesa, em 1981, em protesto contra a ditadura militar argentina.
(gaceta.udg.mx)
Passear entre as rosas do Rosedal, ver os patos e as pérgolas, sentar-me num banco e desfrutar da plenitude de uns bons ares.
“Si! Estoy en Buenos Aires!” Não o digo sendo neófito, essa foi a minha casa ocasional por, pelo menos, oito anos e houve ainda outras vindas, particularmente à cidade.
“Adelante! Pués…”: Há que se rever tudo aquilo que se via e se revia. Ir de novo a todo lugar que se ia.
Dizia o Cortázar, a quem chamo Julio por um atrevimento íntimo: “Os verdadeiros escritores são como caracóis: carregamos a nossa casa nas costas.” A recordar o Julio, não será pela Avenida Nueve de Julio que o encontrarei.

Sigo para a rua que leva o seu nome, aquela mesma que corta a Artigas, uma BA1 que terá sido muito minha, das antigas. A “calle” contém o Bar Rayuela (“rayuela” é o jogo da amarelinha, em Espanhol, e um livro seu). Avanço de pulo em pulo para, por fim, me deliciar: ouvir jazz num lugar que tem flores na janela e nas mesas.

Airoso, não afeito aos blues. Evito o álcool, essas flores do mal2 para não entrar num clima de Baudelaire cercado de uma tal sensual plateia. Medeia amedronta-me: será ela quem me serve um capuccino, não a olho, me ponho cabisbaixo como um capuchinho, deixo-a despejar o café na chávena com as suas unhas pintadas de um esmalte escarlatíssimo. Ela zumbe alguma coisa com a colega. Ambas falam alto, maquilham-se muito, são irrequietas, são argentinas.

(Créditos fotográficos: Gabriel Ramos – Unsplash)
Cientes de que ali estava um escritor, fã do Julio, desaparecem, deixam-me entregue ao meu verbo pensante.
Há que se retomar a busca dos fantasmas dos escritores. Decido então me embebedar de Dante. Dantes nem tinha pensado em ir ao Palacio Barolo, mas o despertar de uns desejos incomunicáveis naquele bar levou-me ao Hades3 e ao Nirvana4, o edifício viria a calhar para redimir-me.
Alcanço a Avenida de Mayo (ah! os maios primaveris de BA e a lembrança das Mães na Praça de Maio5, quanto ainda me recordo disto!). Daí, entro no palácio idealizado por um tal Barolo, leitor contumaz da “Divina Comédia”6. O subsolo e o andar térreo levam ao Inferno. Partindo de lá, o que vai até o quarto andar é Purgatório, bom para se purgar, desvencilhar-se das pulgas do desejo. Depois, por uns andares mais, descansa-se. Já o que vai dos andares 14.º ao 20.º é uma ascensão ao Paraíso.
Barolo, ao constatar que o livro dantesco tem 24 cantos e estrofes, somou mais quatro andares ao edifício para, no final, lá em cima, encontrarmos um farol que à noite ilumina a “ciudad”. Mas era dia. Lá do alto, a vista não é comedida, é divina.

Edifício “art nouveau”# do arquitecto italiano Francesco Gianotti, concluído
em 1914. (commons.wikimedia.org)
A minha comédia prossegue: sigo para outro céu7. A propósito, este é o nome de um conto do Julio. Trata-se da Galería Güemes. O Julio Cortázar adorava essa galeria – era um dândi “underground” –, bem como as outras galerias. Todas levavam-no ao inesperado, ao insólito: o que dizer de um personagem do livro “Todos os Fogos o Fogo” que entra por ela e sai no bairro da Ópera em Paris?!

Nada a estranhar porque BA tem mesmo uma mania de “parisiar-se” a cada esquina.
Nesta galeria, viveu por um tempo o Exupéry8 que voava de dia e à noite escrevia o seu “Voo Nocturno”. Então vejamos o apartamento onde ele morou quando era piloto, funcionário de uma empresa aérea, a ter na sua solidão apenas as conversas com o Pequeno Principe (ou o Principezinho).
Terá ele tido dificuldades de encontrar uma rosa em Buenos Aires? Viu uma raposa ladina e assustou-se? Sabe-se lá! Era um solitário em BA, como foram muitos dos escritores.
Em seguida, apraz-me seguir para San Telmo, quero espairecer. Ocasionalmente, ocorre-me ter uma espécie de elmo na cabeça quando estou aqui, a sombrear os meus pensamentos. Buenos Aires confere um certo “spleen”. Por isso, choram os bandoneons9, no meio dos seus neóns. Incita à melancolia.

fotográficos: Jorge Royan – en.wikipedia.org)
É domingo. Na Plaza del Rego, encontro a feirinha de cacarecos, o “Marché aux Puces10 porteño”. Interesso-me por um livro desgastado do Ernesto Sabato. Se fosse um sábado, não o encontraria aqui. Adquiro o “Sobre Heróis e Tumbas”, ainda que eu não tenha planos nenhuns de ir ao Cemitério da Recoleta11 nem sequer ir a nenhum arquivo sobre a ditadura, prometi-me desfrutar de mais óptimos ares.
É bem verdade que o que não falta em BA são ruas e estátuas de heróis e, para quem gosta, tumbas. Mas, os meus heróis para o momento são os escritores. Folheio o livro e descubro que, perto dali, no Parque Lezama – que o nativo ama e os turistas muito desconhecem –, um personagem seu busca refúgio para poder pensar. Aí, senta-se em frente da estátua de Ceres12, que lhe confere alento como alimento para o seu pensar. Boa ideia, vou repeti-lo.
Desconheço o lugar, mas encontro-o. Os meus pensamentos ali divagam sobre Londres e o Brasil. É, pois, natural que, ao sair, me dirija para o Bar Britânico, que fica na Avenida Brasil. Remanso do Sábato.

Afinal, peço um café ou uma Qüilmes? Haverão de me inspirar para poder prosseguir este artigo.
Faltam-me palavras, o dândi é um observador silente. Já o escritor é um palavreador. Encontro-me no meio de ambos. Porém, como estou a ser aqui escritor, careço de literatura, de fantasmas de escritores para a minha escrita. Tomo o subte13, atordoa-me a voz barítona das pessoas. Entro num táxi salvífico, o qual me dirige para as margens do rio Riachuelo, não para o Caminito14 – caminho muito estreito com demasiados turistas. Desço defronte de La Perla, que tem nas suas mesas e no balcão umas plaquinhas que comunicam a nossa posição na nau. Estranhamente, sinto-me mal, como se estivesse a bordo de uma embarcação espanhola nos confins do Novo Mundo.
Confiro que estou sentado na mesa Capitán, cercado de outras com uma “tripulación” que só fala Espanhol. Sinto-me uma espécie de pessoa alienígena, um Fernando15 a gerar um outro eu, desassossegado, irritadiço.
Levanto-me e sigo para a Fundación Proa. Bem sei que tem uma magnifica livraria. Uma vez na proa, não importa o que vai lá atrás na popa. Poupo-me.

Não há quase ninguém, o que me restaura plenamente. Deduzo que preciso de um retiro, parto para o Retiro. Para estar como o Sábato, a ver o tempo passar na torre do relógio, o passar rápido das pessoas ao longe a caminho da estação de comboios, que os levarão para onde há bois.
Tivesse eu mais tempo, iria rever Luján16. A Senhora barroca brasileira adornada com um esplendor argentino azulíssimo e que teria escolhido aquele sítio para permanecer. Ou até mesmo rever a Catedral de La Plata. Que maravilha! Quanta “plata” foi precisa para erguer-se uma tal monumental e intimista Canterbury!
Pobre Argentina a de hoje, já foi tão rica! Inclusive de fé, bem o sabe o Papa. Olho monástico para o Retiro. Diviso o Kavanagh, o edifício que inspirou o Sábato a escrever um personagem que, ao olhá-lo durante a noite, a acender-se uma luz ou outra luz visíveis atravessando as janelas, se indagava: “Quantas solidões há aqui!?”

Contorno a praça, ainda é dia. E logo encontro o Aleph, o Fazedor, o Borges na Calle Maipu, ou seja, o lugar onde ele morava. Os seus olhos não viam lâmpadas, tinham eles a sua própria luz. Vista a casa, dirijo-me para a sua Fundácion, criada pela sua dama de companhia, a Kodama, vizinha da esplendorosa livraria Ateneo.
Há muito do Jorge Luis Borges nela, na Fundación: bengalas, objectos curiosos, ainda que eu não tenha visto por lá o Tigre. Bem, este seria um ser mitológico dele, labiríntico como a ilha que se encontra no rio, mais adiante. Vi os seus manuscritos. Como é que ele “via” as linhas para escrever não sei. Borges não se explica. Como explicar “el viento”? Basta celebrar “su aliento”. O vento é o temperamento do ar a se soltar.
Para não virar uma esponja de ácaros ou um espelho reflector de fantasmas de escritores, decido respirar outros ares, novas aragens.
Indiferente às letras, lá está o Puerto Madero, que vai maturando a cidade, a não mais querer parecer Paris e sim Manhattan.

Observo o cenário desde a Puente Mujeres, onde Calatrava homenageia tanto a mulher como o tango. A não se esquecer do homem. Sugere um homem a sustentar uma mulher airosa no ar.
E por falar em tango, aquela sucessão de avanços e de recuos, de uma sedução de sim e de não – um “não” não exactamente “não” –, vi uma mulher de cabelos argênteos, sabe-se lá que idade tinha, demasiado maquilhada, argentina. A espreitar o rio, desde a ponte, a aspirar bons ares em pensamentos.
Flagrei o seu momento. Olhou-me com uma similaridade de tango, um viés de não e de sim. Desfantasmada, cheia de vida! Foi assim…
De resto, nada mais se conta. Não terá sido o meu último tango em Buenos Aires.

Antes de seguir para o aeroporto de Ezeiza, passo pelo Café Tortoni e encontro, por mero acaso, Téo António e Leona em visita “a la ciudad”.
Tomámos um café, rodeados de placas alusivas a pensadores fantasmas, habitués do lugar. Contudo, na actualidade, trata-se de um lugar aberto a turistas, descaracterizado de ser um lugar para pensar.
Ainda não somos placas, estamos vivos e, por conseguinte, descrentes de cafés turísticos e de turistas. Prosseguimos a “charla na calzada” em boa hora. Até que me despeço deles por ter de seguir para o aeroporto: “Até já amigos! Até já Buenos Aires! Volto logo!”
O Obelisco, o Teatro Colón, a livraria El Ateneo acenam, concedem um estrepitoso chamamento de volta. Entendemo-nos em anuência.
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Notas da Redacção:
1 – Abreviação internacional e informal “BA”, muito comum em redes sociais e no turismo para designar a capital argentina.
2 – “As Flores do Mal” (título original “Les Fleurs du mal”) é um livro escrito pelo poeta francês Charles Baudelaire, considerado um marco da poesia moderna e simbolista.

3 – Como regista a Wikipédia, o reino de Hades, submundo ou mundo inferior na mitologia grega, é a terra dos mortos, o local para onde a alma das pessoas se dirigiria após a morte.
4 – Como também lemos na enciclopédia livre (Wikipédia), todas as religiões indianas afirmam que “o nirvana é um estado de quietude perfeita, liberdade, maior felicidade, bem como a libertação do apego e do sofrimento mundano e o fim do samsara, o ciclo da existência”.
5 – As Mães da Praça de Maio são, como se refere na Wikipédia, uma associação argentina de mulheres que, a partir de 30 de Abril de 1977, iniciaram rondas semanais na Praça de Maio, em Buenos Aires, exigindo informações sobre os seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar (1976-1983).

6 – Como elucida a Wikipédia, “A Divina Comédia” (em Italiano, “La Divina Commedia”, originalmente “Comedìa” e, mais tarde, denominada “Divina Comédia”, por Giovanni Boccaccio) é um poema alegórico-didascálico, de viés épico e teológico da literatura italiana e mundial, sobre os fundamentos da fé cristã, escrito por Dante Alighieri, no século XIV, e dividido em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.
7 – “O Outro Céu”, conto de Julio Cortázar publicado no livro “Todos os Fogos o Fogo” (de 1966), narra a vida dupla de um homem dividido entre Buenos Aires (nos anos 40) e Paris (em 1870). Através de passagens em galerias cobertas, o narrador viaja no tempo e no espaço, vivendo um romance perigoso em Paris, enquanto mantém uma existência monótona, escapando da lógica e da realidade convencional através do fantástico.

8 – Antoine de Saint-Exupéry, nascido Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, foi um escritor, ilustrador e piloto francês, internacionalmente reconhecido pelo seu livro “Le Petit Prince” (“O Principezinho”), obra universal voltada para todas as idades, sendo um clássico infanto-juvenil com profundas reflexões filosóficas.
9 – O bandoneon é o instrumento principal do tango, conhecido pelo seu som nostálgico, queixoso e emotivo, frequentemente descrito como um “choro”.
10 – O “Marché aux Puces” (“Mercado de Pulgas”) mais famoso e relevante com a designação “Porte” é o Marché aux Puces de Saint-Ouen, localizado na periferia norte de Paris, próximo à Porte de Clignancourt.
11 – O cemitério da Recoleta (em Castelhano “Cementerio de la Recoleta”) é uma famosa necrópole localizada no bairro homónimo na cidade de Buenos Aires.
12 – Ceres, na mitologia romana, é a deusa da agricultura, das colheitas, da fertilidade e do amor maternal, correspondendo à grega Deméter.
13 – “Subte” é a forma abreviada de “subterráneo” (subterrâneo) e refere-se ao sistema de metropolitano de Buenos Aires.
14 – As margens do rio Riachuelo, especificamente no bairro de La Boca, em Buenos Aires, são o cenário histórico e geográfico onde se encontra o famoso Caminito, mas representam uma área maior e mais complexa do que apenas a rua turística.

15 – O “Livro do Desassossego” é uma das maiores obras de Fernando Pessoa. É um livro fragmentário assinado pelo semi-heterónimo Bernardo Soares.
16 – A história de Nossa Senhora de Luján, a padroeira da Argentina, é uma fascinante ponte barroca entre o Brasil colonial e o Rio da Prata, adornada por um esplendor azul que simboliza a nação argentina.
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07/05/2026