Crónica da China: 24.º dia

 Crónica da China: 24.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

Mercado agrícola / chá com Yang Li / “workshop” com crianças / “hot pot” de aniversário

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Hoje é sábado, 2 de maio de 2026. Será um dia intenso e novamente maravilhoso, que começa com o pequeno-almoço às sete. Nunca mais me esqueci do vídeo que vi na Tate Modern, em Londres, da artista brasileira Lúcia Nogueira (1950–1998): “Fun stɑrts ɑt 7 o’clock”.

Pelo que leio, esta era uma característica recorrente na sua obra: o uso de frases banais ou enigmáticas retiradas do quotidiano, que funcionam como gatilhos para associações poéticas e psicológicas; e muitos dos seus títulos sugeriam uma narrativa, mas sem a explicar totalmente. Esta sua obra ou, mais exatamente, este título, creio que era o título – vi esta exposição em Londres, há 16 anos, em 2010 –, memorizei-o para sempre. A diversão começa às sete. Às vezes começa mais cedo, mas hoje começou precisamente às sete. Eventualmente, a Lúcia Nogueira poderia estar a referir-se às sete da tarde. Todavia, ao que parece, nos seus enigmas, ela não explicou. Eu interpreto, por conseguinte, como quero: é às sete da manhã. A diversão começa às sete da manhã.

Não há bicicletas azuis. Nem de cor nenhuma. No outro lado da estrada, há as turquesas.
Recordo que apenas as bicicletas azuis funcionam comigo – ou com os estrangeiros. Quer as amarelas quer as turquesas revelaram-se inacessíveis.

No contexto da crónica 21, aprendi o caminho para o bairro de Huaxing, cheio de gente e de lojas, com a rua cortada ao trânsito automóvel – e, a partir de agora, nunca mais irei ao mercado pelo outro caminho que a aplicação Amap me indicava, por autoestradas. “Finish, kɑputt!” Por aqui são mais 700 ou 800 metros, é insignificante para uma bicicleta. E é um caminho mais bonito e tranquilo. A aplicação Amap é grosseira neste aspeto.

Estando Chengdu a investir tanto em ciclovias, seria altura de criar a sua própria app para percursos de bicicleta na cidade. Quem quiser despachar-se e ir para o emprego usa a Amap; quem quiser ir ao mercado por caminhos bonitos usa a Chengdu Bike App. Já lhe dei nome e tudo.

Hoje é sábado. Feriado dentro do grupo do 1.º de maio, conforme expliquei na crónica anterior, e o mercado está ao rubro.

Aqui, comprei dois ovos de galinha. Acho que nem chegaram a um yuan, custaram cêntimos de yuan. Até me atrapalhei com os trocos. Vou levar os ovos na bolsa da cintura, vamos ver se corre bem. Irei cozê-los no fervedor de água que tenho no estúdio e com o qual tenho amornado diariamente a água. Gosto de beber água morna, há muitos anos. Trouxe a minha garrafa de vidro, de Lisboa, por causa disto.

Esta senhora chamou-me e eu cedi. Vou experimentar alguns destes bolos. Cinco yuans (0,60 euros). Tudo isto vai aparecer no pequeno-almoço de amanhã.

Estes são os chamados “ovos centenários”. Transcrevendo o seu nome chinês para o alfabeto latino, obtém-se “pidan”. Ou seja, existe um sistema oficial de romanização do mandarim chamado “pinyin”. Assim, em “pinyin”, estes ovos centenários designam-se “pidan”.

São ovos que passam por um processo de conservação alcalina. A camada à volta do ovo é uma mistura tradicional de argila, cinzas de madeira, cal, sal, chá e, por vezes, casca de arroz ou carvão vegetal em pó. Esta pasta envolve o ovo e inicia um processo químico de conservação durante semanas ou meses. A clara transforma-se em algo do tipo de uma gelatina escura, a gema fica cremosa, verde-dourada ou acastanhada, e o sabor torna-se intenso, salgado e ligeiramente sulfuroso.

Ele não é pensado para ser comido isoladamente como um ovo cozido comum. Comem-se em pequenas porções. Normalmente, misturados com outros ingredientes: tofu, molho de soja, gengibre, cebolinho, “pickles”, etc.
Não faço ideia se já provei estes “pidan” nas refeições da residência. Porém, agora, não vou comprar, porque quero comer os ovos cozidos, sozinhos.

Lenços de papel a 13,5 yuans (1,62€).

Enquanto estive no mercado, a Mia enviou-me uma mensagem pelo WeChat, perguntando onde me encontrava e dizendo que os artistas têm, agora, um chá com a presidente e fundadora da NongYuan, Yang Li.

Ao centro, vemos a nova artista que entretanto chegou: Bianca Popa, da Roménia. A sua prática artística combina escultura, animação “stop-motion”, criação de vídeo e arte de marionetas.

No lado direito, está o Toni, que, sendo fluente em Inglês, vai ajudar-nos a traduzir as conversas.

A outra artista do meu grupo, Anna, já aqui esteve também. A Joanna parte hoje para a Polónia e, pelo que percebi, já participou num chá com o grupo anterior de artistas, antes de eu chegar a Chengdu.

Nós os quatro conversámos um pouco, e a Yang contou-nos que já esteve em Portugal. Mostrou-nos algumas fotos que tirou na cidade do Porto. Foi uma conversa informal, simpática, de apresentação mútua, que durou cerca de meia hora.

A Joanna prepara-nos uns saborosos “dumplings” típicos da Polónia, como despedida, antes de regressar, hoje, ao seu país.

Uns visitantes do parque, que vou convidar para conhecerem o meu estúdio.
Talvez seja preciso esclarecer que os artistas não têm obrigação nenhuma de convidar as pessoas para visitarem os seus estúdios. Faço-o porque me apetece, porque é a minha natureza. É o que faço sempre, em todas as residências artísticas. É um prazer, para mim, falar com a população local, mesmo usando os tradutores nos telemóveis.

E mesmo que não se trate de uma residência artística – sendo simples viagens de turismo –, tenho muitos exemplos em que acontece o reverso: eu é que sou convidada a entrar nas suas casas, nos vários países por onde viajo, inclusivamente na China.

Recordo uma dessa situações em Yunnan, onde eu estive há nove anos, em 2017, num cenário profundamente rural, totalmente oposto a Chengdu. Nessa altura, ainda não usava os tradutores no telemóvel.

Agora, estou com a Sonam, que anda a passear sozinha pelo parque. Tem 15 anos de idade, é tibetana e quer divertir-se, diz-me. Anda a ver o que se passa por aqui. Dá-me também um nome em Inglês, escolhido por si, para facilitar a comunicação entre nós: Jessica. Mas digo-lhe que prefiro mil vezes o seu nome verdadeiro, que é tão bonito quanto o outro. Infelizmente, não consegui conversar com a Sonam, porque tive de ir preparar o “workshop” das crianças.

São 14h24 e a Mia ajuda-me a trazer material de pintura para este espaço dentro do parque, onde irei conduzir um “workshop” de pintura destinado a crianças entre os três e os cinco anos de idade. O “workshop” terá início às 15h00 e a primeira parte ficará a cargo de uma professora de Inglês – Audrey –, que irá ensinar às crianças os nomes, em Inglês, das várias partes de uma borboleta. Nesta fotografia, já se vê um dos jovens participantes: Chaochao. Todas as crianças já falam Inglês. Os pais colocaram-nas em escolas de Inglês para irem aprendendo, naturalmente, desde pequenas.

São 15h14 e todas as crianças já estão instaladas e a ouvir a Audrey. Ao fundo, estão os pais.

A Audrey formou-se na Austrália e tem um Inglês perfeito.

Antes de darmos início ao “workshop” de pintura, realizámos uma visita ao meu estúdio. Claro que é uma festa ter tantas mãozinhas pequeninas a mexerem em tudo, numa algazarra. Lembro que já, na ocasião da crónica 18, tive o estúdio cheio de crianças, embora um pouco mais velhas do que estas. A sua curiosidade é extrema, o que é natural em todas as crianças. Até a minha fruta andaram a ver: ananases, manga, fruta-do-dragão (ou pitaia). Aqueles dedinhos tiveram de mexer em tudo.

Para além do Chaochao, temos connosco o Pupu, o Zhengnan e o Anan.

O meu papel foi distribuir as cores entre todos: “Quem quer o vermelho? Quem quer o azul?” E por aí afora. Ainda ponderámos, previamente, a possibilidade de lhes explicar as misturas de cor, experimentando, por exemplo, juntar o azul e o amarelo, o que dá verde. Porém, eles lançaram-se ao trabalho com tal vigor e rapidez, que, sendo tão pequeninos, já não os travei: “Escutem-me lá primeiro!” Nestas idades, que pintem o que quiserem; esta é uma atividade de fim de semana, e as crianças estão aqui para se divertirem. Terão muito tempo para aprender a teoria da cor. Estar com os pais também influencia as crianças – é sempre diferente estar sozinha com elas.

Na presença dos pais, tendem a surgir dinâmicas de liderança partilhada ou alternada. Contudo, sendo tão pequeninos, a ajuda dos pais foi bem-vinda: dispersou-se a liderança, mas não se dispersou tanto a tinta.
Falámos sempre em Inglês entre nós: “Who wɑnts the blue?”

São 16h34 e o “workshop” está na fase final, na fase das limpezas. Foi uma tarde muito divertida e descontraída. O pequeno grupo ainda vai com a Audrey, a professora de Inglês, visitar a galeria de arte. Eu e a Mia ficamos a arrumar as tintas e os pincéis. Uma funcionária do parque virá limpar as mesas.

Entretanto, são 18h00. Nesta noite, temos “hot pot” para o jantar. Efetivamente, é o aniversário do marido da presidente Yang Li. Este recinto fica dentro do parque.

“Hot pot” é uma refeição em que há um tacho com caldo a ferver no centro da mesa, enquanto vão chegando pratos com ingredientes crus. Cada pessoa vai cozinhando tudo, no próprio momento, dentro do caldo. É uma refeição típica em toda a China, apesar de cada região ter determinadas particularidades. Aqui, em Chengdu, normalmente inclui duas opções: um caldo picante e avermelhado, cheio de malaguetas e pimenta de Sichuan; e um caldo mais suave (com cogumelos, ossos, tomate, etc.). Este tem frango e eu ingeri duas ou três taças.

Cada pessoa vai cozinhando tudo, na mesma ocasião, dentro do caldo. A refeição pode durar várias horas, porque é lenta, social e contínua. Ao contrário de uma refeição servida pronta, o “hot pot” prolonga o tempo da refeição.

Aquelas barras amareladas, com um molho vermelho em cima, constituem o “liangfen”, uma gelatina alimentar feita com feijão-mungo ou de outros géneros ricos em amido, como ervilhas amarelas, grão-de-bico, trigo-sarraceno, batata-doce, bolota ou misturas de cereais e de leguminosas. Mostrei a respectiva venda em grandes barras no mercado Wangjin, como se pode rever na crónica 6.

É servida fria, com molho picante, vinagre, alho e coentros. O contraste entre a gelatina fresca e o molho picante é uma das razões da sua popularidade.

Tenho alguma dificuldade com a comida muito picante, por isso provei de tudo. Mas pouco comi, a verdade seja dita. Para mim, é mais pela festa do que pela comida. Já tinha comido um “hot pot” em Yunnan e, em breve, irei participar ainda noutro, no centro de Chengdu. É sempre uma refeição emocionante.

Aquele vegetal branco redondo, dentro da panela, com buracos no centro, é raiz de lótus. As tiras brancas no cesto são nabo.

A Jiang Yijia, diretora de arte e diretora-geral da NY20+, está ao lado do pai, de “t-shirt” vermelha. É ele o aniversariante: Jiang Lin, marido de Yang Li. A Jiang é filha de ambos.

Posso dizer que este bolo é maravilhoso. Comi três fatias 🙂.

20/08/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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